
Olá,
olá, olá a todos os meus milhares de fãs, sim mamãe vale 10 mil.
Quem diria que esse dia chegaria, não é? Estamos na 10 parte de Vida para Além e inventando novas ‘aventuras para a nossa turminha da pesada’. Espero que estejam curtindo tanto quanto eu. Ok, Ok sem mais besteirou.
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Curtam, comentem e compartilhem, vamos ajudar o titio a virar escritor de verdade (risos) ;)
Uma ótima leitura :*
Capítulos Anteriores
001 — Rotina
002 — A não vida
003 — A Ruiva
004 — O Setenta e dois
005 — O jardim
006 — Contato
007 — Reencontros
008 — Reflexos
009 — Desconcerto
Retrato
Amèlie se levanta e segue em direção à poltrona, depois de afastá-la senta-se cruzando as pernas apoiando o caderno de desenhos, ela então faz um gesto pedindo que eu me levante.
— Sente-se ali no tapete da forma mais confortável que conseguir, você não vai poder se mexer muito por um tempo.
Dou de ombros e sigo ao local que ela apontou no chão, cruzo as pernas segurando na altura das canelas e olho de volta esperando.
— Não olhe pra mim, tem que parecer natural, olhe pra outro canto.
Nada disso faz muito sentido pra mim então escolho um ponto distante, próximo à prateleira de livros onde havia um pequeno buraco, talvez criado por insetos, ou outra forma de vida qualquer.
— Perfeito, continue assim.
O tempo parece se arrastar. Onde eu me meti? Poderia ter simplesmente recusado e seguido em frente, mas não, precisava concordar e me condenar à esse mar de tédio. Que horas seriam? Não deve ser muito tarde, entramos na casa pouco antes do sol se por e não pode ter passado tanto tempo assim. Uma eternidade e meia. Nunca imaginei que eu conseguiria descobrir um novo nível de tédio, vou chamá-lo de Tédio Modelo pra referências futuras.
— Quanto tempo eu vou precisar ficar assim?
— Shiiiu, não se mexa.
Fácil pra ela, esta sentada em uma confortável poltrona, podendo se mexer como quiser e com direito a poder rabiscar coisas. Pensei ter visto algo se mover no pequeno furo, mas foi alarme falso. Será que alguém pode realmente morrer de tédio? E eu? Acho que prefiro morrer de novo. Engraçado, sinto son — Uaáám! — sono.
— Tente ficar quieto, que coisa, pare de se sacudir.
— Você deve ter batido algum recorde, conseguiu ser a primeira a matar um morto de tédio.
— Muito engraçado, vou te desenhar com chifres se continuar.
Ok. Quieto. Entendido senhorita general. Gostava muito mais dela quando estava encolhida nos lençóis. Bem que ouvi alguém comentando uma vez “Dê dinheiro pra uma pessoa, mas não dê liberdade” eu devia prestar mais atenção. Meus braços estão formigando, esquisito, só costumo sentir isso no fim do beco, eu bem que podia ser lançado longe agora. Será que já está acabando? Acho que consigo olhar sem me mexer muito, só olhar de canto de olho.
O rosto estava sério, concentrado enquanto as mãos rabiscavam o papel com lápis de cores diferentes, os cabelos cacheados caindo sobre o rosto claro, tentou por algumas vezes colocá-los atrás da orelha, mas teimosos voltavam à posição de origem, ela então balança a cabeça levemente enfezada e coloca o lápis na boca mordendo-o enquanto suas mãos ágeis giram os cachos no topo da cabeça até prendê-lo em coque.
A luz da vela acobreava ainda mais a pele clara e as pintinhas sobre o nariz, seus lábios entreabertos pareciam muito mais vivos, quase não dá pra perceber as cores diferentes dos olhos, uma mecha rebelde pendendo solitária não parece desconcentrá-la. Ela ergue os olhos e no susto desvio o olhar. Será que ela me viu olhando? Claro que não, do jeito que ela é teria reclamado se me visse mexer. Tudo bem, devagar, vou olhar de novo só pra checar. Tem algo diferente, ela está sorrindo.
Alguns instantes passam e então ela se ajeita na cadeira.
— Pronto. Não, só mais um pouco. Pronto, agora sim.
Balançando a cabeça com um olhar satisfeito ela levanta o olhar e sorri.
Ela então gira o caderno.
Ali desenhado está uma figura pálida, a pele não tinha cor e era somente o branco do papel, a aparência jovem, cabelos curtos prateados, lisos e bagunçados, os olhos de um azul quase piscina que pareciam brilhar olhavam pro nada quase desfocados, a boca arroxeada como se sentisse todo o frio do mundo e abraçando seus joelhos com braços finos e compridos, usava uma camisa cinza, jeans e pés descalços.
Gastei um tempo para olhar todos os detalhes, o desenho era bom, mas eu não sou assim. Eu vejo pelas minhas mãos que a pele está enrugada com a ação do tempo e aquele menino parece tão jovem, um menino, não fazia ideia de que eu era um garoto, minhas roupas são como minha segunda pele, não as consigo tirar, mas elas não se parecem com jeans e camiseta.
— Esse não sou eu.
— Claro que é, você é exatamente assim.
— Eu sou velho, veja as minhas mãos.
— São normais, para de maluquice, olha aqui.
Ela adianta um passo e move a sua mão na direção da minha, tarde demais, não da tempo de puxar.
Tudo ficou claro de repente, a sala havia sumido, era algum lugar externo, a grama verde e algumas árvores, em uma delas uma criança balançava, venta bastante, a criança levanta a cabeça como se alguém a tivesse chamado e corre na outra direção.
A sala reaparece iluminada somente pelas velas, Amèlie me olha intrigada, sinto a cabeça doer.
— O que foi isso?
Tudo fica escuro de novo.