Capítulo I, rascunho

Um rascunho do primeiro capítulo do que espero ser o meu primeiro livro.

Matheus Leone
May 6 · 13 min read
Escultura de Alfredo Ceschiatti localizada no Salão Verde da Câmara dos Deputados — 1977, Sem Título.

Adentrou o Anexo II da Câmara dos Deputados por volta das nove da manhã, horário que considerava absurdamente indigno de alguém que, desde os 15 anos, nunca conseguira dormir antes das duas. Rosnou que toda a ideia de acordar cedo era ridícula e medieval, necessária apenas para servos camponeses que precisavam aproveitar a luz do dia para plantar batatas a serem entregues ao senhor feudal, e não para alguém que melhor desenvolvia suas atividades intelectuais quando o relógio passava de meia noite.

Passara a noite anterior sem conseguir pregar os olhos, ensaiando em sua cabeça o dia que enfrentaria com o mau humor típico de uma noite mal dormida. Estava pronto para o espetáculo de sua vida e enfrentaria os holofotes trajando deslumbrantes olheiras, que obviamente eram retrato de um intelectual que passava noites estudando as proposições legislativas de interesse nacional, ou pelo menos era isso que gostaria que pensassem.

Após se embrenhar poucos metros pelo edifício dobrou à esquerda e vislumbrou o corredor das comissões naquela manhã de quarta-feira, algo que poderia ser descrito apenas como o verdadeiro inferno, carecendo apenas de um letreiro em sua entrada. “Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança!” eram palavras fundamentais para alertar acerca dos tormentos que ali se iniciavam. Nenhuma esperança era possível daquele ponto em diante. Pelo menos não numa manhã de quarta-feira. Aquele longo corredor — com um horroroso piso verde, péssima iluminação, oito plenários à esquerda e oito à direita e um amontoado de assessores, deputados, jornalistas, lobbistas e puxa-sacos profissionais no meio — o remetia novamente a Dante, que parecia ter dedicado seu Canto III àquele espaço. “Lamentos, vozes roucas, de ira os brados,/Rumor de mãos, de punhos estorcidos,/Nesses ares, pra sempre enevoados (…)”.

O celular vibrou com uma mensagem que dizia apenas “plenário 14”, para onde prontamente se dirigiu, ziguezagueando pelas pessoas que insistem em conversar em grupos que obstruem o corredor e atrapalham a passagem. Depois de vencer todos os obstáculos físicos daquele corredor, virou à direita e ingressou no plenário da comissão, encontrando a sala praticamente vazia e agradavelmente gelada graças a um ar condicionado que anunciava uma manhã de casa cheia. Apenas três pessoas encontravam-se lá: a secretária da comissão, Karla Alguma Coisa — uma senhora baixinha na casa dos cinquenta, de cabelos curtos e feição que o remetia a Caco, o Muppet -, e dois outros servidores da Câmara, um homem e uma mulher que deviam ter seus quarenta e poucos anos e que estavam ocupados conferindo a lista de membros da comissão em um papel enquanto a comparavam com a listagem constante do sistema da Câmara.

Percebendo o movimento, a secretária da comissão ergueu seus olhos, franzindo a testa e apertando a visão por sobre os óculos que usava para ler os documentos que se amontoavam na mesa. Ao ver quem ingressava mudou o semblante e desferiu um caloroso “bom dia, deputado”, como se houvesse algo de bom num dia que começa no corredor das comissões antes das dez da manhã. “Alegre demais”, pensou ele ao responder um bom dia cordial e sentar-se na terceira cadeira da direita para a esquerda da quarta bancada de madeira da comissão e reclinar-se para trás como sempre fazia. A secretária com cara de sapo de pelúcia gentilmente o alertou que o registro de presença já estava aberto, mas tanto ela quanto ele sabiam que ele não registraria sua presença tão cedo. Estratégia política.

