A fênix e o dragão vermelho

Perspectivas para as relações entre Brasil, China e Estados Unidos.

Lucas Mendes
Nov 5, 2018 · 5 min read

Pouco mais de uma semana pós-eleições, não tardou para que a pauta de política externa brasileira viesse à tona. O tema voltou às manchetes após as declarações do presidente eleito sobre a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém e em função do editorial dos jornais ligados ao Partido Comunista Chinês (PCCh). Em seu editorial mais importante, do China Daily, a cúpula do partido comunista deixa claro que é vital parceiro comercial brasileiro e, por isso, seria importante que o novo presidente fosse pragmático e deixasse de lado a retórica de que a China é um ‘um predador que busca dominar setores-chave da economia brasileira’. O tom mais agressivo do jornal vem também em função da viagem do então pré-candidato com sua comitiva para Taiwan, durante um giro pela Ásia na segunda quinzena de fevereiro.

Durante os últimos vinte anos de política externa brasileira, o país centrou a cooperação Sul-Sul como foco do Itamaraty, onde parcerias com países em desenvolvimento eram prioritárias, junto com uma agenda de abertura econômica multilateral, ou seja, baseada nos esforços das rodadas da OMC e acordos comerciais com o Mercosul. No crescimento avassalador chinês durante os anos 2000, não tardou para que o famoso BRICS caísse na boca do povo. Nessa mesma época, o Brasil tinha sonhos de integrar a sexta cadeira permanente numa sonhada reforma do Conselho de Segurança da ONU, num delírio do então presidente Lula sobre o papel do Brasil na geopolítica e o peso da nossa economia a nível mundial.

Aos poucos, especialmente com o estopim da Operação Lava jato, notava-se um viés político-partidário, muitas vezes corrupto, no relacionamento com o sul-global, e tampouco a economia brasileira saiu do seu viés protecionista e demasiadamente fechado: viveu da venda de commodities ao mesmo tempo que protegia, de forma corporativista, a ineficiente indústria nacional. O pior dos dois mundos obrigou o brasileiro a pagar mais caro por produtos de qualidade inferior, alicerçado numa alta do preço das commodities. Com o fim do superciclo das commodities e um crescimento cada vez mais pífio da nossa economia, não tardou para que outras forças políticas se opusessem a essa política externa brasileira. Durante a corrida presidencial, parte fundamental da retórica do presidente eleito era relacionada a uma mudança do paradigma do Brasil com seus vizinhos, antes ‘preteridos por razões ideológicas’, e sobre uma nova ênfase voltada ‘ao comércio exterior com países que possam gerar valor econômico e tecnológico ao Brasil’, um plano de governo que na sua concepção chamava-se “Projeto Fênix”.

Existem dois provérbios chineses que gostaria de explicar nesse texto, que, na minha visão, podem elucidar o futuro das relações Brasil-China. O primeiro tem a ver com o relacionamento Brasil-EUA: “一举两得”, “matar dois pássaros com uma só pedra”, difundido aqui em outra versão. Sem entrar em muitos detalhes, sabemos que há alguns meses os Estados Unidos e a China estão em uma escalada de sanções comerciais. O motivo para tal escalada se deve, em último caso, às práticas desleais que a China adota com o resto do mundo, de modo a artificialmente abaixar preços, seja por meio de política cambial, seja pelo subsidio industrial. Num momento em que a Europa, maior aliado americano, olha de forma atônita para os Estados Unidos, é importante que Trump veja no Brasil um aliado, até para essa retórica que seus aliados tradicionais rejeitam. O presidente americano já se mostrou capaz de mudar radicalmente sua política externa em prol de uma agenda demasiadamente presunçosa e o caso recente da renegociação do NAFTA é prova, quando o presidente fez questão de renegociar um tratado duradouro, falando da sua injustiça econômica com os EUA, apenas para não fazer nenhuma mudança drástica e no fim clamar vitória. O maior alinhamento brasileiro com Trump pode trazer grandes benefícios do ponto de vista comercial e estratégico, em especial por meio de uma crescente confiança do investidor americano e investimentos diretos externos de longo prazo.

Trump e o presidente chinês Xi Jinping em Mar-a-Lago no dia 6 de abril de 2017. O famoso aperto de mão do presidente Trump costuma ficar em evidência, sempre simbolizando controle da situação— Jim Watson AFP / Getty Images

O segundo provérbio, bem relacionado com o primeiro,faz alusão ao título do texto: “强龙难压地头蛇”, “Até mesmo um dragão luta para controlar uma cobra em seu habitat natural”. Uma característica curiosa da China é o respeito por quem sabe negociar. Acredito que na Ásia toda existe essa cultura de respeito pela força, ainda que essa força seja diplomática e não militar. Ao mostrar uma atitude menos servil diante dos interesses chineses, o Brasil pode, aos poucos, deixar de ser apenas um parceiro comercial para se tornar um aliado importante, em pé de igualdade. A nossa característica única de não ter inimigos políticos internacionais, que nos permite negociar com o mundo todo sem restrições, é um capital político que não pode ser desperdiçado. A China eventualmente precisará levar parte da sua cadeia de suprimentos para outros países, conforme o sucesso do plano estratégico ‘Made in China 2025’, que pretende ampliar a participação chinesa no mercado de alta-tecnologia e pôr em cheque a liderança tecnológica americana. Assim, o Brasil tem condições de estar inserido tanto na chamada ‘velha ordem mundial’ quanto em uma ‘nova ordem’ liderada pela China.

Acredito que o próximo presidente, retomando um diálogo sério com a Europa e os Estados Unidos, fortalecendo os laços com a China e outros países em desenvolvimento com capacidade de honrar seus pagamentos, pode fazer o Itamaraty ajudar a impulsionar a indústria de bens e serviços nacional, além dos setores de exportação agrícola tradicionais. Tudo vai depender do rumo que Bolsonaro adotar, não só para nossa política externa, mas para o país que vai emergir com uma mudança econômica profunda. Será que a Fênix e o Dragão irão eventualmente virar o yin-yang, simbolizando o ápice da harmonia, conforme a tradição do Feng shui?

Lucas Mendes é analista internacional pela PUC Minas, social-democrata, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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Analista Internacional (PUC Minas), liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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