2018 pode ser o ocaso do PSDB?

Uma breve análise sobre as perspectivas para o partido nas disputas estaduais

Matheus Leone
Mar 16, 2018 · 9 min read

O Partido da Social Democracia Brasileira, desde sua fundação, assumiu posição de destaque na política brasileira. Elegendo o Presidente da República em 1994, o partido se tornou um dos maiores players da arena nacional, mas seu sucesso nas arenas estaduais também é digno de nota. O PSDB governou grande parte dos estados brasileiros em um momento ou outro.

O caso mais relevante é, sem dúvida, o do estado de São Paulo, governado pelo PSDB desde a eleição de Mário Covas em 1994, mas estados importantes da federação como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Ceará, dentre outros, já tiveram governos tucanos.

Ao assumir a hegemonia da oposição aos governos do PT, o PSDB saiu vitorioso nas eleições estaduais mesmo quando derrotado nas disputas nacionais. Em 2010, por exemplo, apesar da derrota de José Serra para Dilma Rousseff, o PSDB ganhou as eleições em 8 estados, sendo o partido que mais elegeu governadores naquele ano, em estados que somados representavam mais de 50% do eleitorado nacional.

Já em 2014, o partido saiu com um impulso considerável das eleições nacionais, tendo sido derrotado por uma margem muito pequena de votos. Além disso, foi capaz de eleger 5 governadores (PR, SP, MS, GO e PA), tendo ganhado mais um governador que se filiou à legenda (Pedro Taques, do MT).

Desta forma, o partido sempre foi, além de um dos dois principais players da política nacional, uma das forças políticas de maior peso nos estados. Devemos ainda somar, por exemplo, o peso do partido na arena municipal, com um número de prefeituras sempre digno de nota.

Era de se imaginar que com a queda de Dilma Rousseff e o enfraquecimento do PT o PSDB seria beneficiado diretamente. Nas eleições de 2016 de fato o foi, tendo sido o partido que mais cresceu em número de prefeituras e elegido prefeitos em capitais como Porto Alegre, São Paulo, Maceió, Belém, Manaus, Porto Velho e Teresina.

No entanto, as perspectivas que se apresentam para o partido nas eleições nacionais e estaduais deste ano não são das mais favoráveis, podendo o PSDB sair sem a Presidência da República e com menos estados do que em 2014.

Devemos reconhecer que, apesar de toda a força do partido, Geraldo Alckmin ainda patina nas pesquisas de intenção de voto e uma derrota tucana nas eleições presidenciais não é impensável. Com uma possível derrota de Alckmin, o controle de estados importantes da federação é crucial para os planos futuros do partido. Com um número menor de estados, temos que contemplar uma redução da bancada tucana na Câmara dos Deputados, e possivelmente uma redução na influência do partido nas esferas nacional e estaduais.


Perspectiva estaduais para o PSDB:

Com seis estados governados pelo PSDB, temos que avaliar o que os cenários nos mostram para as eleições de 2018, e quais serão os principais desafios do partido nas arenas estaduais. Alguns estados sairão das mãos do partido e há a possibilidade de vitória em alguns que não têm governadores tucanos, mas o somatório geral da influência tucana parece ser negativo, principalmente na eventualidade de uma derrota presidencial. Vejamos alguns estados:

São Paulo

São Paulo é — sem nenhuma dúvida — o grande bunker tucano no país. Governado pelo partido desde 1995, ofertou às disputas nacionais 4 dos 5 candidatos tucanos (Covas em 89; FHC em 94 e 98; Serra em 2002 e 2010; e Alckmin em 2006 e 2018). Ainda assim, o estado viveu, nos últimos meses, uma indefinição acerca da candidatura tucana ao Palácio dos Bandeirantes.

Visando o apoio do PSB ao seu projeto presidencial, o governador Geraldo Alckmin acenou com a possibilidade de apoiar o seu vice, Márcio França (PSB) para o governo do estado. Seria a primeira vez desde 1994 que o PSDB se ausentaria da disputa pelo governo do estado, tendo vencido todas as eleições desde então.

Com a sinalização nacional do PSB de que não pretende apoiar Geraldo Alckmin e com a pressão das bases partidárias que exigiam um candidato tucano, a situação caminha para que João Doria dispute –e ganhe — o governo do estado. Em um cenário nacional complexo que não indica a vitória de Alckmin, a perda do governo de São Paulo seria, definitivamente, catastrófica para os tucanos, podendo representar inclusive a morte do partido como ele é.

A campanha não deve apresentar grandes dificuldades a João Doria, que deve ser eleito governador do estado, mantendo São Paulo sob controle do PSDB.

