Sete dias com Rashid, operário da música

Troquei ideia com o Rashid por uma semana. O resultado é um mergulho em sua rotina de trabalho e vida

Rashid — Foto: Elias Mast

Segunda-feira

A segunda-feira já está perto do fim. É quando Rashid tira um tempo para relembrar as atividades do longo dia que passou. Fez uma sessão de fotos para apresentar as novas peças de roupa da sua loja virtual, mandou uma música nova para um produtor finalizar e teve uma reunião sobre o clipe dessa mesma música que precisa estar na rua sem falta até o meio de setembro.

Sem falta porque Rashid assumiu em abril uma missão com seus fãs. Inventou de lançar em média uma música por mês para no fim do ano ter um álbum digital reunindo as faixas lançadas ao longo do ano e ainda mais algumas inéditas, ou seja, praticamente produzir um novo álbum, só que dessa vez com os fãs acompanhando o processo todo.

Dessa leva, até agora já temos “Estereótipo”, “Musashi”, “Se Tudo Der Errado Amanhã”, além do singles “Bilhete 2.0” e “Primeira Diss”, lançados antes da divulgação da ideia. “Entrei nessa como um experimento mesmo, porque ano passado a gente lançou um álbum (“A Coragem da Luz”) nos moldes e formatos tradicionais, só que o mercado da música tá passando por mais uma mudança e a gente precisa estudar isso e entender como caminhar junto. Assim como foi há poucos anos com a cultura do download, que já foi embora”.

Além das músicas propriamente ditas, Rashid fez um planejamento para que os sons novos ganhassem clipes e também vídeos dele explicando letra e música, testando um pouco seu lado youtuber. Uma aposta feita apesar de ter sido muito desaconselhado a fazer um projeto desse tipo. Além dos prazos curtos e da pressão, muita gente se preocupou que ele poderia desistir no meio e ia ficar feio. “Mas eu sou extremamente chato com isso, por isso tô conseguindo. E eu não tenho as músicas prontas, estou literalmente fazendo os sons e lançando quando ficam prontos. Se manter dentro dos prazos e ainda assim conseguir manter um nível crescente no conteúdo que você tá colocando na rua é o desafio”.

Ainda bem que ele não ouviu quem achou a ideia uma fria, ela tem funcionando muito bem para alcançar os ouvintes. No YouTube do rapper, “Se Tudo Der Errado Amanhã” e “Estereótipo”, por exemplo, já acumulam mais de 800 mil plays e já estão entre seus sons mais populares na plataforma de vídeos, ganham fácil em termos de popularidade das faixas do seu primeiro álbum completo, que foi postado todo em um mesmo dia.

O cronograma da semana

Depois de pensar no dia que passou, Rashid pensa no que vem pela frente. O cronograma para o resto da semana é pesado. No sábado e domingo ele tem dois shows agendados no centro de São Paulo. O show de domingo faz parte da programação de inauguração do Sesc 24 de Maio, será uma participação em um show do Martinho da Vila. No sábado, o show é ao lado de Dexter, Z’África BRasil, Lurdez da Luz, Xis, SNJ e Thaíde no Teatro Municipal. Ou seja, quinta, sexta e sábado serão dias de ensaios.

Nesse meio tempo ele programa uma ida na fonoaudióloga na quarta, mesmo dia que tem aula de inglês. Se tudo der certo, terça tem um futebol. “E preciso continuar compondo as músicas desse meu projeto em construção”.

Tempo para pensar no mundo lá fora

Fora do trabalho quase tudo deu certo. O futebol rolou ( “É ótimo pra tirar o stress da mente e do corpo”) e na fono ele treinou uma música do Milton Nascimento. “A sessão foi boa, faço pra eu explorar regiões diferentes da minha voz quando canto”. Só o inglês foi por água abaixo, o professor tava doente e aula foi cancelada.

No Twitter, onde costuma postar coisas sobre sua carreira e só ocasionalmente toca em outro assuntos, Rashid aproveitou a terça-feira para fazer uma série de tweets sobre a situação do mundo depois de compartilhar uma notícia daquele dia sobre Donald Trump ter voltado a culpar os dois lados pelos atos de violência em Charlottesville.

Pedi pra ele comentar um pouco mais sobre o assunto e logo veio a resposta. “A visão que tenho é que quanto mais modernos os “mentes abertas” são, mais tradicionais os conservadores querem ser. E aí nasce o conflito, que várias vezes já começa dentro de casa mesmo”.

“Isso que rolou lá em Charlottesville é absurdo, assim como o que tem rolado aqui com “nossa” bancada tradicionalista, com a juventude negra sendo assassinada, com o machismo, questão de gênero, etc. As pessoas têm sofrido na rua, violência física e psicológica, e parece que cada vez menos gente liga pra isso”.

A preocupação de Rashid com o que acontece na rua e pelo mundo viram uma preocupação artística. “Esses acontecimentos, com essa intensidade toda, acabam indo parar nas letras novas, porque eu escrevo a vida agora. Preciso até ficar me policiando pra não me tornar repetitivo”.

