A geração de crianças presas em corpos adultos

Eduarda Formiga
Sep 19, 2017 · 5 min read

É esperado de jovens que sempre tiveram o que queriam, acabarem sem dar valor às coisas materiais. E eu me incluo aqui. Sempre tive do melhor que poderia ter ou até o que não poderia. Precisei quebrar a cara um bocado de vezes até amadurecer e perceber a máxima do capitalismo: tudo custa dinheiro.

Ao longo da minha infância, toda vez que minha mãe aparecia com alguma roupa ou acessório novo eu já perguntava “quem te deu?”. Parecia-me conveniente um adulto dar algo a outro. Já mamãe adora contar esta história até hoje e se acaba de rir quando o faz. Ela tentava me explicar que dinheiro não cai do céu e todo aquele clichê materno. Mas não era suficiente. Havia uma ingenuidade e não me fazia sentido ter de comprar algo, se as pessoas poderiam apenas lhe dar.

Depois que deixei de levar comida de casa para a escolinha e comecei a ganhar dinheiro para comprar o lanche do recreio, percebi a grandiosidade por trás daquele comércio. Eu precisava de R$2,50 para o salgado e mais R$2,50 para o suco, mas se eu bebesse água, sobraria metade do meu orçamento para gastar em balinhas. Ou então, deixar de comer um dia para salvar para o outro e comprar algo na merenda que fosse mais caro. Deste modo, passei a ponderar de um jeito absurdo. Diariamente eu tentava inovar em busca de maximizar os custos e, sem nem perceber, já estava incluída no capitalismo. Deixei de ser uma criança para ser uma consumidora em potencial.

Foi aí que percebi a amplitude das circunstâncias. Se eu queria algo, precisava de dinheiro para comprar. A falta do objeto de desejo causaria desconforto, assim como o alcance daquele proporcionaria prazer. Uma vez que eu já o tivesse, não importaria mais o caminho até aqui e sim como eu lidaria a seguir. Simplificando: o processo se invalida após conseguir o que quer.

Se no meu primeiro contato com dinheiro teria sido assim, o reflexo na minha vida adulta se faria presente. Ao contrário de outras épocas, em que o indivíduo deveria batalhar para alcançar seus objetivos, hoje ficou muito fácil. Ou melhor, há uma ideia de facilidade altamente idealizada.

Se não preciso lutar para chegar “lá”, por que eu prezaria por àquilo?

A contradição estaria que numa sociedade consumista, onde é preciso adquirir algo para ser alguém, a materialidade deveria ser mais apreciada. Pode-se presumir que, ao mesmo tempo que se é possível adquirir, é de destruir. Além de ser acessível, é preciso trocar sempre que houver uma novidade no mercado. Consumo, logo existo.

Toda essa somatória resultou numa geração mimada e irresponsável. Nunca lhes foi cobrado, então não lhes foi concebida a chance de lutar por àquilo. Claro que me refiro à classe média, afinal, quem batalha, diariamente, pelo ganha pão certamente terá apreço pela jornada e, por consequência, o objeto em si. Já quem nasceu com oportunidades poderá ser enganado com a falsa simplicidade em obter algo.

Se considerarmos a Indústria do consumo ou os próprios pais como agentes causadores deste fenômeno, poderíamos acabar terceirizando a culpa e trataríamos as crianças dengosas como vítimas. Este não é o objetivo. Mas os genitores não estão livres de supervisão. Por exemplo, outro dia eu estava almoçando num shopping e compartilhei a mesa com um casal e seu filho. Parecia-me bem, até que ao abrir o Mc Lanche Feliz, a criança não ficou tão contente ao perceber que não veio o brinquedo desejado. A fila estava enorme e a mãe tentou o convencer de trocar depois que almoçassem. Mas a criança não aceitava e se recusou a comer até que o pai, claramente cansado, trocasse o brinquedo. Depois desse enorme drama, na primeira mordida, o Enzo, nome fictício para a criança, não ficou agradado com o gosto do queijo. Fez greve de fome até que o pai sugeriu comprar um sorvete. A comida foi para o lixo e a criança almoçou uma casquinha. Todos saíram felizes e aquilo não passava de um dia normal. Vida que segue.

Eu até cheguei a rir, mas percebi o potencial perigosíssimo que ações como essa podem refletir no futuro. Conheci vários Enzos no decorrer da vida, já até namorei alguns. Na minha última experiência, meu ex-namorado, clama que foi sem querer, queimou o meu sofá que eu havia comprado há exatas duas semanas.

Eu fiquei indignadíssima, claro, pois o empréstimo bancário que tirei para mobiliar a minha casa ainda está a ser pago. No meio da discussão sobre a estupidez que ele havia cometido, aquele marmanjo de 28 anos se ofereceu a pagar. No dia seguinte a mãe dele me ligou e perguntou quanto foi para que pudesse depositar na minha conta. Problema resolvido. Mais uma história que um cidadão saiu imune ao terceirizar para os pais. Todo mundo feliz, certo? Eu não. Prossigo revoltada.

Meu último ex-amor e grande amigo Marcos costumava dizer que odeia gente rica. Impositivo que só ele, me numerava motivos para o rancor inerente ao seu ser. Eu ria mas nunca entendia de fato o que estava tentando me explicar. Hoje a lição nunca poderia ter sido mais clara. Marcos sempre viveu muito bem, assim como eu, ele saiu da cidade materna para debruçar a capital brasileira. Passou por vários perrengues que um jovem adulto encara e o fez com grande sabedoria.

Sua teoria era que pessoas com alto poder aquisitivo não conseguem enxergar o valor das coisas pois sempre conseguiram resolver tudo com dinheiro. Não parava por aí, acreditava ainda que isto resulta numa sociedade imprudente e que estaríamos fadados ao fracasso caso continuássemos aceitando isto. O que definia até o seu jeito de consumir, tanto a âmbito cultural como material. Desde seu time de futebol que carrega uma história humilde até os filmes que escolhíamos. Quando insisti que ele visse The Great Gatsby, Marcos declarou ranço eterno à Daisy. “Tinha de ser rica!”, dizia. Depois do episódio do sofá, passei a compartilhar da mesma ideologia.

Talvez isto nunca mude ou se agrave em dimensões inimagináveis. O playboyzinho do Lago Sul quiçá nunca aprenderá a apreciar o material, já que nunca precisou ir atrás do que quer e pode, naturalmente, substituir caso necessário. Até mudarmos a concepção que dinheiro resolve tudo, a inconsequência e falta de limites também refletirão nas relações interpessoais. E aqui, amigos, é que mora o perigo.


Eduarda Formiga é Jornalista em formação e esboço de pesquisadora em comunicação.

Vinte&Um

Eduarda Formiga

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Jornalista em formação, esboço de pesquisadora em comunicação e mãe de felinos.

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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