Barões da ralé?
A cidade do Rio de Janeiro assiste a bancarrota corrupta transformar-se em guerra

O estridente e seco som é inconfundível para motoristas desavisados que tentam dar marcha à ré, para ouvidos pobres abrigados em barracos, para moleques abaixados e envoltos por surradas camisetas brancas que levam o nome da cidade do Rio de Janeiro no peito, entrincheirados por professoras desesperadas ─ e com salários atrasados ─ em uma das escolas que margeiam a Via Expressa Presidente João Goulart, conhecida publicamente como Linha Vermelha. O estado está em calamidade pública, em bancarrota; as polícias fardam bandidos que traficam armas para os bandidos do outro lado; um frio estranho ostenta a orla da Zona Sul.
“A gente espera atualizar o pagamento dentro do mês de agosto. Temos a venda de folha de pagamento, que vai dar um valor significativo. Estamos contando com esses recursos em agosto”, mentiu o governador Luiz Fernando Pezão, em entrevista coletiva nesta quinta-feira, retornando de licença médica. Pezão espera a benevolência do BNDES para antecipar recursos a serem obtidos com a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) ─ o que garantiria 3,5 bilhões de reais emprestados em troca de ações da estatal, para acertar os dois meses de salários não pagos, além do 13º do ano passado. Enquanto o governador balança no cargo, assolado por denúncias de corrupção e a rejeição de suas contas de campanha, o Rio de Janeiro continua sendo ─ e só sendo.
O governador se reúne com Moreira Franco para implorar recursos e ignorar os motoristas da linha de ônibus 474, que soltam o terço para puxar a manivela que libera as portas do veículo. Desemboca a violência fantasiada de infância que interrompe ensolaradas manhãs para assolar os vãos banhistas que caminham à beira-mar. São moleques filhos do crime, iludidos pelo ópio que promete correntes de ouro e mulheres, ou o tambor que laureia com marcas na pele os filhos do Rio de Janeiro que exala a inépcia e a corrupção de seus mandatários.
Dados do Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro atestam que a cidade hospedou, em 2016, (assustadores) 6248 casos de mortes violentas ─ homicídios, latrocínios e afins. No mesmo período de 2017, porém, o índice subiu 18%.
Michel Temer determinou, na tarde desta quinta-feira, que 800 militares auxiliem a segurança pública da capital carioca. Os acordos de ajuda financeira do Governo Federal para o estado do Rio engatinham e não são suficientes para quitar os salários dos servidores públicos que permeiam os órgãos capengas patrocinados pela trupe peemedebista que governa o grande Rio há dez anos ─ com intervalos pontuais de Francisco Dornelles, do Partido Progressista, ocupando o cargo de Pezão interinamente.
No presídio de Bangu descansa Sérgio Cabral, ex-governador, preso pela Lava Jato e rei nas plagas fluminenses que ostentam mazelas e dor de uma população cansada. O uniforme verde já está mais largo. Sobre um colchonete, o peemedebista não se assusta mais com novas aceitações de denúncias e notícias negativas que seus advogados transpõem às grades da cela. O todo-poderoso condenado por desvios em obras no Complexo Petroquímico ─ em uma das 12 ações em que é réu ─ e “líder de uma organização criminosa”, segundo o procurador-geral da República Rodrigo Janot, que embolsou milhões de dólares disfarçados de jóias da HStern para a mulher, Adriana Ancelmo. Amigo de viagens aéreas para sua mansão em Mangaratiba, as cifras desviadas pelo governador e sua trupe somam centenas de bilhões de reais.
Enquanto convive com a ineficiência, politicagem e roubalheira dos políticos cariocas, o povo outrora alegre segue amedrontado ─ seja na Central do Brasil ou no Leblon. A molecagem dos trombadinhas de tempos idos transformou-se em assassinatos por um celular, trocado por pedras de crack. Observado pelo redentor, filho de Deus que dizem vestir a canarinha, os boêmios, os peladeiros das areias, as senhoras religiosas, o sorridente povo sente falta dos quase líricos malandros da Lapa ─ que, hoje, ostentam fuzis e mandatos na Guanabara.

