Essencial: Designers Brasileiros - Bea Feitler

Johnny Brito
Nov 9, 2016 · 6 min read
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[Para inaugurar os textos sobre design no Vertentes, escolhemos começar com a série Essencial, onde traçaremos o perfil de grandes nomes do design nacional e mundial. A intenção aqui não é escrever uma revolucionária biografia desses designers, mas oferecer informações o suficiente para que mais pessoas se interessem em pesquisar e aprender sobre esses profissionais.]

Entre os nomes que há para se conhecer na história do design gráfico brasileiro, com certeza um dos mais surpreendentes é o de Bea Feitler.

Nenhum sino tocando na sua cabeça? André Stolarsky deu uma pista do porquê:

“Para muita gente importante Bea foi a maior diretora de arte que existiu. Ela sabia orquestrar com precisão equipes multidisciplinares de altíssimo nível. Ficou relegada ao segundo plano por aqui porque, na época em que fez sucesso, o debate sobre design no Brasil estava muito influenciado por questões racionais e funcionais, se voltava bem mais para objetos. Bea brilhava na moda, o lado fútil da atividade. Agora é hora de resgatarmos o trabalho dela. Afinal, ela foi figura central e definitiva para um monte de publicações importantíssimas mundo afora.”

Filha mais velha de um casal de judeus que escapou da Alemanha nazista, Bea nasceu no Rio de Janeiro, em 1938. Começou a demonstrar interesse por artes ainda na adolescência e em 1959 se graduou na Parsons School of Design, em Manhattan. Pouco tempo depois, tornou-se co-diretora de arte na renomada Harper’s Bazaar. Ela tinha apenas 25 anos. Yeap.

Feitler atuou pouco tempo no Brasil, basicamente entre sua formatura, em 1959 (quando retornou ao país) e 1961. Por aqui, ela trabalhou na equipe da revista “Senhor”, onde logo emplacou algumas capas. Na publicação, ela colaborou com nomes como o artista plástico Glauco Rodrigues e Jaguar, com quem logo depois fundou o Studio G, especializado no design de cartazes, discos e livros. A experiência foi breve. Em entrevista ao O Globo, em 2012, Jaguar conta que Bea era tão vanguardista que o negócio não deu certo:

“Eu me lembro de termos feito o design de uma sapataria em Copacabana… Era lindo, mas tão moderno que o dono da loja teve que se desfazer dele em pouco tempo para evitar rebuliço.”

A sapataria em questão era A Parisiense, único projeto realizado pelo estúdio antes de fechar as portas.

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O trabalho na revista “Senhor” foi fundamental para que Bea continuasse seu desenvolvimento como designer, encontrando ali um espaço de inovação e experimentação onde, sem medo, ela podia ter sucesso, ou falhar.

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Em 1961, Marvin Israel, um ex-professor de Bea na Parsons, se tornou diretor de arte da Harper’s Bazaar. Ainda nos primeiros números da revista sob sua batuta, Israel convidou Feitler para ser sua assistente de arte, ao lado de Ruth Ansel. Com apenas 23 anos de idade, a jovem designer voltou para New York e iniciou a jornada que a tornaria mundialmente conhecida.

É importante lembrar que os 10 anos em que Bea atuou como co-diretora de arte na revista aconteceram justamente ao longo dos anos 1960, uma época de profunda transformação social e cultural em todo o mundo e, de maneira especial, nos Estados Unidos. Movimentos Sociais, Corrida Espacial, Guerra do Vietnam, Rock, Pop Art, Op Art. Tudo isso encontrava lugar no repertório da brasileira, resultando numa revista que dialogava de forma orgânica e enérgica com seu tempo. Muitas vezes, à frente dele.

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O trabalho de Bea nas capas e páginas da Harper’s Bazaar foi marcado por um intenso e refinado uso da tipografia como elemento de destaque; completa integração entre texto e imagem ao longo de grandes splash pages; um vívido diálogo com as escolas artísticas da época e a ideia de que as imagens deveriam contar uma história, fazendo parte de uma narrativa visual fluida e natural entre as páginas. Ao observar essas páginas, é possível notar o quão influente foi (e ainda é) o trabalho de Feitler. Ainda hoje, tantos anos depois, suas composições ainda parecem ousadas e inovadoras.

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“A magazine should flow. It should have rhythm. You can’t look at one page alone, you have to visualize what comes before and after. Good editorial design is all about creating a harmonic flow.”

- Bea Feitler

Para não me delongar ainda mais, deixo aqui alguns fatos incríveis sobre a vida dela que nos fazem questionar o quanto nós, jovens designers brasileiros, estamos cientes sobre a pessoa e profissional que foi Bea Feitler:

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Capa da edição comemorativa dos 10 anos da revista Rolling Stone, trabalho de Bea Feitler
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Capa da primeira edição da Vanity Fair, já com projeto gráfico de Bea Feitler, pouco antes de morrer

Como parece ser comum aos gigantes, infelizmente Bea morreu muito jovem em 1982, aos 44 anos, depois de batalhar contra um câncer. É impressionante o que essa mulher produziu e deixou de legado para o design gráfico mundial em seus vinte e poucos anos de carreira!

Quer saber mais? Aqui vão algumas dicas:

Palestra com Ruth Ansel sobre direção de arte, onde ela conta também sobre sua parceria com Bea Feitler

Como parte desse esforço pessoal em resgatar e conhecer mais sobre a história do Design Gráfico, criei o cartaz Essencial: Designers Brasileiros. A arte está disponível em forma de cartaz (opte pela opção formato A2), camiseta, bolsa e outros produtos na nossa loja na Colab55. Lá, vocês podem encontrar mais produtos estampados com nosso trabalho, como ilustrações, colagens e fotografias ;)
A pesquisa para o design desse cartaz, por si só, rendeu uma ótima história que contarei mais à frente, num próximo post.

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Designer Gráfico e Ilustrador. Apaixonado por símbolos, cores, formas, música e cinema. Nascido em Recife-PE, criado em São Paulo-SP.

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