Joesley Batista — Último Segundo -iG

Algo de estranho não cheira nada bem na relação entre MPF e JBS

Compra de dólares no mesmo dia que a imprensa divulgou a bomba, garantia de imunidade aos delatores e áudio que não corresponde ao que fora previamente informado. Muita coisa está estranha nessa história e carece de esclarecimentos por parte do Ministério Público.

Na noite de quarta (17) o país parou para assistir ao plantão da Globo que trazia uma notícia bombástica. O Presidente da República teria dado aval à compra de silêncio de Eduardo Cunha por parte da JBS. A revelação vinha da delação premiada de Wesley e Joesley Batista, executivos da JBS. As notícias trazidas por Lauro Jardim davam conta que Joesley teria gravado Michel Temer dando esse aval, o que obviamente seria a queda não apenas do governo, mas da República como a conhecemos.

Pois bem, durante toda a quinta o Brasil viu sua bolsa de valores e as ações de suas principais empresas desabarem. O governo, que estava promovendo uma agenda econômica salutar e, enfim, vinha colhendo resultados estava desmoronando, com o presidente de um dos principais partidos da base (o PSDB) afastado do seu mandato e o país questionando se Michel Temer renunciaria.

O estrago foi grande e, no fim do dia, o ministro Fachin levantou o sigilo permitindo o acesso aos referidos áudios. A surpresa de muitos foi justamente a de que, no áudio, nenhum aval para compra de sigilo de Cunha está explícito. A tal frase “tem que manter isso aí, viu?” que Lauro Jardim afirmou que teria sido dita quando Joesley afirmou à Temer que estava mantendo pagamentos mensais a Cunha na realidade se deu no seguinte contexto:

Joesley — Tô lá me defendendo. E como é que eu mais ou menos me dei conta de fazer até agora? Tô de bem com o Eduardo.
Temer — Tem que manter isso, viu?
Joesley — Tô segurando as pontas. tô indo, tô meio enrolado aqui no processo.

Quem ouviu o áudio pode sim argumentar que Michel Temer prevaricou ao ouvir de Joesley que o executivo supostamente tinha infiltrados no Ministério Público e tinha inclusive um juiz no bolso. Ao não denunciar essa conversa, no mínimo constrangedora, Temer pode enfrentar as acusações de prevaricação que são pertinentes, mas que não são reveladoras do suposto aval para compra de silêncio de Cunha. Ao ouvir os áudios não ouvi tal aval.

No entanto, o que tem me causado estranheza desde o começo desse episódio é a relação da JBS com o Ministério Público Federal.

Primeiramente, é importante ressaltar que a imunidade (isso mesmo, imunidade) dada aos irmãos Batista não foi um benefício dado a nenhum outro delator no âmbito da Operação Lava Jato. Apesar de terem penas abrandadas (e muito, para o meu gosto), os delatores têm pegado, obrigatoriamente, um tempo de prisão, nem que seja domiciliar.

No caso dos irmãos Batista o que vimos foi uma imunidade em que o Ministério Público condenou os delatores a viverem uma vida milionária nos Estados Unidos, pagando apenas uma multa ao Brasil (voltarei à multa).

É pedagógico para o país que delatores não recebam nenhuma punição? Eu sinceramente acho que o mecanismo da delação premiada é muito importante para identificar e punir agentes políticos envolvidos em corrupção, mas a partir do momento em que todos delatam e todos têm a pena reduzida que tipo de combate à impunidade estamos promovendo no país? E mais, que tipo de combate à impunidade estamos promovendo ao darmos IMUNIDADE para os delatores da JBS?

Enfim, o caso ainda me soa mais estranho diante do áudio apresentado. Que o áudio é comprometedor em alguma medida não há dúvida. Errou o presidente simplesmente por receber em sua casa uma pessoa da estirpe de Joesley Batista. Errou ainda mais ao não denunciar os crimes que Batista afirmou ter cometido. No entanto, um áudio daquele era digno de uma imunidade?

Mas a história não para por aí. Ela fica ainda mais estranha. No dia em que o escândalo veio à tona (quarta) a JBS realizou uma compra imensa de dólares que até então estavam tendo uma queda devido aos bons resultados econômicos que o país estava apresentando. Ou seja, durante o dia a JSB comprou, de acordo com o Estadão, entre 750 milhões e 1 bilhão de dólares. No dia seguinte (após estourar o escândalo) a empresa viu o dólar disparar e o lucro dessa operação ficar em torno dos 170 milhões de dólares. Esse lucro, sozinho, foi mais do que suficiente para pagar a multa estabelecida pelo MP, de 250 milhões de reais.

Dessa forma, a empresa fez uma compra de dólares quase bilionária na quarta durante o dia e à noite as gravações vieram à tona, fazendo com que no dia seguinte o dólar disparasse, rendendo lucros vultuosos para a empresa que, isso mesmo, gravou os áudios revelados. Não é possível que isso seja estranho só para mim. Será que House of Cards me condicionou a ver o mundo como uma grande conspiração política?

O que tem que ser determinado é se a empresa sabia que a bomba estouraria naquele dia e se, com essa informação, fez a compra dos dólares. Tem que ser determinado também se o Ministério Público sabia que essas gravações viriam à tona e se, mesmo assim, permitiu a compra dos dólares.

O fato é que a JBS conseguiu um imenso lucro, que usará para pagar a multa e verá seus donos imunes vivendo em Nova York com os frutos dos seus ilícitos e levando a sede da empresa para os Estados Unidos.

Está estranho. Está muito estranho e na minha cabeça duas possibilidades emergem:

1) O Ministério Público tem uma agenda política e para isso está disposto a beneficiar bandidos com imunidade; ou

2) A delação da JBS está só no começo e será um trator que justifique a concessão dessa imunidade.

O fato é que o que apareceu até o momento — no que tange Michel Temer — não é suficiente para garantir imunidade aos bandidos da JBS. Se a questão era Temer e Aécio essa delação deveria ter sido feita como as outras foram (com tempo de prisão para os delatores). O Ministério Público tem que nos explicar essas questões que não estão cheirando bem, e explicar porque a empresa conseguiu lucros tão grandes diretamente ligados às gravações feitas por Joesley.

Afinal, comprar quase 1 bilhão de dólares no mesmo dia que a imprensa divulga informações que farão o dólar explodir no dia seguinte é, no mínimo, suspeito.

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