A mídia é a grande inimiga do povo? Sobre fake news, censura e ataques ao jornalismo

Samuel Dourado
Apr 18 · 3 min read

Liberdade de imprensa não é um conceito tão velho quanto você imagina. Tem mais ou menos 200 anos. Antes disso, os jornais não ousavam falar sobre alguns assuntos, por exemplo, política interna (é claro, ninguém queria ter a cabeça decepada). As leis de censura também corroboravam para a formação de jornais pró-coroa, o que seria equivalente hoje às secretarias de comunicação social, etc. A situação mudou a partir do século XVIII. Intelectuais impactados pelo Geist liberal e iluminista começaram a dar pitaco aqui e ali no rumo da política. Adivinhem? Os monarcas não gostaram muito da ideia. Bom, tudo bem ter um Kant falando sobre a política ‘’x’’ ou ‘’y’’ do Rei, mas um grupo como oposição à Coroa? Aí já é demais, né?

Mesmo com o conceito de liberdade de imprensa rodopiando sobre o cenário político da Europa, os jornalistas do século XVIII lidaram com perseguições políticas, fechamento de jornais, censura, etc. Convenhamos, nenhum governante que se preze ia querer — ou melhor, permitir — que um grupinho de formadores de opinião criassem problemas à Coroa. Já pensou se, por acaso, os ingleses descobrissem que o oneroso imposto que pagavam em 1760 era devido à guerra franco-inglesa? Guerra, inclusive, sem o menor consentimento popular!? Isso, evidentemente, se não fosse bem “controlado’’,poderia gerar instabilidades, revoltas, resistências populares, coisa que nenhum Rei gostaria de ter como ordem do dia.

A grande questão é que o Jornalismo, a partir do século XVIII, adquiriu grande papel na sociedade: propagar, informar aos cidadãos sobre os atos públicos e privados, mesmo que para isso tenha que enfrentar a mão de ferro dos poderosos. Passados 200 anos dos jornalistas pioneiros, a gente se encontra em situação parecida. É certo que a liberdade de imprensa e opinião evoluíram bastante nos últimos anos, mas o caráter do jornalismo de incomodar os políticos autoritários, corruptos e incompetentes não mudou. Também não foram alterados os meios para silenciar os jornalistas, ou até mesmo, impedir que a população seja devidamente informada sobre o que agentes políticos andam fazendo.

Em pleno século XXI, jornais foram fechados na Venezuela porque os redatores não se curvaram ao fracasso da ditadura de Nicolás Maduro. Na Turquia, Erdogan provocou um espetáculo de prisões ao acusar jornalistas de arquitetarem um golpe contra seu governo. Chegando ao reino Tupiniquim, Brasil, tem-se um Presidente que “volta e meia’’ busca tirar a credibilidade do jornalismo, ataca as informações propagadas sob o subterfúgio de serem “fake news’’, jornalismo “marrom’’ ou parcialidade dos veículos da mídia. No último episódio, influenciador do Presidente afirma que jornalistas são inimigos do povo.

Quiçá, o caso mais recente, e desolador por sinal, fora a determinação judicial do Supremo Tribunal Federal de retirar matéria jornalística que associava Dias Toffoli, Presidente da Corte, à empreiteira investigada na Lava-Jato. Por determinação do Ministro Alexandre de Moraes, a Crusoé deveria retirar a matéria imediatamente, sob multa diária de 100 mil reais. A decisão monocrática do Ministro demonstrou desrespeito gritante à liberdade de opinião e imprensa. Atitude não esperada de um agente público que representa instituição fundamental ao Estado Democrático de Direito e guardiã da Constituição.

Mais do que o exercício de um mera censura corriqueira, STF e a posição do Presidente do Brasil nos lembram algo. Quem é o verdadeiro inimigo do povo brasileiro? São os jornais, a mídia ou os agentes políticos autoritários, corruptos e incompetentes?


samuel Dourado é graduando em Economia na Universidade de Brasília (UnB). Para insights em Economia e Política, siga-me no twitter: https://twitter.com/SamuelDouradod2

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Graduando em Economia (Universidade de Brasília), liberal, escrevo sobre Economia, Política e Direito. Twitter: @SamuelDouradod2

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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