Seletivas olímpicas internacionais da natação em quatro histórias

Estádio Aquático do Rio, o ponto para onde as histórias convergem (Foto: Gabriel Hausi/Brasil2016)

Entre os meses de março e abril as principais forças da natação — excetuando os Estados Unidos — realizaram as seletivas olímpicas nacionais do esporte. Uma semana em que são depositadas todas as esperanças de ir ou não aos Jogos Olímpicos do Rio 2016, seja para quem vai brigar por medalha ou contra os próprios tempos para superar marcas pessoais.

Cada país tem especificidades. França e Inglaterra, por exemplo, estabeleceram índices bem mais fortes dos que os da Federação Internacional (FINA), para tentar elevar o nível dos atletas e ser o mais seletivo possível em relação às equipes. Mas a finalidade das nações é a mesma: classificar atletas competitivos para as provas.

Ao nadar em um país tradicional na natação, dificilmente os atletas têm espaço para erros, afinal, eles nadam tanto contra os adversários quanto contra o relógio. Vencer os rivais, mas não o índice, não adianta. Vencer o índice, mas não os rivais, também não.

É preciso estabelecer o índice e ficar entre os dois melhores tempos. Em meio a uma enxurrada de informações durante as seletivas, você pode conferir quatro histórias diferentes que chamaram a atenção:

França: Yannick Agnel dentro ou fora?

Yannick Agnel chegou em Montpellier, local da seletiva francesa, como atual campeão olímpicos dos 200 metros livres e integrante do revezamento francês medalhista de ouro no 4x100m livres em Londres 2012.

Quando disputou as Olimpíadas de Londres o nadador tinha 20 anos de idade e vinha de um ciclo olímpico em que havia varrido os ouros nas competições juniores da Europa. Se os prognósticos apontavam um futuro crescente até 2016, a realidade foi outra.

Em 2013 Agnel trocou de treinador. Deixou Fabrice Pellerin e a França para treinar com a lenda Bob Bowman nos Estados Unidos. No Mundial de 2013 o nadador francês repetiu as medalhas de ouro que havia obtido nas Olimpíadas, mas com um segundo a mais em relação aos 1:43.14 de um ano antes.

Em 2014 a melhor marca dele aumentou ainda mais: 1:45.63. Um ano depois o nadador desistiu da disputa do Mundial por conta de uma pleurisia e afirmou estar focado nos Jogos do Rio 2016. Para isso, no entanto, ele teria que se classificar.

Agnel no Campeonato Nacional de 2014 (Foto: Federação Francesa)

Nas qualificatórias francesas para o Rio 2016 o favorito, ao lado de Agnel, era Jérémy Stravius, também cotado para preencher as duas vagas do país nos 200 metros livres.

Nas eliminatórias Stravius sobrou e fez o melhor tempo. Já Agnel teve um aperitivo do que estava por vir. O sensor não detectou o toque do nadador na parede ao fim da prova e apontou um tempo no limite da classificação para a final A. Após revisão, entretanto, Agnel foi colocado como quarto colocado e ganhou a raia de número seis para a final.

Na disputa decisiva Agnel acompanhou Stravius na liderança durante os primeiros 100 metros. Depois de ver Agnel passar os 150 metros com meio corpo de vantagem, Stravius apertou o ritmo e venceu com 1:46.18, quarto tempo do mundo pós-Mundial de 2015.

A segunda colocação pareceu ter um dono certo no toque final: Yannick Agnel. O campeão olímpico, no visual, tinha tocado a parede com significativa vantagem para Jordan Pothain. A marcação oficial entendeu de outra forma, e atribuiu 1:46.99 para Agnel contra 1:46.81 de Pothain.

Final polêmica dos 200m livres, a partir de 25 segundos no vídeo

Mesmo com um recurso de Agnel, a Federação Francesa não mudou o resultado, uma vez que a prova do vídeo não era oficial e não poderia ser utilizada. A pergunta, então, era: será que eles deixariam o campeão olímpico fora dos Jogos do Rio após uma prova polêmica.

