Amplitudes e Eternidades

moldam e replicam o que elas são para nós.

Rafaella Salles
May 12, 2019 · 3 min read
Nurturer, por Anna Rose Bain

Estatisticamente falando, é por meio da amplitude que conseguimos analisar qual a real diferença entre o maior e o menor valor de um conjunto de dados aleatórios. Por intermédio dela que conseguimos ver a dispersão dos valores de uma determinada série, ou seja, é possível assim verificar com mais exatidão a variabilidade que é capaz de mostrar o quão perto ou distante estamos de um ponto central.

Antes mesmo de conhecer pessoalmente o ser que habita dentro de seu ventre, uma mãe funciona como uma amplitude sentimental. Ela é capaz de começar a desenvolver suas considerações a despeito de um conjunto de dados sem mesmo analisá-lo. Ela é tão virtuosa a ponto de expandir espacialmente quem ela é para se desdobrar em diversas. Ela cuida do alimento, ela cuida do prover, ela se importa com o passar do tempo e com as etapas daquele ser.

E, embora não louvem muito que o tempo passe depressa, elas sabem reconhecer a hora de permitir certo afastamento do ponto central. É aí que nasce a primeira independência dos seres que foram gerados há pouco tempo. Eles começam a ir para a escola, eles aprendem novos hábitos, novas línguas, novas manifestações culturais e alimentam ainda mais essa capacidade ampla que uma mãe tem de se orgulhar e dar asas aos seres em desenvolvimento.

Depois que os seres evoluem gradualmente, eles moldam com mais exatidão alguns traços perfeitos dessa gama de possibilidades que uma mãe possui. Eles se tornam empáticos com a dor do outro, eles reconhecem seus espaços no mundo e tentam fazer desses espaços algo duradouro e que possa, ao menos, servir como uma forte contribuição para tornar o mundo um pouco melhor. Finalmente criam asas.

Toda essa vontade absurda de deixar uma contribuição, por menor que seja, vem do papel de nossas mães que sempre marcam nossas histórias. E, nesse emaranhado todo, a lógica se inverte. Nós é quem passamos a cuidar de nossas geratrizes. Deslocamos nossos afazeres, passamos noites em claro, abrimos mão de tudo por mais um segundo, mas não conseguimos pará-lo e é somente aí que entendemos e somos capazes de sentir toda a amplitude que elas sentiam antes mesmo de nascermos. Nossas asas não querem mais voar.

E, por mais que alguns processos sejam mais graduais, por mais que algumas amplitudes sejam menores do que as outras, elas sempre nos mostrarão que a variabilidade do ponto central nos afeta. positiva ou negativamente.

Entre os espaços de ajuste e um pouco depois do aparente fim da amplitude de nossas mães, surge de relance a manifestação da eternidade para nos provar que mãe é como o infinito, que a duração que não tem começo nem fim, que prescinde de qualquer determinação cronológica e é inexplicável.

É como as águas do oceano que, por mais que sejam parte da natureza “finita”, aos nossos olhos são parte da imensidão que não conseguimos medir, como os grãos de areia que, podemos tocar, sentir, mas não conseguimos ir além disso ou até mesmo como a quantidade de estrelas no universo, que de tão grande e recém descoberto, não podemos explicar detalhes.

Desde os detalhes mais próximos de nós e mesmo depois de não sermos mais capazes de entender a lógica da funcionalidade do tempo, sentimos a dor da ausência que se mistura aos bons sentimentos que nossa memória guardam. Somos gratos pela vida, pelo crescimento, pelas asas e por tudo que fazem ou fizeram.

Mães jamais deixam de ser virtuosas, sensíveis e amplas. Elas se tornam parte da eternidade e no mais profundo agir, tornam-se obra do plano perfeito da criação.


Rafaella Salles Lopes Gomes é estudante de Direito na Fundação Getulio Vargas, Diretora Executiva do LAB e Vice Presidente da Sociedade de Debates FGV — SDGV.

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

Rafaella Salles

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Estudante de Ciências Sociais na Fundação Getulio Vargas e escritora nas horas vagas

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