Não Mergulhe

Maria Svarbova e suas realidades distópicas

Maria Clara Feitosa
Dec 6, 2016 · 5 min read
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Para falar mais das Marias, trago outra referência que tenho guardada na beira da memória e com relativa frequência volto a pensar nela. Ela é da Eslováquia, mais nova que eu e já tem um estilo marcante que me impressiona e instiga.

Eu encontrei essa moça enquanto passeava pelo Behance procurando referências para um pequeno projeto de escola. Mais para frente posso falar dele.

Maria Svarbova estudou arqueologia e restauração, e assim como muitos de nós mortais, voltou-se para a fotografia como forma de, como ela mesma diz, expressão. Suas cores, tons pastéis meio “wesandersoniêscos”, sua estética plástica e moderna, criam uma sensação de nostalgia. Ainda assim, que falam tanto sobre o passado como de um futuro não muito distante. Mais pra frente falo porquê. Enfim, é essencialmente sobre o ser humano quase como objeto. É, fundamentalmente, uma série sobre nosso comportamento não natural.

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The Butcher/ Anna and the Adults.
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Plastic People.
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Alone.
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Os planos gerais, munidos das cores lavadas e ainda assim ricas, remetem um espírito meio anos 50/60. Época em que reinava um sentimento de “satisfação” nos cacarecos e utensílios modernos. Cores quentes, suaves, claras, que remetem o novo de forma afetiva. Planos sistemáticos, simétricos e posados falam da plasticidade e da artificialidade nos relacionamentos que, convenhamos, só ficam cada vez mais artificiais, ou mais mediados por meios artificiais.

Mas o trabalho que de fato a fez ter reconhecimento mundial foi a série In Swimming Pool:

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A série foi publicada no The Guardian, onde a matéria exalta a beleza tensa e o ar de mistério presente nas imagens. Svarbova se inspirou na arquitetura da piscina local.

‘O edifício tem 80 anos de existência e data de um tempo em que piscinas eram mais voltadas para deveres sociais que para esporte — azulejos completamente brancos e placas de “Não Mergulhe.” ’

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Fonte: Photo Vogue

São mais sóbrias, mais frias e definitivamente comerciais. Não são minhas preferidas nem me chamam tanta atenção quanto as imagens “etéreas” que ela produz.

Falando de forma menos prática e mais informal, mais uma fotógrafa me fala muito mais de solidão existencial, de distanciamento, de artificialidade. Não é tão distante da realidade, mesmo que sejam retratadas, inclusive, com cores impossíveis de existirem em vida real.

Posso fazer, inclusive, um paralelo, uma comparação talvez, com duas produções que falam ligeiramente disso:

Primeiro, o Wes Anderson (que mencionei lá em cima), que tem um cuidado melindroso com as cores de suas produções, e quando destrinchadas das cenas, mostram uma coerência que passa não apenas pelas cenas de um mesmo filme, mas por todas as suas obras.

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No topo à esquerda “The Royal Tenenbaums”; topo à direita “Moonrise Kingdom”; embaixo à esquerda “Fantastic Mr. Fox”; embaixo à direita “Grand Hotel Budapest”. Fonte: Paste.

Outro paralelo, muito mais sutil, e que talvez tenha muito mais a ver com o tema abordado pela Maria do que precisamente as cores, é o primeiro episódio da terceira temporada do Black Mirror. Quem não ficou aterrorizado com como aquela realidade está a dois passos de hoje?

Nosedive, em tradução literal “mergulho de nariz”, quer dizer queda livre e rápida. Foi dirigido pelo Joe Wright, diretor de Anna Karenina e da última (e, pra mim, a melhor) versão cinematográfica de Orgulho e Preconceito. As cores são, assim como nas imagens da Maria e do Anderson, protagonistas. É interessante como os tons pastéis quentes sempre voltam a tona na representações de realidades distópicas. A crítica em Black Mirror, porém, e para nosso grande desespero, é que a realidade mostrada nesse episódio parece tão possível, se já não é real, que nos leva a questionar nossa própria realidade. E não somente por causa da presença dos gadgets e do que parecia ser um facebook do futuro, mas da “assepsia” nos relacionamentos.

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Imagens de Black Mirror T03E01 — Nosedive. Dirigido por Joe Wright.

Enfim, eu nem risquei a superfície do que a Maria já produziu. É o tipo de artista que precisa ser desbravada, explorada.

Recomendo que você passeie pelas imagens da Maria Svarbova. Todas as séries são inesperadamente impressionantes pelo peso trazido com simplicidade. A tensão suave. É doido dizer isso? rs. Não mergulhe para considerar os aspectos técnicos e estéticos. Nade nas questões levantadas por ela.

A ironia é, que apesar das placas de “não mergulhe”, que estão por todos os lados, o “nosedive” está sendo bem real.

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