Abriu o Correio Braziliense que trouxera debaixo do braço desde o carro e fitou a capa que estampava o título “CÂMARA ANALISA HOJE PROJETO QUE PROÍBE A PORNOGRAFIA.” e o subtítulo “Após semanas de intenso debate, comissão especial se reúne para leitura do parecer que visa banir a pornografia do país.” Ilustrando a capa estava uma foto tirada na reunião anterior da comissão, onde um homem gordo, trajando uma camiseta com dizeres bíblicos, estendia um crucifixo de madeira de cerca de trinta centímetros de comprimento a poucos centímetros da face de um jovem deputado, que de braços cruzados virava seus olhos para o lado oposto. Era possível ver a saliva do senhor voando pelo ar enquanto disparava uma metralhadora anti-higiênica municiada com pura cólera. Uma puta foto, pensou ele, e riu sabendo que nenhuma outra imagem poderia estampar aquela capa. “Momentos memoráveis da democracia brasileira”, sussurrou com um sorriso sarcástico que lhe era tão típico e que causava verdadeiro ódio em seus adversários políticos.

Abrindo o jornal deu de cara com a reportagem e procedeu à sua leitura apenas para se divertir com o relato escrito do que já presenciara na quarta-feira anterior. “A Câmara volta a analisar hoje bla bla bla… leitura do relatório… a expectativa dos deputados favoráveis é vencer esta etapa ainda nesta quarta, mas enfrentarão resistência dos poucos deputados contrários ao projeto… a bancada libertina, como foi apelidada, promete forte oposição ao projeto, como assegurou o líder do grupo, deputado Henrique Beneventi (PLD/DF).

Ao lado viu outra foto sua, desta vez em situação menos ameaçadora. Sem um crucifixo na cara. Estava em pé no corredor das comissões, com um microfone fálico em frente, um terno cinza claro feito sob medida que bem emoldurava seus 1,80m de altura, uma fina gravata preta de seda e o mesmo sorriso debochado no rosto. Seu cabelo preto sempre impecavelmente arrumado e os óculos redondos de armação amadeirada davam-lhe um tom extremamente respeitável. Exalava seriedade, apesar de não aparentar ter os 30 anos que completara no mês anterior. A imagem trazia a legenda: “‘Com todo o respeito ao relator, vai ser dura e longa [a oposição]’, garante o deputado Henrique Beneventi.

Soltou o ar ao dar uma boa risada vendo que pelo menos o Correio Braziliense havia entendido a infame piada que havia feito na semana anterior. Acabou distraindo a secretária da comissão, que estava concentrada na papelada sobre a mesa. Ela e Beneventi sabiam que seria um dia tenso para ela, que deveria estar com tudo meticulosamente preparado para enfrentar os problemas que muito provavelmente seriam causados por ele.

Beneventi leu tudo que o interessava naquele jornal enquanto aguardava o início da reunião da comissão, coisa que nunca acontece no horário marcado. O plenário 14, que foi aos poucos enchendo, já estava esquentando e em meio a um pensamento qualquer Beneventi foi pego de surpresa pelo presidente daquela Comissão Especial dando início aos trabalhos do dia. Estava tão entretido com a matéria sobre a votação que se avizinhava que não vira a chegada dos deputados, dos assessores ou dos poucos manifestantes que seguravam cartazes ao fundo da sala.

“Declaro aberta a presente reunião da Comissão Especial Destinada a Proferir Parecer ao Projeto de Lei número 3898/2023. Indago se algum deputado gostaria de requerer a dispensa da leitura da ata da reunião anterior” começou o deputado João Paulo Kuster, presidente daquela comissão. Um dos fundadores do Partido Conservador, Kuster era um gaúcho esguio de cinquenta e oito anos e pelo menos um metro e noventa de altura, que no seu terceiro mandato ostentava os cabelos grisalhos já distintos dos fios dourados que o acompanhavam quando chegara àquela Casa. Sua voz grave e rouca dava a certeza de que passara anos de sua vida fumando, e o aparente desgosto com a vida indicava que não o fazia mais.