A resposta é não. Na convocação oficial da seleção francesa de natação para os Jogos Olímpicos a Federação optou por chamar Agnel para a segunda vaga dos 200m livres e para o revezamento 4x200m. Pothain — que havia dito ter a impressão que tocou, de fato, na terceira posição na final dos 200m livres — foi alocado nos 400 metros individual e também no revezamento.

No entanto, cabe a Yannick Agnel decidir se participa ou não dos Jogos nos 200 metros individuais. Alguns dias após a convocação, o nadador disse que precisava avaliar a participação, já que o tempo feito por ele em Montpellier não era suficiente para brigar por medalhas. Ele se dedicaria, então, ao revezamento.

Se é charme de Agnel para a Federação ou um pensamento real, isso só será respondido mais perto dos Jogos Olímpicos do Rio.

Austrália: McEvoy faz história

Cameron McEvoy ganhou projeção internacional nas seletivas australianas para o Mundial de 2015. Na ocasião, aos 21 anos, ele derrotou o até então atual bicampeão mundial e vice-olímpico James Magnussen nos 100 metros livres.

Ao analisar carreira de McEvoy na adolescência é possível identificar o potencial que se desenhava em torno do nadador. Ele conseguiu bater os recordes de Ian Thorpe no sub-16 e sub-17 nos 100 metros livres. No Mundial Júnior de 2011 McEvoy ficou com o ouro nos 50 e 100 metros livres. O desempenho dele o levou, aos 17 anos, para as Olimpíadas de Londres, onde nadou as preliminares dos revezamentos 4x100 e 4x200 metros livres.

No Mundial de Kazan 2015, McEvoy passou de promessa para realidade na natação australiana. Sem dar espaço para pressão, o nadador teve o segundo melhor tempo das eliminatórias, melhor tempo da semifinal e segundo melhor tempo da final nos 100 metros livres, o que lhe rendeu a medalha de prata.

Mais do que isso, ele foi o único atleta a nadar duas vezes na casa dos 47 segundos na competição e um dos dois nadadores fizeram tempos abaixo dos 48 segundos no Mundial. Na final ele só foi derrotado pelo chinês Ning Zetao, que obteve 47.84, enquanto McEvoy nadou para 47.94 e 47.95.

McEvoy nas seletivas australianas para os Jogos Rio 2016 (Foto: Reprodução 7Olympics)

O melhor de McEvoy ainda estava por vir. Menos de um ano depois de competir em Kazan ele teve pela frente as sempre fortes seletivas olímpicas australianas. A competição de 2016 foi realizada em Adelaide, entre os dias 7 e 14 de abril.

No dia 9 McEvoy estreou com os 200 metros livres, prova que não é a especialidade do nadador. Mesmo assim ele conseguiu o ouro ao nadar muito próximo do recorde pessoal e terminar empatado com Thomas Fraser-Holmes na primeira colocação, com o tempo de 1:45.63.

Dois dias depois veio a final dos 100 metros livres. Sem tomar conhecimento dos adversários, Cameron McEvoy venceu com expressivos 47.04, o melhor da história sem os super-maiôs (utilizados entre 2008 e 2009) e que também significou o recorde continental da prova.

Faltavam apenas os 50 metros, que teve a decisão no dia 13. Mais uma vez McEvoy fez a melhor marca da carreira e venceu com o tempo de 21.44. Com isso ele tornou-se o primeiro atleta da história a conseguir os títulos dos 50, 100 e 200 metros livres em uma mesma edição de Campeonato Australiano.

Grã Bretanha: A chance de Jazz Carlin

“Isso significa tudo”. Essa foi a declaração da nadadora britânica Jazmin Carlin, de 25 anos, ao vencer a prova dos 400 metros livres, a última dela nas qualificatórias, e obter o índice olímpico da Federação Britânica.

A história de Jazz Carlin remete a quatro anos atrás. Na ocasião, ela viu as chances de disputar uma Olimpíada em casa irem embora junto com uma mononucleose infecciosa, que destruíram as chances da nadadora conquistar uma marca boa o suficiente para integrar a equipe britânica em Londres 2012.

