Capítulo 4


Passado

O rosto de Amèlie vibrava segurando aquela pequena imagem, uma foto daquelas instantâneas que se revelavam após um agitar de mãos. Um pequeno quadrado que por intermédio do acaso se prendera entre as gavetas e funcionara como bateria para as energias gastas daquela jovem à minha frente.

A fotografia era de uma jovem mulher aparentando seus trinta e poucos, cabelos cacheados, segurava as cordas de um balanço enquanto sorria um sorriso curto, seus olhos baixos demonstravam a timidez de quem não levava jeito para fotos posadas. A coloração da imagem estava gasta e era difícil perceber os detalhes, uma relíquia esquecida pelo tempo e que talvez não restasse nem na memória de seus donos, se é que ainda viviam.

Amèlie se perdeu por uns instantes observando a foto com o semblante confuso, o olhar desfocado e por um instante achei que fosse mergulhar fotografia adentro.

— Amèlie?!

— Hã!? Oi, quem será que é? — indagou balançando a cabeça como se saindo de um transe.

— Não faço ideia, mas jurava que você fosse se jogar ai dentro.

Ela me olhou com cara de quem não entendeu, se levantou sacudindo a poeira das calças e guardou a foto em um dos bolsos, olhou ao redor tocando as fendas abertas no velho papel de parede como se lesse o braille nos fragmentos de poeira e estes lhe revelassem os acontecimentos naquele quarto, fitou o teto por um instante observando as teias de aranha há muito abandonadas que balançavam com a nova corrente de ar que entrava pela porta e seguiu marcando o chão de madeira até a janela que revelava uma das árvores próximas ao jardim e um pequeno balanço caído no meio da grama alta junto às suas raízes.

O pequeno escritório foi esquadrinhado, as gavetas reviradas e sacodidas, cortinas balançadas e pulinhos para ver se nada havia ficado sobre a estante e somente após quase remover toda a poeira de tanta andança é que Amèlie se deu por satisfeita concluindo que este cômodo não possuía nada mais a ser descoberto. Imaginei-o encolhido e invasão era o sentimento que brotava.

— Vamos, ainda tem outro cômodo.

Segui a ruiva até a soleira do outro quarto, ela mexeu a maçaneta testando a porta de madeira escura e nada se moveu, empurrou com mais força e sentiu poucos centímetros serem ganhos às custas de veias quase saltando. A pequena diferença em sua abertura indicava ao menos que não estava trancada. A testa de Amèlie revelava uma camada de suor, seu rosto avermelhado pelo esforço se contorceu em uma expressão de força enquanto prendia sua respiração e fechava os olhos.

— Tem.. alguma coisa… presa… do outro lado…

Suas costas deslizaram pela porta em nítido sinal de cansaço e mais uma vez foi visível a sua frustração. O rosto baixo fitava as palmas das mãos avermelhadas e sujas marcadas pelos vincos enquanto seu peito buscava retomar o compasso da respiração.

— Tá tudo bem?

— Não… não tá, dro…

Os olhos de Amèlie me fitaram por um instante e seu rosto se arreganhou novamente em um sorriso, ela se apoiou nas mãos e ergueu o peso do corpo sem desviar o olhar e senti uma coisa esquisita quando ela caminhou em minha direção como um felino se aproximando da presa. — O q-que foi!? Por que você tá me olhando assim? — continuou o caminho até passar por mim e senti uma ponta de desapontamento quando ela pulou no meio do corredor agarrando uma cordinha pendurada no teto.

A escada desceu de uma vez e acertou o piso com um baque seco levantando uma cortina de pó que até eu senti o nariz coçar. Quando pude ver novamente alguma coisa ela já havia desaparecido buraco acima.

— Você não vem?

Subi os degraus para o sótão com a velocidade de tartaruga com cãibras e a animação de um palhaço de luto.

— Você não cansa?

— Você consegue ser menos morto?

— Você consegue ser menos rude?

— Vamos brincar de fazer perguntas?

— Desisto.

— Fácil demais, nem deu graça. Vem, termina de subir logo e vê se acha algo legal.