Pedido de dispensa da leitura da ata feito, acatado e o presidente segue em frente. “Passarei agora a palavra para Sua Excelência, o deputado Castro Rola, para que possa fazer a leitura do seu relatório”. Havia enfim chegado o momento de saber o que diria aquele relatório. Foram semanas de discussão com audiências públicas de toda sorte, as mais infindáveis possíveis, para que fosse apresentado um parecer que todos já sabiam o que diria: voto pela constitucionalidade, juridicidade e técnica legislativa; e no mérito pela aprovação do PL 3898/2023 e rejeição dos apensados. Eram de uma previsibilidade atroz.

Beneventi olhou para o teto e respirou fundo, contendo a ojeriza que nutria pela figura do deputado Castro Rola e pelo que ele representava. Um gordo escroto que estava ali para policiar a punheta alheia, assegurava Henrique a quem quisesse ouvir pelos corredores da Câmara. Um deputado de quinto mandato e de quinta categoria, figura proeminente do Partido Nacionalista Cristão que gostava de pregar moralidade, mas gostava ainda mais de dinheiro. Tinha cinquenta e três anos com uma carinha de sessenta e cinco. Vencido um ronco suíno, pôs-se a ler seu relatório com o botão da gola fisicamente impossibilitado de ser fechado e um tom acaju na cabeça tão falso quanto o moralismo daquela patética figura.

“Presidente, gostaria de pedir autorização do plenário para passar direto ao voto”, disse o relator, na expectativa de ganhar alguns minutos pulando a leitura do relatório propriamente dito. Prática comum nas comissões, mas que hoje não seria tolerada por Beneventi. Já que eles se preparavam para aprovar aquela merda, teriam pelo menos que ter o trabalho de ler tudo, palavra por palavra.

“Presidente”, Beneventi chamou em tom sereno.

“Deputado Beneventi, Vossa Excelência estava estranhamente calado hoje. Está se sentindo bem?” respondeu Kuster para entretenimento geral do plenário.

“Estou ótimo, presidente. Tão ótimo que gostaria de pedir que o nobre deputado Castro Rola nos brinde com a leitura integral do seu magnânimo relatório que, pelo que ouvi dizer, tão bem protegerá os incautos adolescentes brasileiros dos perigos mundanos.” mais risadas no plenário.

“Não seja por isso, presidente. Eu leio tudo.” interrompeu rispidamente o relator, certamente farto do sarcasmo habitual de Beneventi, que se deleitava ao saber que irritava o nobre colega. “Relatório. Trata-se de proposição legislativa do nobre deputado… vedação da veiculação de material pornográfico…” começou o relator, fazendo a análise do projeto que todos já conheciam de cor e salteado. Beneventi não tinha interesse nenhum em ouvir o relatório, mas fazia questão de ganhar esses minutos na esperança de empurrar o máximo possível a votação. O resultado já estava definido, mas a votação não se daria naquela quarta. O projeto tinha maioria de sobra para ser aprovado, mas ele faria o que estivesse a seu alcance para irritar aquelas vestais da moralidade. O que irritava o relator era justamente saber que não conseguiria votar o texto naquela reunião, por mais que o Correio Braziliense dissesse que essa era a intenção.

Aquela era uma luta praticamente solitária de Henrique Beneventi. Não eram muitos os deputados dispostos a enfrentar um projeto para proibir a pornografia, ainda mais quando o país parecia ter dado uma guinada conservadora tão forte. Defender conteúdo erótico em um livro ou em uma pintura seria mais fácil. Com arte é possível tirar da manga o argumento da subjetividade. O que é arte? Agora, defender a pornografia propriamente dita já era demais, mesmo que uma parte considerável dos deputados concordasse que a proibição era um exagero. Com ele a bancada libertina somava 4 deputados na Comissão Especial. Os outros 26 votariam pela aprovação do relatório.

O agradável frio fornecido pelo ar condicionado fora subjugado pelo calor humano daquele plenário lotado, e Beneventi enfim se incomodou. A analogia com o inferno nunca fizera tanto sentido. Calor, multidão e falsos profetas. E tudo isso numa quarta pela manhã. Gostava de dizer que era nesses momentos que se arrependia de ter disputado uma eleição, mas intimamente sabia que aquelas eram justamente as ocasiões em que mais se envaidecia de ser deputado federal. Ali podia fazer o que sempre considerou um hobby pessoal: incomodar os outros com sua liberdade de expressão.

