A adversidade do liberalismo brasileiro

O liberalismo enfrenta a resistência de séculos de formação sociológica patrimonialista, que não combina com a doutrina da liberdade e do império da Lei.

Matheus Leone
Jul 28, 2017 · 5 min read

Tive a oportunidade de abordar a teoria liberal por diversas vezes em textos e discussões. É um tema que me fascina e que me move tanto academicamente quanto politicamente, afinal além de cientista político sou também um liberal, daqueles que luta em defesa de um ideário de liberdade. Na semana passada preparei um guia de obras que considero fundamentais para a devida compreensão do liberalismo e foi um dos textos que mais gostei de escrever. Foi bem massa!

O que gostaria de abordar hoje segue uma mesma linha temática que é, novamente, o liberalismo. No entanto, quero abordar uma questão que muitas vezes é ignorada por liberais brasileiros: a dificuldade da teoria liberal de encontrar respaldo na sociedade brasileira.

Como pode ser visto na lista que preparei, não há no Brasil uma vasta produção liberal como há, por exemplo, sobre o socialismo. Os socialistas brasileiros são muito mais eficientes na produção literária, até porque ser socialista no Brasil é muito fácil. O socialismo brasileiro e todas as suas obras dão um banho nos liberais tupiniquins no que tange presença no debate escrito. Também no debate público de forma geral, apesar disso estar mudando gradualmente.

Ao mesmo tempo que isso é uma falha dos liberais, é também um sintoma mais grave das resistências que o liberalismo ainda enfrenta no Brasil, resistências essas que têm cunho sociológico e histórico latentes e que merecem, por parte dos liberais brasileiros, muita atenção.

Nós, liberais, ficamos muito acostumados a ler e pregar obras estrangeiras sobre o liberalismo. Muitas delas, obviamente, são pedras fundamentais do pensamento liberal, como apontei no meu guia. No entanto, falta aos liberais brasileiros a capacidade de compreender que a teoria liberal não deve ser replicada no Brasil sem antes ser passada no tradutor sociológico brasileiro. Não vai ser com post em rede social falando de Mises que vamos derrubar séculos de formação sociológica antiliberal.

Do que adianta para nós sair gritando que Hayek disse isso, ou que Mises disse aquilo se para a sociedade brasileira isso soa como maluquice? O esforço não pode ser no sentido da replicação automática das teorias importadas, mas sim da construção de um liberalismo brasileiro, que seja capaz de dialogar com o Brasil e seus cidadãos de forma mais direta.

Sérgio Buarque de Holanda publicou em 1936 sua magnum opus Raízes do Brasil. Nela ele traçou um perfil sociológico do país, datando a sua origem sociológica à herança cultural portuguesa. Considero que todos aqueles liberais que têm o compromisso de criar uma cultura de liberdade no país devem ler essa obra pelo seu valor estratégico.

Sérgio Buarque não era um ideólogo do liberalismo. Tampouco era um militante. Era um sociólogo que formulou uma brilhante análise que colabora, e muito, para entendermos a falha do liberalismo em ganhar adeptos no país.

Vejamos, pois a caracterização feita por Holanda do que ele chama de Homem Cordial. Não confundam, não tem nada a ver com educação no trato, e sim com uma forma de agir e pensar mais relacionada com as “emoções”. O homem cordial gosta de encurtar distâncias. Gosta de ser íntimo de todos, ou pelo menos parecer íntimo de todos. Isso não quer dizer que o faça por amizade ou carinho, e sim pela total aversão que o brasileiro tem das relações impessoais. Esse traço, herança da nossa formação sociológica colonial, é nítido ainda hoje.

Vejamos então: o brasileiro, que gosta de chamar todos pelo primeiro nome, transformando Marcos em Marquinhos em dois tempos e agindo como se a pessoa fosse sua amiga de infância, quando não é, odeia relações impessoais. Diz recorrentemente que no exterior as pessoas são “frias”. Diz que fora do país as pessoas se cumprimentam com aperto de mão e não com dois beijinhos no rosto. Não suporta que lá fora as pessoas se refiram às outras como Mr. alguma coisa e ou Mrs. alguma coisa e não como fulaninho, ou beltraninho.

Isso tem um efeito político claro. O Brasileiro não gosta das relações impessoais que a República impõe. Ele tem muita dificuldade de separar a esfera pública da esfera privada, porque age com o intuito de transformar as relações públicas em relações familiares, afinal elas encurtam caminhos. Elas fazem um processo andar mais rápido na repartição. A impessoalidade é vista como coisa de trouxa. Coisa de gente carola.

Não é possível pensar liberalismo no Brasil sem entender o traço patrimonialista do nosso país. Não adianta eu trazer Hayek para um país cujo traço sociológico mais marcante é o “jeitinho brasileiro”. O liberalismo não combina com o patrimonialismo. Aliás ele é avesso ao patrimonialismo. O liberalismo é impessoal, é frio demais para os brasileiros. Muito coisa de americano, ou britânico, aquela gente fria que te chama de Mr. Carneiro e te cumprimenta com aperto de mão.

Obviamente não estou dizendo para adequarmos liberalismo ao patrimonialismo brasileiro. O patrimonialismo é um traço cultural que deve ser combatido com veemência, mas ele é efeito, e não causa. A causa está no nosso ethos. Está no Homem Cordial.

Como então — essa é a grande questão - trabalhar a teoria liberal como forma de evolução sociológica de um país? Pergunta pesada, né? Pois é.

Eu mesmo tenho dificuldades de construir uma resposta clara para ela, mas ela não deixa de ser importante. Em primeiro lugar creio ser importante que os liberais brasileiros se dediquem a analisar a formação sociológica do povo brasileiro. Depois disso é necessário pegar a teoria liberal e passar ela pelo tradutor BR. O brasileiro precisa entender que essa teoria política é fundamental para o combate, por exemplo, da corrupção e da pobreza. Mas isso não pode ser feito daquele jeito de sempre.

Acho que, em síntese, falta um pouco de “jeitinho” aos liberais brasileiros, inclusive esse que vos fala. Falta aquele jogo de cintura. O liberalismo, como digo para alguns amigos, não é cool. Não é revolucionário, mas também não é aquela coisa contra-revolucionária dos conservadores. Nós deixamos que o liberalismo no Brasil virasse uma coisa bem blasé.

Temos que nos esforçar para construirmos uma teoria liberal brasileira, aplicável ao Brasil, que leve em conta as peculiaridades do Brasil não apenas do ponto de vista econômico, mas principalmente sociológico. Sem essa compreensão vamos persistir no erro, nos iludindo que essa suposta onda de direita brasileira é uma onda liberal. Não é, mas pode vir a ser se trabalharmos bem. Falta uma galerinha mais avant-garde.

Matheus Leone é cientista político e editor da Vinte&Um

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

Matheus Leone

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Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

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