Terminei de subir os últimos degraus há tempo de ver a ruiva sentar em uma cadeira de rodinhas e girar. O sótão tinha uma fonte de luz desimpedida vinda de uma janela circular que dava para a frente do setenta e dois, o teto era um pouco mais baixo em alguns pontos e acompanhava o telhado o que provavelmente justificava o cheiro de mofo muito mais intenso — “telhas faltando? goteiras talvez.” — Amèlie revirava parte dos entulhos arrastando algumas caixas para perto da janela a fim de identificar o que havia dentro, avistei uma forma esquisita coberta por um lençol em um canto oposto.

— Ei, venha ver isso aqui.

— O que é?

— Não faço ideia, venha puxar o lençol e descobrimos.

Saltando por cima de alguns outros itens ela alcançou o misterioso artefato puxando o pano que o cobria revelando um velho gramofone movido à manivela.

Sentamos em um espaço vago entre caixas e entulhos e ficamos admirando a nova descoberta.

— Como é mesmo o nome disso?

— É um gramofone.

Amèlie girou a manivela de leve e vimos o disco começar a se mover lentamente, aos poucos uma melodia distorcida arranhava as entranhas do aparelho ressoando na parte metálica dando calafrios na espinha como ruídos de mau agouro. A madeira envernizada havia resistido à ação do tempo e brilhava sob a luz da janela, mas corneta metálica mostrava manchas escuras na sua camada dourada.

— A agulha, deve estar torta.

— A o que?

— A agulha. Aquele negócio, levante ele.

Amèlie obedeceu interrompendo o som esquisito que parecia amplificado pela acústica do lugar.

— Bem que você disse, a pontinha olhe. Está torta.

— Acho que se colocar assim ela vai acabar estragando o disco.

— Vou ver se encontro uma nova junto daquelas coisas. — disse apontando para o canto onde estava o gramofone.

— Você tá falando sozinha?

A ruiva deu um berro caindo por cima das caixas quando se deu conta da cabeça que surgira na escada do sótão.

— Ei, calma, calma. — disse o ajudante de padeiro que terminava de subir os degraus — não quis te assustar. Tudo bem por aí?

Um grunhido de dor e desconforto veio de trás dos entulhos enquanto Amèlie tentava sem jeito se levantar.

— Te peguei de jeito não é? — disse estendendo a mão entre risos — Vamos, te ajudo.

— Poderia ter me ajudado não aparecendo do nada. — disse buscando apoio na mão dele.

— O que você tá aprontando por aqui? Estava passando em frente quando acho que ouvi aquele negócio alí gemendo.

Amèlie tremeu quando ele apontou em minha direção sacudindo a cabeça quando se deu conta de que falava do gramofone.

— É um gramofone, a agulha está torta.

— Humm, prazer me chamo Tom.

— Amèlie. — cumprimentou enquanto ajeitava o cabelo atrás da orelha.

— Enn. O prazer é todo seu.

A ruiva me olhou de banda e voltou a conversar com Tom. O jovem ajudante de padeiro parecia umas duas cabeças maior do que eu, tinha os cabelos afro presos em uma tiara que o deixavam com a aparência de um microfone, a pele morena, os braços definidos de ser o mané de carga do barrigudo do dono da padaria e o sorriso cheio de dentes brancos que no sol provavelmente incomodariam por conta do reflexo.

— Mas você não me disse, o que tá aprontando por aqui?

— Estou só buscando inspiração pros meus desenhos.

— Uau! Você desenha? Me amarro em desenhos, não levo muito jeito, mas adoraria se me mostrasse os seus um dia. — disse fingindo um interesse, obviamente com motivação escusa.

Amèlie sorriu ajeitando novamente a mecha rebelde atrás da orelha se dando conta das mãos sujas e escondendo-as atrás do corpo.

— Não sei se tem nada aqui em cima que me sirva. Vamos descer, talvez você possa me ajudar com uma coisa.

— É pra eu encarar isso como ofensa?

— Claro que ajudo. Sou teu servo por exatos — olhou o relógio — 10 minutos. É o tempo que tenho antes do chefe começar a espernear.

A ruiva deu um sorriso contido e desceu as escadas com Tom logo atrás sem nem ao menos olhar na minha direção. Acompanhei os dois sumirem escada abaixo e risadas provenientes de algum assunto que eu não conseguia mais ouvir e obviamente havia deixado de fazer parte ecoaram, deitei no chão sujo do sótão, não que isso significasse algo pra mim, fitando o teto me sentindo esquisito enquanto matutava os benefícios de seguí-los e talvez em formas de tortura dolorosa de jovens enxeridos. Achei melhor descer.

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