Cartas anarquistas #2: O fascismo

Benito Mussolini — Internet/Reprodução

Por Lucas Paes

“Eia! Eia! Alalà!”

Com esse grito, aviadores italianos voltaram do bombardeio à cidade austro-húngara de Pola, na Primeira Guerra. Essa guerra, em que a Itália lutou do lado que eventualmente foi vencedor, foi, como a maioria das pessoas pode saber, muito danosa para a economia italiana, coisa que levaria a situação política do país a um desgaste. Além disso, após a guerra, a Itália, apesar das conquistas que teve, como a região de Trento, não conseguiu unificar toda a região de maioria italiana, tal qual a área da cidade de Fiume, atualmente na Croácia. Nesse momento, um esteta[1] chamado Gabriele D’Annunzio lideraria 2600 homens para conquistar essa cidade logo após o término da guerra e a governaria por pouco mais de um ano. D’Annunzio era profético e escatológico, majestoso, imperial e másculo, ainda assim radical e enraizado em afeição fraterna. Ele era alguém que, desde a sacada de seu palácio, declamava poesia, compondo assim seu governo romântico na cidade de Fiume. O governo de D’Annunzio, apesar dessas características a meu ver interessantes, se provaria fonte de grande parte da simbologia fascista nos anos que se seguiriam.

As referências que o fascismo faria a Fiume seriam abundantes. Tomando o nacionalismo de D’Annunzio como base — a meu ver, um de seus defeitos[2] — muito sob a forma do nacionalismo integral, outro defeito de D’Annunzio, que tomou forma sob uma constituição com sindicatos colaboradores[3], que seria algo que o fascismo de Mussolini se usaria muito para a construção de seu modo de lidar com a economia.

E a economia foi apenas uma das coisas que o Duce copiou de D’Annunzio — o próprio título de Chefe que Mussolini utilizava era usado por Gabriele em Fiume. Outras coisas que foram imitadas foram a bandeira da caveira com ossos, os uniformes negros, o punhal no quadril, a identidade de “me ne frego” (em tradução livre, “que se foda”), porém, indo mais além, copiariam o uso da estética e a sacralização da política que foram usados na República Pirata[4] de D’Annunzio. A meu ver, uma simbologia positiva que os fascistas destruíram e que ajudaram a levar à fraqueza e, sim, maior degeneração que temos hoje em dia. A própria tradição pirata — sempre símbolo da liberdade frente aos desmandos dos outros Estados, referência que Hakim Bey, autor que citaremos em texto a seguir, usará para o caso da Costa da Barbária, como Salé, mas também para Madagascar, que sediou bolsões de resistências piratas, ou Tortuga, que sobreviveu a investidas francesas, inglesas e espanholas — foi maculada no inconsciente das massas por culpa deles! Na prática, a experiência fascista destruiu os símbolos de força, por terem perdido a guerra e por terem sido associados à violência. Aí, hoje, grupos que se usam desses símbolos, como os motoclubes ou as bandas de metal, são tachadas de fascistas. Ótimo para manter uma população sob controle, com medo, sem se desenvolver…

Um grupo que muito se envolverá com esses símbolos — na prática, indo contra a corrente — às vezes mesmo se confundindo com a influência fascista mencionada, será o grupo dos anarquistas pós-esquerda, que mencionaremos no próximo texto.

Notas

  1. Pessoa muito integrada no movimento artístico do esteticismo, atuante predominantemente no século 19.
  2. Creio que seja interessante clarificar. O nacionalismo eu vejo como sendo uma forma de violência, sendo assim um problema e diferente do patriotismo, pois o nacionalismo é uma identificação forçada ao mesmo tempo em que o patriotismo é espontânea.
  3. Algo que visivelmente esbarra numa coisa, o mundo real. Ele exige uma economia livre do controle das racionalidades individuais limitadas e verdadeiramente burras, uma economia mais baseada na intuição e na existência pura — ou seja, que exige uma economia de mercado.
  4. Pois era isso.

Lucas Paes é estudante de Direito na UFRGS.


Este é o segundo de cinco textos da coletânea Cartas anarquistas, escrito por Lucas Paes. As publicações ocorrerão às quarta-feiras.