Capítulo 1 — A não vida

  1. Rotina
  2. A não vida
  3. A ruiva
  4. O setenta e dois
  5. O jardim
  6. Contato

Rotina

O dia sempre começa igual e raramente muda ao longo das horas que seguem e mesmo que essa não fosse a menor cidade do mundo não acredito que seria diferente, é como se a rotina estivesse entranhada nessas vidas breves como se teimassem que seriam eternas.

Sempre vejo o amanhecer sentado sobre o muro do número 72 acompanhando o sol se erguer e dar início à vida no meu beco completamente alheia ao meu sentimento de tédio.

Acompanho ao longe a porta da padaria se erguer e travar à meia altura como de costume — nunca entendi o motivo de demorarem tanto para consertá-la — aos praguejos e solavancos ela é solta e alcança seu destino deixando visível o interior do estabelecimento habitado agora apenas por um senhor de meia idade calvo trajando um avental encardido estufado no meio pela pança protuberante.

Antes que a sombra alcance o meio-fio uma porta se abre duas casas à frente e mais uns minutos até que aquela figura balançante apareça. Um senhor idoso desponta calçando suas sandálias e com um gorro na cabeça, desce lentamente os degraus, primeiro a esquerda, depois a direita, esquerda de novo, direita, um momento pra se equilibrar e reinicia até fechar os infinitos cinco pavimentos até a rua.

A graça existe mesmo nas coisas previsíveis e o olhar daquele senhor para os vinte metros de rua que teria que atravessar demonstravam toda a sua determinação em vencer aquela maratona. Ergueu suas duas mãozinhas tremulas pela falta de vigor dos frágeis músculos como se segurasse nas correias de um cavalo invisível e seguiu passo a passo os longos dez minutos.

Houve uma vez há algum tempo atrás que ao perceber essa aventura do pãozinho o gerente da padaria ordenou que um de seus entregadores fosse até a casa do idoso entregar os pães para que ele não precisasse percorrer todo o caminho, o jovem ao chegar, no entanto, foi recebido com cascudos e pontapés, provavelmente não doeram nem um pingo, mas foi o suficiente pra fazer o incauto correr assustado e ser recebido às gargalhadas pelo padeiro.

Mais uns minutos, cinqüenta e seis… setenta e sete… finalmente, os oitenta e quatro passos de costume, realmente achei que ele iria dar um a mais quando uma pedra desavisada resolveu descansar desatenta no seu caminho, dizem que a queda esta entre as maiores causas de morte dos velhinhos… esse não parece que irá me fazer companhia tão cedo.

Tudo parecia ser cronometrado como se a vida seguisse o roteiro ruim de um filme clichê e se repetisse assim dia após dia, cinco minutos e lá estaria ele, o ônibus entrava na via, parava em frente a padaria, abria a porta, o atendente lhe trazia então um café pequeno em um copo plástico e o jornal do dia, o motorista então olhava pro relógio no teto e saía, contornava a praça e parava no ponto do outro lado a tempo de ver uma jovem saindo às pressas de dentro do cinqüenta e dois com uma torrada na boca, puxando saltitante uma sapatilha no pé e enfiando a camisa por dentro da saia com a outra mão.

A porta da condução se fecha e partem rumo ao horizonte distante dobrando sempre a primeira à direita.

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