A volta do que não foi

Como Bernie Sanders pode despontar na nomeação em 2020

Lucas Mendes
Jan 17 · 4 min read
Foto AP/ Andrew Harnik

Um dos meus momentos favoritos em eleições americanas desde 2008, quando passei a acompanhar mais de perto, foi durante a corrida de 2016 quando o então (quase) desconhecido senador Bernie Sanders disse que estava na corrida para iniciar um movimento no Partido Democrata. Naquela ocasião, Hillary Clinton tinha uma plataforma que daria ela uma nomeação incontestável e um caminho fácil para eleger um democrata por três mandatos seguidos desde FDR/Truman. O que aconteceu durante os meses de corrida eleitoral você já se lembra. Bernie Sanders cresceu nas pesquisas e terminou as primárias como uma força dentro do partido, dando início a um movimento mais à esquerda, ligado a saúde universal, meio ambiente e redistribuição de renda, longe do movimento centrista iniciado por Bill Clinton.

Muita coisa mudou de lá para cá, mas é inegável que o movimento iniciado em 2016 ganhou força e proeminência dentro do partido e nas ruas. Parte das propostas defendidas, ainda que vistas pelo establishment político como radicais demais, ressoam muito bem para além de linhas partidárias, como licença maternidade irrestrita ou aumento do salário mínimo federal congelado em 7,25 dólares desde 2009. Muitas das pautas defendidas lá em 2016 pelo senador Sanders viraram centrais nas campanhas para a Colina do Capitólio em 2018, quando os democratas retomaram o controle da Câmara. O que foi mais interessante nestas midterms foi a normalização destas pautas pela ala centrista do partido, principalmente com os democratas ligados ao ex-presidente Obama.

Foto Getty Images/ Kena Betancur

Chegando em 2020, estamos diante de um palanque bem dividido. Meu texto de quase um ano atrás mostrava um cenário bastante caótico, vários candidatos e inúmeras possibilidades. Agora, em janeiro de 2020, fica bem claro que estamos caminhando para uma corrida de três ou quatro cabeças até pelo menos a Super Terça em março, quando catorze estados votarão nas primarias num mesmo dia. É bem claro também quais são estes quatro nomes: Joe Biden, Bernie Sanders, Elizabeth Warren e Pete Buttigieg.

Como é de se esperar num texto meu, é sobre dar cara a tapa. As pesquisas neste momento mostram que os resultados nos quatro primeiros estados ­–Iowa, New Hampshire, Nevada e South Carolina– estão em aberto, as porcentagens estão no limite da margem de erro. Os quatro tem possibilidades de vencer um destes primeiros estados e se firmar no restante das primárias. Aqui vem o toque de analista onde acredito que Bernie vai despontar nestes quatro primeiros votos, pavimentando o caminho para o restante das primárias.

Minha análise é pautada em três conceitos-chave em relação ao histórico desta campanha até agora: vulnerabilidade do front-runner, fidelidade do eleitorado e marketing político. A primeira é que a liderança de Joe Biden é frágil. Ele teve um ano inteiro para se manter no topo das pesquisas de intenção sem ter sua liderança contestada, num patamar acima da Hillary Clinton em 2016. Ainda assim, temos uma situação onde o principal candidato está cabeça-a-cabeça com o segundo colocado logo nas primeiras votações, algo que não deveria estar acontecendo para o front-runner, apesar dele e do establishment democrata assegurarem sua popularidade a nível nacional.

A segunda parte é em relação a fidelidade do eleitor do Sanders. A recente briga entre a Warren e Sanders nestes últimos dias vai servir ainda mais para solidificar a ala progressiva em torno de apenas um destes candidatos e como a base de apoio do Bernie é consistentemente fiel, as chances de migração estão do lado dele da balança. Desta forma, até a Carolina do Sul ou a Super Tuesday, é provável que os eleitores da Warren já migrem para Sanders, ainda mais se ele conseguir emplacar Iowa e New Hampshire, de forma a evitar uma nova vitória dos centristas do partido como foi em 2016.

A terceira e talvez até mais importante para os outros dois pontos é o marketing político do senador Sanders que postula que ele é o único que pode vencer Donald Trump em novembro, dado que a ala centrista foi derrotada na figura da Hillary e ele é o único candidato com capacidade de mobilizar eleitores que não foram às urnas no último pleito presidencial ou se sentiram traídos pela HRC. Este último ponto está ligado à crença de parte do eleitorado fiel dele de que ele perdeu a nomeação em 2016 de forma injusta (vide os escândalos posteriores que a Clinton recebeu as perguntas do debate de antemão) e a ideia de que o Partido Democrata precisa de um candidato autêntico, que dê continuidade as pautas vencedoras em 2018. Para assim, trazer eleitores de volta os que votaram Obama por dois mandatos, mas não aguentavam a dissimulação da ex-Secretária de Estado ou acreditam que Joe Biden é mais do mesmo.

Como eleições americanas são incrivelmente difíceis de ler, é provável que essa seja a primeira análise eleitoral em mais de um ano que não se mostrará verdadeira, mas acho que os caminhos da nomeação de Bernie Sanders em julho em Wisconsin estão já postos. Como a última derrota do Partido Democrata foi dolorosa, essa corrida não será fácil e mesmo que Biden acabe não sendo nomeado, não será por larga vantagem. A soma destes fatores certamente o levará às urnas em novembro, porém por enquanto há poucos argumentos a favor a uma vitória em novembro, independente da nomeação democrata.


Lucas Mendes é analista internacional pela PUC Minas, liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

Lucas Mendes

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Analista Internacional (PUC Minas), liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

Vinte&Um

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