O Engenhão de Brasília

Rodrigo Maia já agrada os vorazes por imoralidade. E o Brasil?

Viés
Viés
Jul 10, 2017 · 3 min read

Em 2007, o Partido da Frente Liberal (PFL) reinventava-se como Democratas. Com cheiro de naftalina, carcomida pelas traças, a roupagem do partido que representava o limbo ideológico que assombra o Congresso Nacional era arrancada do fundo do armário como reinvenção da velharia que representava. Medalhões astutos da politicagem que Brasília abriga vestiram a toga liberal para profanar o mais velho discurso do “novo na política”, com artroses e rugas diagnosticadas já no nascimento.

E foi com a casaca vestida que o novo DEM apresentava o presidente do partido. Numa propaganda que consagraria figurões das páginas dos jornais, Rodrigo Maia surgia como a liderança lépida e de mangas arregaçadas que representaria a mudança das diretrizes éticas da política brasileira. “Se eu conseguir mostrar às pessoas que é um partido novo, que é um partido moderno, um partido que está preocupado com o dia-a-dia, com os problemas dos cidadãos, eu tenho certeza que esse partido será um partido grande e forte no futuro”, gesticula Rodrigo Maia, que apresenta-se como “um político de 36 anos”, reiterando a jovialidade no olhar democrata com o qual sorri à frente da bandeira do DEM enquanto é embalado por um jingle tocante e ratificado por cidadãos simples sorridentes com o candidato carioca.

Cesar Maia, o pai de Rodrigo que usa as mesmas cores do filho, não serviu como imagem ─ ou, se serviu, foi negativa ─ para o filho deslanchar como figurão novo da repugnante política carioca. Anos depois da mudança de nome do partido, em 2012 Maia lançou-se candidato à prefeitura do Rio de Janeiro e amargou a terceira colocação ─ atrás do neófito psolista Marcelo Freixo e do vencedor falastrão Eduardo Paes, do PMDB. Nem as alianças ─ vejam quantos idealismo e novidade ─ com a família Garotinho garantiram a Maia um lugar, sequer, no segundo turno.

Representante do baixo clero da Câmara, Maia se viu alçado ao papel de presidente da Câmara depois da renúncia de Eduardo Cunha, assolado pelas denúncias de corrupção, do posto. Eleito para um mandato-tampão no comando da Casa, o sorriso bobo e as bochechas salientes agradavam o PMDB e o chamado centrão, enquanto Maia era visto por Michel Temer como um ator essencial para o diálogo com os trocadores-de-votos-por-cargos para aprovar as reformas que o governo vê como mote de gestão ─ além de, claro, escapar das garras da justiça.

A inércia do Judiciário que exala política regeu a recandidatura de Maia ─ visto, ressalte-se, como peça fundamental no xadrez de Temer ─, confirmando o poderio político e influência que um outrora Zé Ninguém tinha no Planalto. Alçado com pífia votação à Câmara presidida, Maia é acusado de corrupção pelos delatores da Odebrecht que deram ao demista o carinhoso apelido de Botafogo. O deputado teria recebido benesses da empreiteira que dita os rumos eleitorais do país.

Maia nega, mas imagina os cobertores do Palácio da Alvorada, ao lado da enteada de Moreira Franco, com quem é casado. Além do sogrão amigo de Temer, parte dos congressistas veem no botafoguense o nome ideal para a “aprovação das reformas” e “tocar o país até 2018”. A vocação de remendo se mostra como um diferencial do currículo de Maia: tampão na Câmara, tampão na presidência da República. Botafogo conseguirá a proeza de presidir o país tendo pouco mais de 50 mil votos e milhões pagos pelos construtores de ruínas da Odebrecht.

Os deputados que votam pela admissibilidade do processo contra Michel Temer e os senadores que protegem Aécio Neves parecem ignorar, novamente, os anseios da população por um personagem alheio aos péssimos modos que se tornaram modus operandi nos três poderes. O que difere Michel Temer e Rodrigo Maia é o poderio político e o tempo de escola na nefasta Câmara dos Deputados ─ e nada mais. Se candidato eleito pelos senhores amedrontados for promovido a chefe do Executivo, como prometem as articulações que alas do PSDB e do PMDB vêm dialogando, o Legislativo provará novamente a vocação para a politicagem em detrimento ao interesse público, que quer ver a corja que rege o país fora das construções de Oscar Niemeyer ─ e, de preferência, nas cadeias paranaenses.

Viés

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