Fabulário geral da solidão total

Por que a versão original da série The Twilight Zone é tão assustadora


Sempre gostei de ouvir histórias. Ficava de ouvido em pé em rodas de contadores de causos. Era também uma brincadeira comum entre nossa turma de crianças. Sentar no passeio à noite e ficar recontando histórias de assombração que tínhamos ouvido. Ou recontando enredos de filme terror como Re-Animator, Candyman, Pet Cemetery e outros clássicos dos anos 80 que víamos em TV de tubo de vinte polegadas, de segunda mão, que pegava só a Globo, Band e SBT. Tudo com chuvisco, bombril na antena e recheado de comercias.

Não há como reconstruir aquela atmosfera de fascínio, recuperar o olhar descontaminado e cheio de fantasia diante de histórias com seres fantásticos e aterrorizantes. Não lembro qual foi a última vez que senti medo ao ver um filme de terror. O que é uma pena. Hoje me assusto com boletos, juros, e com as manifestações de ódio gratuito nas redes sociais. Com a quantidade de gente que acredita na publicidade dos bancos, governos e companhias de seguros.

Além da imaginação

The Twilight Zone é um seriado criado por Rod Serling, produzido pela CBS, e que foi ao ar pela primeira vez em 1959. Foram cinco temporadas, com episódios curtos, em média 25 minutos. São 156 episódios ao total. O programa deixou de ser exibido em 1964.

Inspirada em programas de rádio de época, os enredos sempre contam com um narrador em off, que na maioria das vezes aparece ao final fornecendo uma chave de interpretação, num tom de fábula. Mas não são fábulas edificantes. No geral, os enredos tratam de universos distópicos, transitando entre a ficção científica, a narrativa absurda, paranormalidade e o mais genuíno horror.

Talvez a versão mais famosa da série entre os brasileiros mais jovens seja aquela com a apresentação de Forest Whitaker, que foi um fracasso total. Esse “remake” foi cancelado depois da primeira temporada, mas chegou a passar no SBT.

Tenho algumas dívidas nessa vida que aos poucos vou tentando quitar. Conhecer melhor o Brasil e a América Latina, ler Proust, Ulisses e a obra completa de Cormac Mccarthy. E assistir todos os episódios da versão clássica de The Twilight Zone. Já fui até Brotas e Bauru, comprei dois volumes de Proust e assisti até agora oito episódios da versão original de 1959 de Além da Imaginação. Estou fascinado com a qualidade das histórias e da produção de um modo geral.

As narrativas tem um cuidado especial com as personagens, os diálogos e os enredos se desenrolam sem pressa. Principalmente sem a necessidade de explodir um carro a cada 30 segundos e mostrar loiras com silicone tomando banho a cada 20 minutos. Os episódios são assustadores, mas não nos parâmetros do ultra-naturalismo do gênero de horror contemporâneo, cuja estética se resume a litros de sangue jorrando e quantidade de cabeças decepadas. De uma forma ou de outra, os oito episódios que assisti até agora falam da coisa mais apavorante do mundo: a solidão.

Onde Estão Todos?

Onde estão todos? é o primeiro episódio da série

No primeiro episódio, um homem chega a uma misteriosa cidade sem lembrar quem ele é e por que está ali. O mais curioso é que não há ninguém na cidade. A situação se agrava à medida que o homem encontra uma chaleira no fogo, um cigarro no cinzeiro e uma série de indícios de que ainda há pouco havia gente transitando por ali. A cidade também não tem qualquer aspecto de abandono. Carros estacionados, lojas e bares abertos. Jazz tocando numa jukebox. Fora a ausência de habitantes, é um lugar normal. E o homem parece estar sempre um passo atrás da possibilidade de encontrar alguém. Como se ele fosse inacessível para os outros, e todos os outros desde sempre inacessíveis a ele. Claro, há uma grande reviravolta no final. Mas é impossível não relacionar esse episódio com a hostilidade das grandes metrópoles. Estão todos aí, mas na lida do cotidiano, trafegar por uma grande cidade é mergulhar numa profunda solidão.