Lembrou de todas as vezes que sua mãe lhe dissera para não ser tão direto, não atacar políticos poderosos e não comprar brigas desnecessárias. Ele sabia, no entanto, que só há graça em comprar uma briga quando ela é desnecessária. Sendo ela necessária, deixar de enfrentar é submissão. Sendo desnecessária, enfrentar é matéria de liberdade. Escolhe-se enfrentar.

Eis que, enfim, alguém decide sentar-se ao lado do leproso Beneventi. Era de impressionar que em um plenário tão lotado as duas cadeiras ao lado do deputado estivessem vazias. O corajoso em questão era o deputado Marco Antônio Falenni, amigo de longa data de Henrique e aliado político de primeira hora. Falenni e Beneventi tinham origens distintas, mas visões de mundo muito semelhantes. O primeiro vinha de família tradicional da elite paulistana, filho e herdeiro político do governador José Cristiano Falenni, que falecera precocemente aos 56 anos, no terceiro de seu segundo mandato à frente do Palácio dos Bandeirantes. O segundo era filho legítimo da classe média de Brasília, servidores públicos federais, que puderam dar ao filho uma boa vida, mas não uma vida de centenária família paulistana.

Os dois haviam estudado juntos em um dos melhores colégios de Brasília quando José Falenni era senador por São Paulo. Ali começaram uma amizade que nenhum dos dois imaginava que um dia viria a se tornar também uma aliança política. Ambos foram os primeiros a saber de praticamente tudo da vida um do outro. Da primeira punheta à primeira foda, tendo esta acontecido primeiro para Falenni e aquela para Beneventi. Provavelmente os amigos conheciam um ao outro melhor do que conheciam a si mesmos.

Com 29 anos, Marco Antônio era um ano mais novo que Beneventi e conhecido como o galã do Congresso Nacional. Os anos de natação haviam dado a ele o porte físico responsável por muitas calcinhas arriadas e escândalos com affairs problemáticos. Tratava-se de um deus grego de pele alva, olhos verdes e um cabelo mais longo e mais bagunçado do que o recomendado para um político. Era um romântico incorrigível. Inúmeras vezes Beneventi mentira para uma ou outra namorada do amigo alegando que passara a noite com Falenni em algum evento político. Em algumas vezes tais eventos políticos ocorriam até mesmo durante a tarde.

Era o único sujeito que contava com a total confiança do deputado brasiliense e a amizade era vista pelas lideranças do partido como prejudicial ao jovem deputado paulista. Afinal, filho de um ex-governador muito bem avaliado e martirizado por uma morte precoce, Marco Antônio era uma das promessas do Partido Liberal Democrático para eventuais eleições, tanto para o Palácio dos Bandeirantes quanto para o próprio Planalto. Quem não votaria em um homem daqueles? Era um pacote completo: bonito, atlético, abastado e de família tradicional. Um Kennedy em potencial. Já Beneventi era um acidente da História, eleito com míseros 37.850 votos em uma eleição que ninguém acreditava. O consenso partidário era que provavelmente não voltaria, ainda mais comprando o tipo de briga que escolhia comprar. A amizade de Beneventi era uma âncora para aquele jovem de futuro tão promissor que por sua vez estava pouco se fodendo para tudo isso. Preocupava-se muito mais em foder, coisa que às vezes fazia duas vezes ao dia, com duas ou três mulheres diferentes e — semestralmente acobertado pelo amigo — com um ou outro rapaz. A promessa paulista manchada pela promiscuidade de Brasília.

