A flecha atinge a gaze
Rodrigo Janot prepara sua artilharia contra o coração do poder

“Tem que mudar o governo para estancar essa sangria”, encerrou a frase Romero Jucá, senador do PMDB de Roraima e líder do governo na Casa. O interlocutor era Sérgio Machado, ex-senador do PSDB – atualmente filiado ao PMDB de Jucá – e ex-presidente da Transpetro, processadora de gás subsidiária da Petrobras. O bate-papo criminoso, gravado por Machado, que desenhava um acordo de delação, ocorreu às vésperas da votação do processo de impeachment contra Dilma Rousseff na Câmara, que culminou na queda da petista da cadeira de presidente e colocou no posto um grande aliado de Jucá, Michel Temer. Divulgadas, as tramóias gravadas culminaram na queda de Jucá do Ministério do Planejamento, quando o governo Temer engatinhava em seus desmandos.
No mesmo esquema que envolvia os dois gravados, de acordo com a delação de Machado, estavam nomes fortes do PMDB no Senado. Na tarde desta sexta-feira, o procurador-geral da República desferiu novas flechadas contra o partido. Às vésperas de ser substituído por Raquel Dodge no comando do Ministério Público Federal, o pesadelo de Temer apresentou denúncias contra os senhores bigodudos Jucá e José Sarney, ex-presidente da República; e contra os senadores Valdir Raupp (PMDB-RO) – réu no Supremo Tribunal Federal na Lava Jato –, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN) – primo do ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves, preso pela Lava Jato –, e Renan Calheiros – cuja apresentação pode basear-se em qualquer um dos 17 inquéritos aos quais responde no Supremo.
Os peemedebistas são acusados de receber, via doação oficial para campanhas, repasses de propina pagos por empresas contratadas pela estatal comandada por Machado.
No ímpeto de derrubar o presidente, vestindo cores assumidamente contrárias às de Temer, Janot busca enfraquecer o núcleo político do homem que não renunciará. Desde a divulgação dos autos e áudios da delação da JBS, o procurador-geral buscou estremecer o núcleo próximo a Temer, o chamado ‘PMDB da Câmara’, encaminhando acordos de colaboração de integrantes da quadrilha, e agora mira seu bambu nos lordes apadrinhados – mesmo que Renan Calheiros, ansiando ser reeleito, seja um desertor e apareça em comícios ao lado de Lula.
A delação de Lúcio Funaro, doleiro tido como “operador de propinas do PMDB”, arquitetada por Janot, promete embasar a próxima denúncia criminal contra o presidente. No ninho que era casa de Temer – o presidente comandou a Câmara dos Deputados em duas ocasiões –, Funaro ensaia denúncias graves contra o mandatário do país. Talvez explique os crimes cometidos por Temer no porto de Santos e as relações destrinchadas por Marcelo Odebrecht, que relatou a atuação do então vice como marqueteiro transviado. Eduardo Cunha, por sua vez, perdeu poder de fogo – pelos autos apresentados, os crimes relatados pelo ex-presidente da Câmara se assemelham muito aos delatados por Funaro, além de Cunha parecer tentar proteger os companheiros de ilegalidades.
Janot prepara o arco, aponta a flecha e, nos momentos finais de sua artilharia pessoal, busca atingir o âmago do poder aboletado em Brasília.