Paraná

O Paraná é um dos estados que o PSDB certamente perderá. O atual governador, Beto Richa, já está em seu segundo mandato e provavelmente disputará uma das cadeiras no Senado Federal. O candidato governista ainda não está definido, mas pode ser a vice-governadora Cida Borghetti (PP) ou o deputado estadual Ratinho Júnior (PSD). O estado não terá, portanto, governador tucano mesmo que o campo governista obtenha a vitória. Menos um estado para o PSDB, e um estado importante.

Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul foi governado apenas uma vez pelo PSDB com Yeda Crusius de 2007 a 2010. O estado foi governado desde então pelo PT (2011–2014) e PMDB (2015-presente) e deve contar com uma disputa aberta pelo governo. O estado nunca reelegeu um governador, e a impopularidade do atual governador José Ivo Sartori contribui para a indefinição do cenário eleitoral deste ano.

O PSDB deve apostar no nome de Eduardo Leite, que foi prefeito de Pelotas de 2013 a 2016. Leite — apesar de não ter disputado a reeleição — elegeu sua sucessora, sua vice (também tucana), e agora disputará o governo do estado buscando trazer um novo rosto para a política gaúcha. Não é possível precisar as chances de vitória de Leite, mas um cenário aberto como esse pode ser o caminho para o PSDB voltar ao Palácio do Piratini.

Santa Catarina

O atual líder do PSDB no Senado Federal, Paulo Bauer, deve disputar o governo do estado nas eleições deste ano. Bauer foi candidato em 2014, tendo sido derrotado pelo atual governador Raimundo Colombo (PSD). Mesmo com a derrota, Paulo Bauer se mostrou um candidato bastante viável que pode lograr êxito neste ano. As chances de Bauer esbarram, no entanto, na possível candidatura do deputado federal e ex-governador Esperidião Amin, que tem aparecido na liderança das pesquisas. Se Amin for candidato, as chances de Bauer diminuem, mas não somem.

Rio de Janeiro

A situação no Rio de Janeiro — como de costume — é complexa. A destruição da classe política no estado apresenta um cenário indefinido para as eleições de 2018.

Geraldo Alckmin, na busca por um palanque forte no estado, convidou o ex-prefeito do Rio de Janeiro — Eduardo Paes — para retornar ao PSDB e ser o candidato do partido ao governo do estado. Paes é, com certeza, um dos mais fortes candidatos, mas pode se complicar do ponto de vista jurídico. O ex-prefeito, no entanto, ainda não decidiu por qual partido disputará o governo e ainda está em negociações com partidos como PP. Caso Paes não retorne ao tucanato, o partido provavelmente não terá um candidato próprio ao governo, dependendo de alianças estaduais para a formação de um palanque para Alckmin.

Minas Gerais

Minas Gerais foi governado pelo PSDB por três mandatos consecutivos (dois mandatos de Aécio Neves e um de Antônio Anastasia), mas tem um governo petista desde 2014, com a vergonhosa derrota em primeiro turno do candidato tucano Pimenta da Veiga. Minas é crucial para o plano presidencial de qualquer candidato, principalmente porque quem ganha em Minas ganha a eleição. É o terceiro maior colégio eleitoral do país e não pode ser desprezado por nenhum candidato.

Alckmin, sabendo disso, busca convencer o senador Antônio Anastasia de novamente disputar o governo do estado, mas o senador reluta e provavelmente não aceitará. Nesse caso, caberia ao PSDB buscar um nome para apoiar, o que deve recair no deputado federal Rodrigo Pacheco, que está se filiando ao Democratas para disputar as eleições. Pacheco acena para Geraldo Alckmin, mas pode esbarrar na candidatura presidencial de Rodrigo Maia (se esta for mantida). Com a manutenção da candidatura de Maia ou com o apoio do DEM a outro candidato presidencial, Alckmin corre o risco de ficar sem palanque no estado que faz Presidentes da República.

Mato Grosso do Sul

O governador Reinaldo Azambuja, eleito em 2014, buscará a reeleição e — com a máquina na mão e índices razoáveis de aprovação — deve obter a vitória para mais um mandato.

Mato Grosso

A situação no Mato Grosso é mais complicada. O atual governador Pedro Taques (eleito originalmente pelo PDT) vai disputar a reeleição, mas enfrenta resistência principalmente decorrente de escândalos relativos a escutas ilegais de adversários políticos. Não digo que o governador será derrotado com certeza, mas a sua reeleição está ameaçada. Some-se a estes problemas divergências internas no próprio PSDB, principalmente com o deputado Nilson Leitão, líder do PSDB na Câmara que quer disputar o Senado pelo Mato Grosso. Taques e Leitão não se entendem, já que o governador quer entregar as duas cadeiras de Senado para outros partidos, na esperança de fortalecer suas alianças para a reeleição.