A política não abre muitas brechas para a essência. Nela, a única coisa que importa é a aparência, e Marco Antônio aparentava ser um sujeito absolutamente seguro de si. Carismático, era amigo de todos. Piadista, conquistava a todos. Beneventi sabia, no entanto, que tudo aquilo mascarava uma imensa insegurança. Tratava-se de um eterno adolescente, constantemente preocupado com as expectativas que foram colocadas sobre ele. Que sempre foram colocadas sobre ele. Nunca tivera a oportunidade de ser meramente Marco Antônio (se é que alguém pode ser meramente um Marco Antônio na vida). Era Marco Antônio Falenni, futuro deputado, senador, governador e possivelmente presidente. Suas qualidades e seu valor sempre foram medidos pela régua do porvir. Sempre foi futuro, nunca presente.

A morte do pai e a vitória retumbante para a Câmara dos Deputados apenas anteciparam as pressões que atrapalhavam seu sono. Talvez por isso estava sempre nos braços de diferentes Cleópatras antes de dormir. O luxurioso esforço físico o ajudava a pegar no sono mais facilmente, com a mente vazia e nádegas quentes aquecendo sua virilha. Fodia para dormir.

“E aí, Venti? Esse merda vai demorar muito?”, perguntou Falenni com leve soco no braço direito de Henrique.

“Ele tá puto porque pedi que lesse todo o relatório.” O sorriso de canto dando o tom.

“É, Venti, mas tu sabe que não consegue segurar essa votação muito tempo, né?”

“tô sabendo, mas a coisa tem que ser pelo menos emocionante, Marcão. Deixa eles passarem um pouco de raiva. Hoje não conseguem votar.”

“Tô sabendo. E o líder falou com você?”

“Ele me ligou ontem à noite pra me xingar. Disse que ia me tirar da comissão se eu continuasse dando problema. Disse que só não me tirou até hoje porque está atendendo um pedido seu, mas que tudo tem limite bla bla bla”.

“E tu?”

“Ué, falei pra ele preparar um ofício me autorizando a utilizar o tempo da liderança aqui na comissão.”

Falenni bem que tentou, mas não conseguiu conter o riso diante de tamanha cara de pau. Soltou um primeiro “haaa” como um trompete e mais alguns com a mão na boca, numa tentativa inútil de esconder o ataque de riso. Seu riso sempre foi alto e Beneventi costumava ser o causador do problema, desde a escola. Aquela cena que hoje se desdobrava no plenário 14 do anexo II da Câmara dos Deputados era apenas um repeteco do que tantas vezes acontecera nas salas de aula do ensino fundamental e médio.

Acontece que Beneventi era aquilo. Um Raskólnikov mais tarado e menos homicida. Sentia que não devia satisfações de modo geral, e menos satisfações ainda quando considerava estar lidando com uma pessoa intelectualmente inferior, medíocre. Resta apenas dizer que poucas eram as pessoas que ele NÃO considerava medíocres. Para seus desafetos, era a personificação da arrogância. Um baita de um filho da puta que não levava nada a sério a não ser seus interesses pessoais. Um babaca que estava sempre armado de um sorriso sarcástico que muitos gostariam de afundar com um murro.

“Vou arrancar esse sorriso do teu rosto na base da porrada, seu filho da puta” ouvira de um colega na semana anterior em uma reunião da bancada do Partido Liberal Democrático. O deputado em questão era contido pelos braços por outros dois deputados que o impediam de pular por cima da extensa mesa de mogno — que abrigava os 89 integrantes do PLD na Câmara — e esmurrar Beneventi até que sua cabeça parecesse uma bola murcha. A tarefa no entanto não era simples. Beneventi provavelmente levaria aquele sorriso para bem além do túmulo, apanhando ou não. Mais fácil seria inverter o sentido de rotação da Terra.

Tendo permanecido sentado — com a cabeça apoiada por sua mão direita e aquele mesmo sorriso desgraçado no rosto — durante todo o acesso de fúria do colega de bancada, Beneventi aguardou avidamente até que todos estivessem calmos e sentados para enfim questionar o colega: “Tá de TPM, amor?” Falenni trompeteou, o deputado se arremessou por cima da mesa, a turma do deixa-disso o segurou pelos pés e a confusão voltou a reinar. Reunião adiada.


Matheus Leone é cientista político e editor-chefe da Vinte&Um

Matheus Leone

Written by

Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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