Os grisalhos olhos azuis
Flanando do Irajá a Copacabana, Chico chega em sua caravana como um velho amigo

Os olhos azuis que contrastam com um sorriso tímido escondem-se em olhadelas para um violão. Lampejos de moça triste lhe escrevem um peito, rugas e cabelos esbranquiçados apresentam um menino vadio. Nas erudições sensíveis, na ríspida sutileza com a qual deleita cruzados, lá está Chico Buarque. Ele volta, leve, falando nada enquanto tudo fala. Os olhos andam atentos – cansados, acomodados, mas atentos.
A genialidade do moleque de pernas finas no campinho do Politheama transformou-se em cadência. Chico, do atacante leve e liso, recuou ao meio-campo de onde observa e distribui o jogo. O disco Caravanas, lançado hoje, depois de seis anos sem produções, é uma ode ao amor, à leveza, com uma pitada de saudosismo e acidez.
Quem esperava a rispidez do homem de Cálice, a genialidade de O que será, a imersão de Sem fantasia decepciona-se. Os vinte e poucos anos de Chico passaram, os anseios pueris, os amores lancinantes, as dores, os sonhos de liberdade política. Chico flana sobre amores maduros e confortáveis – mesmo que no papel de amante, em Tua cantiga –, brinca com a Bia, cujo coração “meninos não têm lugar”, veste roupas já usadas em A moça do sonho, lotada de confortáveis – e geniais, mas esperáveis – chiquices, de casarões onde sabe estar pisando. Carrega ironia e tristeza em Casualmente, brincando com as lutas, utopias que, na juventude cabeluda e lotada de sonhos, esmoreceram. Acabaram.
O ponto alto do disco reserva um soco no estômago das senhoras escondidas por óculos gigantescos e besuntadas em bronzeador. Chico chega num busão vindo do Jacarezinho e toma de assalto os entreolhares para os meninos pretos sob o sol. As caravanas, música que intitula o álbum, é o mais próximo do rapaz que desfere poesia contra as matizes sociais e políticas de Pindorama. Esperava – sinceramente, esperava – uma porrada qualquer em Michel Temer, carregada de lirismo e carícia poética que contemplam a obra de Chico Buarque. “Mas eis que chega a Roda Viva e carrega a viola pra lá”.
A Roda Viva de Chico passa. Ele contempla o ido, não tenta ser o que foi, sendo o que é. É difícil escrever sobre Chico baseando-se nos escritos tantos que lancinaram e embalaram meus vinte anos, o meu coração, que numa travessia do tempo, disseram o impossível entre o timbre característico, as rimas improváveis e o rosto de moleque. Ele não tenta ser o que não é, não veste carapuças que já fizeram sentido, amores meninos. Maduro, faz menos, sendo real. É de uma vileza tamanha, porém, como pontuo, comparar realidades distintas de um mesmo homem.
Chico, do alto de sua obra, são Chicos tantos. O menino carregado de sonhos, amores e virtudes. O senhor que brinda os ouvidos com os olhos azuis carregados de histórias.