Em 2016, nas seletivas nacionais em Glasgow, Carlin se viu diante outro cenário perturbador. Ela venceu a bateria adulta dos 200 metros livres e ficou com o segundo melhor tempo geral (atrás de Georgia Coates, nascida em 1999, que nadou para 1:59.09). A marca de 1:59.33, entretanto, não chegava no índice nacional.

Dois dias depois vieram os 800 metros. Jazz Carlin é a detentora da medalha de bronze mundial na prova, conquistada em 2015. Em Glasgow, no entanto, ela nadou nove segundos mais lenta do que na final mundial em Kazan, o que a deixou fora do índice por cinco segundos.

Restavam apenas os 400 metros livres, com todas as fichas da nadadora para se tornar uma atleta olímpica.

“Eu não estava focando tanto no tempo. Eu estava tentando relaxar e aproveitar a prova, aproveitar a atmosfera, aproveitar as qualificatórias, enquanto no começo da semana eu estive muito estressada, fiquei muito tensa e fui temperamental com todos ao meu redor”.

Os primeiros 200 metros da prova decisiva para Carlin já davam sinais otimistas, com o tempo dela de 2:03.03, mas ainda deixava tudo em aberto para a metade final. Vieram os 300 metros com 3:07.27, para finalmente nadar as duas últimas piscinas para a marca final de 4:04.33, contra 4:04.66 da meta britânica.

O resultado não apenas garantiu Jazz Carlin nos Jogos Olímpicos nos 400 metros livres como também abriu a possibilidade dela disputar os 800 metros no Rio. Também foi o quinto tempo do mundo após o Mundial nos 400.

Japão: O adeus de Kosuke Kitajima

Maior medalhista olímpico da história da natação japonesa, Kosuke Kitajima, aos 33 anos de idade, já não tem mais o fôlego e a velocidade que o levaram a quatro medalhas de ouro no nado peito entre as Olimpíadas de Atenas 2004 e Pequim 2008.

Depois de não ter se classificado para o Mundial em 2015, Kitajima estava decidido em 2016: as Olimpíadas marcariam o encerramento da carreira, seja nos Jogos de fato ou nas seletivas japonesas, ocorridas em Tóquio.

A primeira prova de Kitajima nas seletivas foi a do 100 metros peito. Os 59.62 das semifinais estavam até abaixo do índice, que era de 59.63 para os japoneses. A marca era a mais baixa dele desde as Olimpíadas de Londres 2012. No entanto, pelo regulamento da seletiva japonesa, apenas os tempos das finais valeriam.

Na final, Kitajima não só aumentou o tempo como foi, também, segundo colocado. A marca de 59,93 o deixava fora do Rio na prova. O próprio vencedor da final, Yasuhiro Koseki, também nadou acima do índice.

A chance seria pegar a vaga nos 200 metros, prova em que ele se dava melhor e, além de bicampeão olímpico, também tinha dois títulos mundiais e foi por três vezes detentor do recorde mundial.

Mas os tempos são outros, tanto no sentido da marca apontada pelo cronômetro quanto no ano em que ele tenta se manter em alto nível. Tanto que os 2:09.96 de Kitajima na final da seletiva japonesa nos 200 metros peito eram um centésimo mais baixo do que os 2:09.97 que deram a ele o primeiro recorde mundial da carreira, lá em 2002. Em 2016, no entanto, o tempo significa o quinto lugar no Japão e a ausência nos Jogos do Rio.

Fotógrafos cercam Kitajima após a prova dos 200m peito na seletiva japonesa

Em entrevista coletiva após a seletiva, Kitajima anunciou a aposentadoria da natação profissional e disse se sentir decepcionado por não conseguir a vaga olímpica, mas se mostrou realista quanto as chances de chegar competitivo no Rio, afirmando que não teria chances.

A derrota em Tóquio serviu muito mais para lembrar a carreira vitoriosa do japonês do que marcá-lo pela falha na tentativa de ir para a quinta Olimpíada.

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