As cem fardas
A camisa azul ensanguentada trazia um nome no peito

Era o janeiro quente de 2012. O homem de barba branca fazia sinal para um táxi. Empunhava um caderninho e tinha um lápis no bolso da calça. O carro amarelo nos levaria ao Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro. Edgard combinou com o taxista que nos buscasse, para não compactuar com os mafiosos aboletados nas portas do aeroporto ─ aqueles que combinam corridas e põem para correr os que não estão na corriola.
Atentamente, o velho jornalista tinha meus ouvidos enquanto, no banco da frente, dissertava sobre o encontro que teríamos: um delegado da Polícia Civil encaminharia um artigo para seu blog no site de CartaCapital – onde Edgard desembocava suas porradas nos desgovernantes corruptos do estado. Descemos na ala de embarque e caminhamos a um ponto de encontro qualquer. O ambiente detetivesco me remetia a memórias juvenis ─ ou contemporâneas, à época. Me sentia um Tintim paulistano em terras não exploradas, com ares superiores de um personagem qualquer de Agatha Christie. Era um papagaio de pirata, sobre os ombros do vovô, de olhos atentos. Um sabujo de riso nervoso, fantasiado de John Watson de cueiros. Numa pilastra em frente a um guichê de companhia aérea, um homem nos fez sinal.
─ Edgard? ─ indagou.
Meu avô apresentou-nos. Estendi a mão.
Escoltados a um dos caríssimos cafés que o aeroporto abriga, os primeiros sussurros começaram a soar como sacrilégios aos olhos do Estado. Sentado ao lado do jornalista e sua fonte, fazia cara de entendido, fingindo não me assustar os meandros do poder, o descaso do Estado, a inserção das milícias como autoridade extraoficial.
Uma imagem jamais me saiu da cabeça: o oficial, entrincheirado em uma das favelas cariocas, com o coturno pisando no cérebro do companheiro caído, alvo de um tiro de traficantes. A farda esmorecida trazia um nome no peito. O nome de um homem que tomava cerveja assistindo o jogo do Flamengo no domingo, que recebia o sujeito da Light para medir o consumo de luz. Que saía para o trabalho pela manhã, depois de beijar a esposa e o filho.
Os excessos da polícia, defendia, eram vistos por uma ótica distante do humano sob a camisa azul e as ombreiras estreladas. O fim do expediente é incerto. Poderia acabar em casa, ao lado da mulher que reclamaria sobre as contas e a festa da prima. Sob os abraços dos filhos e o mesmo jogo de bola assistido na tevê, jantaria um requentado arroz com feijão. Dormiria cedo nos braços da moça. Poderia também descansar sob a salva de tiros e a bandeira do Brasil em qualquer cemitério onde, morto, ocuparia um lugar nas estatísticas que estampam as manchetes dos jornais. A moça o teria numa foto qualquer emoldurada. Os filhos, a lembrança.
Meus olhos incautos ganhariam fôlego, estômago, sabia eu. Esperava, no mínimo.
Depois de duas horas de entrevista, nos despedimos do policial e encontramos o mesmo taxista que nos deixara no Aeroporto. Saí pelos portões do aeroporto com a certeza que faria meu avô botar para dentro um antidepressivo: eu queria ser jornalista. Queria contar essas histórias, provocar reflexões e expor os meandros corruptos do poder, as dores mundanas, as injustiças.
Cresceu-me barba e hoje vos escrevo.
Cinco anos e meio depois do encontro com o policial, abri o Estadão na manhã dominical de 27 de setembro. A manchete gritava pela vida do centésimo policial morto no Rio de Janeiro no ano. O sargento da Polícia Militar Fábio José Cavalcante e Sá fora alvejado por mais de dez tiros enquanto ia visitar os pais. Um deles, de fuzil, explodira a cabeça de Fábio que, à paisana, caia na calçada em frente ao pai em São João de Meriti.
O jornal Extra, um dos mais lidos na capital fluminense, adotou um termo duro que traduz o cotidiano carioca para tratar dos escombros da segurança pública no Rio: guerra. Na mesma edição de domingo do Estado, o policial militar Marcos (nome fictício), há três anos na instituição, traduziu, em um depoimento publicado na íntegra pelo jornal, o drama diário de ser policial no Rio de Janeiro – entre o risco de ser mais um no obituário da corporação e colocar comida sobre a mesa de casa. O descaso – e bancarrota – do estado também são alvo de lamento de Marcos. “O Estado virou as costas para a gente e a sociedade também. As viaturas não têm condições de circular. (…) O armamento também não tem manutenção. Já aconteceu de no meio do tiroteio meu fuzil dar defeito e os dos bandidos lá, funcionando”, relatou.
Com o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) comemorou o sucesso de operações para coibir os roubos de carga que assustam os viajantes na Linha Vermelha e para apreender armada e drogas nas favelas da cidade. Mal pagos, treinados e amparados, os oficiais de polícia batem continência ao governador como marqueteiros a serviço do açoitante poder público. As operações, mal desenhadas, sempre benquistas pela sociedade, servem como banners de campanha para as eleições do ano que vem.
Enquanto as famílias de 2.723 vítimas de homicídios no estado no ano – dados de janeiro a julho do Instituto de Segurança Pública do Rio – choram sob os corpos derrubados pela ineficiência corrupta das gestões dos últimos anos, os homens e mulheres fardados aumentam as estatísticas. Desamparados e marcados como inimigos pelas fardas gritantes entre os barracos, bocas e fuzis, os policiais temem. Os cem soluços debruçados sobre caixões emoldurados por nossa bandeira não podem ser em vão.