Noite de folga, noite de trabalhar

O centro de São Paulo é um lugar importante na história de Rashid, foi um dos locais onde ele começou sua carreira próximo de nomes como Emicida, Kamau e Projota. “As sessões de rima na Olido foram imprescindíveis pra minha evolução como MC”. Voltar ali perto para se apresentar com Martinho da Vila mexe com sua cabeça. “Martinho é um grande artista, uma grande referência e estar ao lado dele ali naquele lugar tão marcante pro rap de SP, e pra mim, é especial demais. Ele é uma de minhas influências que vêm do samba, pela forma bonita como escreve e descreve a vida em suas canções”.

Esse trabalho fez Rashid passar a semana ouvindo Martinho. O som do sambista dividiu o espaço na playlist do rapper com novidades do Jay Z, do Joe Budden e do Tyler the Creator, além de alguns podcasts. “Ultimamente tenho ouvido vários podcasts, tô pirando. Eu gosto bastante do Nerdcast (inclusive já participei, milianos atrás), porque tem direções variadas. Episódios sobre empreendedorismo, outros sobre tecnologia, e os tradicionais que são variados por si só. Escuto também o Código Aberto, que é mais voltado pra business”.

Outra coisa que ocupa o tempo de Rashid é o futebol. Ele torce para o Corinthians e justo naquela quarta-feira, sua última noite de folga antes de mergulhar em três dias de ensaios, não tinha jogo. Ele teve que se contentar com as semifinais da Copa do Brasil e “de repente ver um filme ou ler um pouquinho”. Resultado? Ficou acordado até duas da manhã editando as vozes de um som novo. “Eu tinha gravado um som novo durante a tarde. Tenho gravado em casa agora, consegui montar um set up bacana o suficiente pra gravar minhas vozes valendo lá. Então eu meio que acompanhei os jogos da Copa do Brasil enquanto editava as vozes gravadas”. A noite de folga ficou pra depois.

Martinho

“Ensaio foi bonzão! O Martinho chegou direto do RJ, simpático pra caramba. Bom demais conhecê-lo. A banda dele é muito experiente, tiraram minhas músicas em meia hora. rsrs Tá bonito. O show vai ser lindão”, conta Rashid no retorno do primeiro ensaio ao lado de Martinho.Três dias depois ele tenta resumir a experiência ao lado de Martinho em algumas palavras: “Ele é muito carismático, sem frescura. Uma pessoa muito simples no trato com os outros. Logo no primeiro dia, chegou contando histórias de suas primeiras vindas pra São Paulo, de que a coisa mais parecida com o Rap ali pelos anos 60 era o Moreira da Silva com o Samba de Breque. Ele é realmente aquele cara sorridente que a gente vê na TV e na capa dos discos. A energia dele contagia. Conheci um artista que é grande referência pro meu trabalho e agora a pessoa dele também é uma grande referência pra mim. A banda dele é demais também.”

Sábado no Muncipal

Sábado deve ter sido o dia mais corrido da semana. Rashid participou do ensaio final com Martinho para repassar o show todo e depois correu para fazer o show do Municipal. Na sua avaliação, um bom show, mesmo que ele não tenha conseguido ensaiar por conta da falta de energia no estúdio justo na hora dele. Não dava pra reclamar de um show no centrão ao lado de nomes que são suas referências. Depois de se apresentar, ele resolveu colar em um restaurante para a primeira refeição digna desde quarta-feira. “Tava vivendo a base de lanche, chegando tarde em casa”.

Domingo no Sesc

Fim de tarde do domingo. Imaginei que era hora de perguntar pro Rashid como foi o show com Martinho, pela hora achava que ele já tinha se apresentando. “Tá rolando kkkk entro daqui 2 músicas”, ele me escreve segundos antes de entregar o celular para alguém e subir no palco. Foram três músicas, “Bilhete 2.0”, “Coisas da Vida” e “DNA”, todas escolhidas por Martinho dentre uma seleção sugerida pelo próprio Rashid. A preparação longa para um momento tão curto e intenso foi recompensada. Ele saiu feliz do palco. “Foi bom pra caramba! Mesmo com chuva, colou o público em peso! Demais!”.

Mais uma segunda

Uma nova segunda chega e com elas novas missões. Aquela música que ele tinha mandado para um produtor finalizar precisa ir agora ser mixada e masterizada. Já o clipe dela vai ser assunto de mais uma reunião, dessa vez pra bater o martelo quanto ao orçamento.

Obviamente, outras gravações e ensaios estão na rotina. Uma participação no programa Estação Plural de sua “parça” Ellen Oléria no Canal Brasil e “uma parada da Vevo”. Quarta, quinta e sexta é hora de ensaiar para um show em setembro no Sesc Itaquera que vai contar com a participação de Black Alien. Já o fim de semana é de show no interior de São Paulo (Macatuba e Ourinhos). Ufa. “Fora a isso, preciso arrumar um tempo pra mim… correr na rua, jogar um futebol, assistir meu time e ler pra manter as ideias afiadas. rs”. Na semana anterior, tudo caminhou bem e a perspectiva era a mesma para a nova semana.

“Nós somos operários da música, vivemos isso 24h. As pessoas às vezes têm a impressão de que o artista fica na casa dele, sentado no sofá esperando um raio chamado inspiração cair em sua cabeça, ou esperando chegar o final de semana pra ir fazer um show, mas nossa vida é literalmente uma correria, sacrifício. E esse ano ainda tem meu livro, que fala da relação entre minhas letras e minha vida. Está em fase de produção já, então em pouco tempo deve estar na rua. É isso! Gratidão! Foco na missão”.


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