A equipe dos sonhos de Trump está formada, para nosso pesadelo

Até meados de 2017 tínhamos uma Casa Branca dividida e pessoas comprometidas com uma visão mais tradicional da política republicana.

Lucas Mendes
Apr 9, 2018 · 3 min read
Spencer Platt/Getty Images

A partir de hoje, 9 de abril, John Bolton ocupa o lugar de H. R. McMaster no Conselho de Segurança dos Estados Unidos e, com isso, coloca-se a última peça que Donald Trump queria na Casa Branca desde que tomou posse. Conforme descrito por Michael Wollf em “Fogo e Fúria: Por Dentro da Casa Branca de Trump”, a escolha de McMaster foi um meio termo encontrado no início da administração para agradar não apenas o establishment republicano, mas a parte familiar, encabeçada a época por Jared Kushner e Ivanka Trump, que viam uma voz apaziguadora no general três estrelas. Essa foi a 9ª vez que um dos 21 principais cargos da administração foi substituído, sem precedentes para o primeiro mandato, de acordo com o NYT.

O ex-embaixador dos Estados Unidos para as Nações Unidas John Bolton fala durante a reunião de liderança de primavera da coalizão judaica republicana no The Venetian Las Vegas em 29 de março de 2014 em Las Vegas, Nevada — Ethan Miller/Getty Images

John Bolton ficou sob holofotes principalmente pelo seu cargo de Embaixador dos Estados Unidos na ONU durante administração Bush filho. Assim como Scott Pruitt, atual ministro da Agencia de Proteção Ambiental que não acredita no cerne da missão de sua organização — e sendo muito criticado por isso – Bolton era e ainda é extremamente crítico da ONU e da visão liberal de esforços multilaterais. Numa visão ultrarrealista, o novo conselheiro acredita em um extenso intervencionismo americano, até hoje defendendo a Guerra do Iraque (sendo este o grande ponto de divergência com Trump).

Na época da administração Obama, fazendo parte de um think tank conservador, foi crítico feroz do acordo nuclear com o Irã em conjunto com os outros membros Conselho de Segurança mais Alemanha (P5+1). Ainda que de conformidade com Trump nessa questão, o atual presidente ainda não fez esforços em relação à mudança de política ainda. Isso pode mudar em breve, ainda mais pelo foco do ex-embaixador na questão.

A mais preocupante mudança que pode vir tem a ver com as relações a Ásia-Pacífico. No artigo de opinião pago no Wall Street Jornal em fevereiro desse ano, Bolton advoga por um ataque nuclear preventivo à Coreia do Norte. Numa comparação beirando o ridículo, fazendo uma relação entre o regime de Kim Jong-un e o da Alemanha nazista, afirma que estamos novamente em um momento decisivo na história mundial onde é necessária uma ação unilateral.

Presidente Donald Trump mostra sua assinatura após assinar assinar o plano de revisão fiscal de 1,5 trilhão de dólares, juntamente com uma conta de gastos governamentais de curto prazo no Salão Oval da Casa Branca em Washington, DC em 22 de dezembro de 2017 — NBC NEWS

Até meados de 2017 tínhamos uma Casa Branca dividida e pessoas comprometidas com uma visão mais tradicional da política republicana. Até o momento, os grandes feitos da administração, como o corte de impostos, desregulamentações e uma pequena mudança no Obamacare não tiveram a ver com as aterrorizantes promessas de campanha, e sim à agenda do Congresso republicano que Trump decidiu por abraçar.

Ainda que Steve Bannon, notório alt-right e responsável pela campanha presidencial, fosse uma força dominante no policy-making dos primeiros 100 dias, outras personalidades eram essenciais para contrabalancear uma visão mais extremista da campanha. Eram pessoas como Reince Priebus (ex-Chefe de Gabinete), Rex Tillerson (ex-Secretário de Estado), Gary Cohn (ex-Diretor do Conselho Econômico da Casa Branca) e Sean Spicer (ex-Secretário de Imprensa). Agora todos os cargos importantes são comandando por pessoas que dão potencialidade e radicalizam a visão de Trump, seja em relação à segurança, seja na área econômica.

Os efeitos dessa mudança de rumos já estão sendo vistos com o início de uma guerra comercial com a China (e talvez o mundo) e o potencial desastre nas negociações do NAFTA, temido pelo Canadá e México. Só esperamos que a guerra idealizada por Bolton não se torne verdade.


Lucas Mendes é analista internacional pela PUC Minas, social-democrata, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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Analista Internacional (PUC Minas), liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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