Em O santuário de 16 milímetros, uma antiga atriz de cinema vive presa ao passado

O certo é que todas as personagens são solitárias. Em Um Negócio Para os Anjos, encontramos um velho vendedor fracassado que, ao ser visitado pela Morte, tem uma última chance de fazer algo realmente bom na vida. No episódio seguinte, há outro fracassado solitário, um ex-pistoleiro decadente e alcoólatra que passa os dias sendo humilhado a troco de uns goles de uísque. Já em O Santuário de 16 Milímetros, uma estrela do cinema vive das glórias do passado e passa os dias trancada em casa vendo seus próprios filmes, da época que era jovem. Incapaz de lidar com a finitude e precariedade da experiência humana, ela mergulha cada vez mais fundo nas suas fantasias narcisísticas.

Solidão

No episódio solidão, prisioneiro vive isolado em um planeta deserto

Num futuro indeterminado, um criminoso é abandonado sozinho em um planeta desabitado para cumprir pena. Na paisagem desértica, as únicas coisas que se vê são um barraco pequeno e um carro, que ele montou peça por peça.

Esse é o mote do episódio Solidão.

A cada três meses, o homem recebe a visita de três funcionários que levam comida, alguns livros e notícias sobre seu julgamento. Um dos funcionários, com razão, acha um tanto quanto cruel abandonar um ser humano sozinho num lugar daqueles e acaba levando um robô para fazer companhia ao condenado. O robô é uma cópia quase perfeita de uma mulher, e mesmo depois de certa resistência inicial, o sujeito acaba se envolvendo e se apaixonando ao ponto de esquecer que está se relacionado com uma máquina. É tipo uma Lagoa Azul espacial.

Mas então os três funcionários chegam. O homem foi inocentado dos crimes e vão levá-lo para casa. O problema é que só há espaço para ele e mais sete quilos de bagagem no foguete. O homem se revolta. Não pode abandonar a mulher que ele ama ali. Sem ter alternativa, o funcionário dá um tiro na cara do robô e os fios e circuitos que saltam da face da máquina revelam o quanto aquele sentimento era ilusório. Ou seja, no fundo, o referencial pouco importa — o sentimento pode ser sincero e ao mesmo tempo carecer de qualquer compromisso com a realidade. Em outros termos: apesar de não perceber, somos seres necessariamente solitários, trancafiados na própria subjetividade, debatendo-se contra as paredes. Mesmo quando o homem sente e experimenta relações intersubjetivas, na verdade, é pura projeção de expectativas e frustrações. É isso que esse episódio parece sugerir. Não deixa de ser um precursor de Ela.

O leitor

Bancário não encontra tempo para ler

Um dos melhores e mais desesperadores e absurdos – de todos os episódios que vi até agora – é Tempo Suficiente. Um funcionário de banco com óculos fundo de garrafa é apaixonado por livros, mas nunca tem tempo para ler. A mulher não aceita que ele faça isso em casa e o seu chefe já está de saco cheio de pegá-lo lendo durante o trabalho. A única hora que ele encontra para fazer o que gosta — para ser ele mesmo — é na folga do almoço. Então ele vai até os fundos do banco e se tranca no cofre com um livro e um punhado de jornais. Um pouco de paz. Ele termina um capítulo do livro e abre o jornal. Lê uma manchete sobre os poderes arrasadores da bomba de hidrogênio e mal tem tempo de abandonar o jornal: há uma grande explosão lá fora. O homem desmaia e quando deixa o cofre encontra o mundo em ruínas. Ele é a última pessoa viva da terra. Fica um pouco desorientado — imagino que não seja fácil carregar esse fardo — e chega até a pensar em suicídio. Então encontra uma biblioteca pública e descobre que finalmente vai poder fazer o que sempre quis: ler sem interrupções.

Mas quando está ajeitando a pilha de livros, seus óculos escorregam e as lentes se quebram. Ele fica ali sentando, no meio das ruínas, lamentando. O último homem da terra. A câmera se afasta lentamente. Sobem os créditos.

A função do horror

“Nós inventamos horrores para nos ajudar a suportar os horrores verdadeiros”, afirma Stephen King no famoso ensaio Dança Macabra.

O que é uma grande verdade.

A maioria dos pais não vê problema em usar o celular como babá e passar domingos no shopping, mas proíbem os filhos de assistir filmes de terror. Independente do argumento, acho um absurdo. Nada é mais seguro e saudável que sentir medo sob o conforto de uma narrativa ficcional. É um exercício de amadurecimento nítido. Se a criança não consegue experimentar o medo e a insegurança em um universo controlado como a ficção – como vai ser capaz de lidar sozinha com os próprios medos e a frustrações no cotidiano?