The Walking Dead finalmente encontrou seu caminho

Como a 5ª temporada alcançou o potencial inexplorado até aqui


Demorou cinco temporadas, mas finalmente o seriado The Walking Dead alcançou grande parte do seu potencial e ofereceu ao espectador uma experiência com mais nuances, menos bidimensional e moralista. O season finale da 5ª temporada vai ao ar no próximo fim de semana. No entanto, parece seguro dizer, após 15 episódios, que os roteiristas encontraram o tom adequado para TWD.

Em seu bojo, a série trata, a partir da hipótese de um cenário pós-apocalíptico, dos limites da humanidade do homem. Afinal, até que ponto se vai pela sobrevivência? Assim, as temáticas de civilização e barbárie, pragmatismo e idealismo, entre outras, surgem para que haja o questionamento da capacidade do ser humano de se desumanizar, despir-se dos freios sociais, psicológicos e até afetivos para não sucumbir à crescente violência do mundo apresentado por The Walking Dead.

O zumbi é a iconização máxima da oposição fundamental que dá base ao discurso do seriado. Humano vs Desumano. Viver vs Sobreviver. Vivo ou morto? O zumbi é o termo complexo que abrange ambas as características — ou seria nenhuma delas? Ele figurativiza perfeitamente a discussão levantada, suscitando a dúvida: na medida em que os personagens “vivos” vão se livrando da ética civilizada, assim como do estilo de vida anterior, o quanto eles não estão se aproximando dos próprios zumbis?

O problema é que, sobretudo nas três primeiras temporadas, The Walking Dead não apresentava um roteiro rico, no qual essas nuances promoviam uma pluralidade de vozes e argumentos atraente ao espectador. Afinal, qual é a resposta para a situação de Rick e seu grupo? Eles devem radicalizar e matar todo mundo? Vale tudo mesmo? Ou eles devem se apegar cegamente aos valores de humanidade e civilização, morrendo na primeira esquina?

Shane: a série apostou durante muito tempo em personagens bidimensionais

Em geral, os roteiristas se apoiaram no moralismo comum aos textos mainstream norte-americanos. Os personagens que atravessavam a linha da humanidade, como Shane, Andrea etc, eram logo categorizados como negativos, dentro da escala de valores que toda história propõe. O mocinho e os personagens bonzinhos ficaram, durante muito tempo, num vai-e-vem de feitos violentos, culpa e retrocesso aos princípios inócuos pré-apocalipse. Era chato e disso todos os fãs da série reclamaram. TWD não alcançava o seu potencial na TV.

Na 5ª temporada, porém, mais do que efetivamente fazer uma escolha moral pelo espectador, os escritores pareceram mais interessados em explorar as possibilidades colocadas em jogo por uma pergunta difícil como essa. O episódio “Try”, o penúltimo dessa temporada, traz todas essas nuances. Ninguém discorda que Rick tem razão em acreditar que Alexandria corre risco, caso não tome medidas para se tornar mais segura. Fora daqueles muros, a lei do mais forte rege o que restou da sociedade. Contudo, na medida em que o ex-xerife se entrega ao instinto de sobrevivência, perdendo as travas de sociabilidade, sensibilização e alteridade, junto também se vai sua sanidade e a capacidade crítica para discernir entre a ameaça e o aliado.

Se, antes, Rick era um instrumento dos roteiristas para dizer que o pragmatismo de Shane era errado, agora The Walking Dead rompe um pouco com a retórica dos extremos — ou você é bonzinho e respeita o outro ou você é mauzinho e quer matar todo mundo — e se permite mostrar que todos os lados tem senões. Para sobreviver, os protagonistas do seriado aprenderam a matar. Era necessário e quem assistia muito provavelmente concordava com esses termos. A constância da morte em suas vidas, entretanto, foi levando gradualmente a humanidade — e a sanidade — de alguns deles.

Deanna ou Rick? Civilização ou barbárie?

Ao voltar à civilização, onde a finalidade da vida assume simulacros como cozinhar, brincar e fazer festas, Rick e cia rejeitaram esse velho paradigma. É tudo muito bobo, pensam eles. No fundo, a rotina automatizada de esfaquear zumbis e enfrentar outros (des)humanos preencheu o vazio deixado pela destruição da vida pregressa. Todavia, a sobrevivência é um fim em si mesmo, o que significa que esses personagens estão presos a algo que não lhes dá nenhum tipo de retorno. As tarefas da vida social, artificialmente criadas pelo homem, são falsas e superficiais, como corretamente apontado pelo grupo, mas obedecem a um funcionamento maior — institucional e de sociedade — , cujo fim confere não só benefícios reais ao indivíduo, mas também o acolhimento e a realização da capacidade social inerente à nossa espécie. O mocinho não percebe que, talvez, a sobrevivência do grupo se deva menos em virtude da transgressão das balizas éticas e mais pela coesão constituída habilmente entre estranhos em tão pouco tempo.

Da mesma maneira que não sabemos se há volta para o mundo infestado de mortos-vivos, não dá para saber se Rick conseguirá retroceder todos os limites ultrapassados pela necessidade de sobrevivência. Por isso, podemos constatar o sucesso da 5ª temporada de The Walking Dead. Nunca foi tão interessante acompanhar o desenrolar dessa história.

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