“Dog carrying dinner to its master” (1846), Joseph Stevens

A revelação

O cão que mordeu Descartes — por Luis Dolhnikoff

Diógenes, dito o cínico, não era cínico — no sentido moderno. A palavra cínico vem do grego kýon, cão. Mas os cães, como o filósofo grego, tampouco são cínicos: o adjetivo cínico é, na verdade, um simples sinônimo de canino. Então os cães são, afinal, cínicos — tanto quanto são caninos. O que mais poderiam ser? Mas isso ainda não explica que uma expressão como “fidelidade canina” possa ter alguma relação com “cinismo”.

Diógenes era um cético. Via na velha comédia humana, menos que uma velha comédia, uma farsa interminável. Todos estavam o tempo todo interpretando o papel de si mesmos, o de um personagem que os demais acreditavam ou pareciam acreditar ser aquele homem — um homem que também acreditava, ou parecia acreditar, ou queria acreditar, ou parecer acreditar, ser seu próprio personagem. O certo é que Diógenes, o canino, preferia os cães aos homens. Dizia que os cães eram sempre honestos. Os homens, nunca. Então renunciou ao convívio humano e foi viver como um mendigo, cercado de cães.

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