Aproveite para ler o início da história ;)


Capítulo 1 — A não vida

  1. Rotina
  2. A não vida
  3. A ruiva
  4. O setenta e dois
  5. O jardim
  6. Contato

A não vida

Confesso não ter a contagem exata do tempo da minha atual condição, é como se eu tivesse acordado um dia e percebido ao acaso que era diferente dos demais e que minhas memórias não eram mais palpáveis. Foi um choque perceber que por mais que eu tentasse falar minha voz não saía, é uma sensação esquisita não conseguir ouvir o que se diz, e os outros sentidos pareciam ser tão sutis quanto.

Seria mais simples, talvez, certamente não menos tedioso, se fossem essas as únicas limitações desse meu novo estado, minha existência parece se restringir ao 72 e imediações do beco em que estou, fato esse que descobri por acaso ao perseguir o ônibus matutino só por não ter nada melhor a fazer. Aquele foi um dia realmente atípico, estava frustrado por alguma situação específica que não consigo me recordar quando a condução fez a volta na praça em frente, desci de salto, coloquei-me a correr ao seu encalço como se quisesse gastar todo o fôlego que possuiria caso fosse algo vivo e o persegui até alcançar a extremidade, quando ele fez sua esperada curva para a direita eu travei, fiquei parado observando-o partir e se distanciar, irritado tentei avançar, mas minhas pernas não se moviam e ao insistir senti minha não-pele se arrepiar como quando paramos frente à estática de televisores e no instante seguinte eu estava no ar, lançado como um anão daquelas atrações de circo com canhões, até parar no salgueiro no meio da praça, preciso confessar que ser lançado não é mais divertido quando se é como eu do que quando se está vivo. Ainda faço isso as vezes.

Algo curioso que percebi com o tempo, porém, é que ainda estou sujeito à física comum, apesar de parecer mais branda, como se fosse mais leve ou sei lá, talvez você esteja se perguntando — “…física? você não lembra seu passado, mas lembra de física?” — sim, não faço ideia de qual seja o meu nome, mas ainda lembro de Bhaskara, genética e do princípio da incerteza. Nunca disse que me era útil, contudo.

A vida acaba por ser tão caricata quando os personagens repetitivos do beco, seja sentado no muro ou observando do banco da praça é possível perceber que são raros os momentos em que algo realmente novo acontece, tudo gira em torno dos mesmos acontecimentos e o marasmo da constância é recebido com complacência. É difícil não se perguntar se eu era assim também, quando na condição deles, tão absorto nos problemas que eu mesmo criei que passei a não atentar pra brevidade da vida — será que eu também lutava dia após dia contra uma porta metálica com defeito praguejando aos ventos? — Talvez seja pelo meu espaço limitado, mas eu hoje gostaria de ter visto o mundo, caso eu não tenha feito isso, me deparado com culturas diferentes e situações inesperadas — afinal o que levamos mesmo da vida? No meu caso genética e o princípio da incerteza — só me resta esperar que quando em vida eu tenha feito mais.

Foi em um dia bem assim mesmo, desses que a mente voa pensando pensamentos, imagino que o tédio tenha sido tamanho que não os contive na cabeça e acho que disse algo como “que tédio.” ou “ainda não entendo o motivo de não terem consertado ainda aquela porta.”, estava no banco da praça quando as palavras saíram da boca e em vez do silêncio esperado como resposta uma criatura ruiva de cabelos ondulados e sardas retrucou:

— Eu gosto dessas tardes calmas de outono.

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