Goiás

Marconi Perillo está no seu quarto mandato como governador de Goiás, tendo sido eleito a primeira vez em 1998. Em 2002 foi reeleito e em 2006 elegeu seu sucessor. Voltou ao Palácio das Esmeraldas em 2010 e foi reeleito em 2014. Mesmo traído pelo sucessor que elegeu em 2006, é possível dizer que Marconi Perillo tem a hegemonia da política goiana desde 1998, mas enfrentará seu maior desafio nas eleições deste ano.

Pela primeira vez a perspectiva é de derrota para o grupo de Perillo, O senador Ronaldo Caiado (DEM) parece ser o favorito na disputa, principalmente se sua aliança com o deputado federal Daniel Vilela (MDB) se consolidar. Perillo lançará o seu vice, José Eliton, para a disputa e deve disputar uma das cadeiras do Senado, como fez em 2006.

Apesar da força de Caiado e Vilela, não é possível ignorar a força política de Marconi, que tem cerca de dois terços dos prefeitos do estado em sua base. A batalha de Caiado será hercúlea, mas a perspectiva é de vitória. O que não podemos fazer é subestimar a força de Marconi Perillo, que ainda pode ter algumas cartas na manga.

Rondônia

O PSDB ainda não bateu martelo sobre a candidatura da deputada federal Mariana Carvalho ao governo do estado. No entanto, Mariana foi teve resultado considerável na disputa pela prefeitura de Porto Velho em 2012 e não teve dificuldades em se eleger deputada federal pelo estado em 2014. Caso a deputada seja candidata ao governo, pode trazer Rondônia para a zona de influência do PSDB, controlando tanto a capital quanto o governo do estado.

Pará

O Pará, assim como o Paraná, é um estado que certamente sairá das mãos do PSDB. O atual governador, Simão Jatene, foi reeleito em 2014 e provavelmente não lançará um candidato tucano ao governo do estado.

Roraima

Em Roraima a governadora Suely Campos (PP) enfrenta grande rejeição, e disputará a reeleição enfraquecida. O principal nome para a disputa contra a governadora é de José de Anchieta Júnior, que governou Roraima por dois mandatos. Anchieta foi derrotado em 2014 para o Senado Federal, mas volta com certa força para disputar o governo do estado. Roraima é uma das unidades da federação que possivelmente voltarão ao controle do PSDB.

Alagoas

No Nordeste a situação do PSDB não é boa, como de costume. Alagoas é um de dois estados que podem ter candidato tucano viável para as eleições. Em Alagoas, o nome pode ser o do prefeito de Maceió, Rui Palmeira. No entanto, o atual governador Renan Filho tem bons índices de aprovação e com a máquina na mão deve ser reeleito. Rui é possivelmente o único candidato com força para desbancar Renan, o que não acredito que deve acontecer.

Sergipe

Em Sergipe o nome do PSDB para o governo é o do senador Eduardo Amorim. O senador foi eleito pelo PSC, mas migrou para o tucanato para disputar o governo de seu estado.


Alguns estados que não foram citados acima podem ter candidaturas tucanas para fortalecer a campanha de Geraldo Alckmin. No entanto, nenhuma delas parece ser forte o suficiente para chegar à reta final. Em alguns outros ainda há muita indefinição na formação das candidaturas. No Piauí, por exemplo, há a possibilidade de candidatura tucana viável, mas a indefinição ainda não nos permite traçar nenhum cenário no estado.

O que uma rápida olhada nas situações estaduais nos mostra é que a situação do PSDB não está fácil. Em um cenário provável partido deve manter apenas São Paulo e Mato Grosso do Sul, elegendo talvez um ou dois governadores inesperado. A tendência não é apenas de uma diminuição do número de deputados federais e senadores do PSDB, mas também no número de governadores, o que retroalimenta a redução da bancada no Congresso.

2018 pode ser um ano difícil para o PSDB. Se não eleger o Presidente da República e reduzir o número de governadores, deputados e senadores caminhará para uma redução drástica da sua influência política, mais ou menos como aconteceu com o Democratas após a pesada investida de Lula contra o partido. Caso isso ocorra, só restará ao PSDB uma alternativa: se reinventar verdadeiramente para sobreviver.


Matheus Leone é cientista político e editor-chefe da Vinte&Um

Matheus Leone

Written by

Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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