24 horas sem energia na maior cidade do Brasil

Escuridão, niilismo, terror, mídia e redes sociais

Na sexta-feira, por volta das 19h, uma árvore despencou na rua e arrastou transformador, fiação, muro. Uma tremenda bagunça. Eu estava revisando um texto de forma disciplinada: word, uma única aba aberta num dicionário, e nada de redes sociais ou navegação aleatória infinita. Então ouvi o barulho de curto lá fora. O quarteirão todo ficou sem luz. A bateria do meu bom e velho Samsung rv 4111 ainda aguentou meia hora, mas depois só a escuridão total.


A queda de energia aconteceu antes que eu tivesse visto qualquer notícia sobre os atendados na França. Uma hora depois, a Quel chegou em casa e me contou que tinha ouvido no rádio sobre os ataques. O celular dela estava descarregado e a bateria do meu estava no final. Antes que meu celular apagasse, ainda se falava em 48 mortos.


Não vi nenhuma foto, vídeo ou artigo sobre assunto até o sábado 19h, quando a luz retornou. Não posso dizer que foi ruim ficar impossibilitado de ser massacrado pela cobertura galopante da imprensa. É tudo triste num caso desses. Radicais armados com ak 47 metralhando civis inocentes, como também as promessas de retaliação (bombardeios a alguma longínqua nação do oriente, onde sempre aparece um pai desesperado erguendo uma criança esfacelada dos escombros). 27% dos mortos em bombardeios são crianças. Tudo é triste e não há esperança. A lógica frenética da cobertura midiática, ao tentar desesperadamente apreender o fato (que sempre escapa arrastado num campo gravitacional de puro niilismo), gera as coisas mais absurdas possíveis nas redes sociais: 1) metajornalismo: o cara que cobre a cobertura da imprensa, como se a cobertura tivesse um valor em si; 2) rusgas ideológicas de todos o tipos.


Voltar para o Facebook depois de 24hs que a notícia já estava disseminada foi uma experiência chocante: o que vemos passar pelas redes sociais não é o fato. É uma versão hipnótica e alucinatória e amplificada daquilo mesmo que aconteceu. Ao ver uma enxurrada de vídeos caseiros mostrando o desespero e o sofrimento das pessoas, não entendemos o sofrimento daquelas pessoas: por maior que seja a solidariedade e a empatia, é inatingível. Não podemos fazer quase nada, senão apenas refletir sobre a importância dos direitos humanos fundamentais, a luta constante contra discursos de ódio de todos os tipos, o respeito a diversidade e a pluralidade de ideias e de crenças. Respeito pela vida, alteridade, liberdade de expressão, combate a desigualdade e a qualquer tipo de atitude discriminatória envolvendo etnia, religião, nacionalidade, sexualidade. São valores humanos, precários, conquistados a duras penas, mas é o melhor que podemos desejar por agora. As únicas coisas que podem evitar uma escalada de ódio irrestrito e indiscriminado.


Muito se fala da repercussão gigantesca desse fato em relação a outras tragédias: mas levando em conta que todos nós consumimos notícia desde que nascemos, não era para haver espanto. A mídia não é democrática, tampouco se pauta na materialidade do fato. O critério de abrangência de uma notícia nunca é o evento concreto, a materialidade, mas a narrativa, a representação do evento. E mais: a relevância dessa narrativa para um determinado público — o eixo central do mundo. Há dois meses, o Boko Haram deixou mais de 150 mortos no nordeste da Nigéria. As vítimas morreram afogadas em um rio ou foram executadas quando tentavam fugir. “O número de pessoas mortas desde o início do ano é realmente chocante, com mais de 3.500 vítimas civis em menos de 300 dias”, declarou em nota o diretor para África da Anistia Internacional, Netsanet Belay.


Não dá para entrar tudo num jornal: jovens jihadistas encapuzados metralhando civis no coração da Europa, da perspectiva da editoria de internacional, é uma narrativa muito mais interessante do que algum conflito obscuro envolvendo cidadãos africanos. É assim que funciona um jornal comercial. Por outro lado, é inegável que um ataque como este mexe com a geopolítica internacional. Do ponto de vista da cobertura jornalística, Paris é bem mais importante que a Nigéria ou Beirute. Assim como o centro expandido de São Paulo é mais importante do que Osasco. Daí a importância de se criar redes alternativas de fluxo de informação.


O erro da crítica a cobertura é quando desmerece — ou simplesmente esquece— a dor dos franceses. O sujeito que se envolve amorosamente com a cobertura da imprensa (o fetiche que esquece o fato ) ignora a dor das famílias das vítimas.


No meio desse turbilhão de vazio há também aqueles que tentam comparar sofrimentos: como medir o valor de uma vida? É meio absurdo reivindicar que a cobertura da imprensa seja também espetaculosa no caso das mortes na Nigéria como se a cobertura da mídia fosse suficiente para resolver as questões. Ainda mais numa época em que o jornalismo está cada vez mais próximo do entretenimento e do espetáculo. A cobertura é necessária, mas não é suficiente. Não é caso de o bem contra o mal. Não vejo solução, no fim das contas. E se houver, não virá do jornalismo. Historicamente, o jornalismo é muito mais vilão do que mocinho: para cada Watergate temos centenas de “podemos tirar, se achar melhor”.


Em relação a tragédia de Mariana, o gabinete de crise da empresa envolvida no incidente ganha fôlego: pelo menos por um tempo, o rescaldo do terror em Paris vai empurrar a pauta do rastro de destruição da lama para debaixo do tapete. Enquanto isso, um Código de Mineração horripilante é aprovado na surdina, com deputados financiados ou envolvidos pessoalmente com a indústria de mineração. A população continua sofrendo.


Hoje foi um dia difícil pra ler notícia. Mas antes essa imprensa precária e viciada, do que nenhuma imprensa.