Conservadorismo disfarçado de homofobia e racismo

Samuel Dourado
May 7 · 4 min read
Imagem do Ibahia com alterações

A eleição de Bolsonaro em 2018 mostrou a força da ala mais conservadora da sociedade brasileira. O que não representa uma surpresa. O Brasil é um país historicamente conservador. E isso não é, necessariamente, um problema. Sociedades conservadoras ou progressistas são características sociológicas e históricas moldadas ao longo dos anos. Enquanto, por exemplo, Portugal começou a prever legalmente o divórcio em 1910, o Brasil só fez isso em 1977. Os brasileiros, certamente, acreditavam que o divórcio representava a destruição da instituição família, protegendo-a com a não previsão legal — mesmo com “galhos’’ à solta ou pessoas que haviam descoberto que o parceiro era um crápula.

Em termos gerais, o conservadorismo não traz males à sociedade, apenas a caracteriza. À exceção quando serve como subterfúgio para exalar opiniões manifestamente preconceituosas ou criar a falsa ilusão de que o “meu’’ sistema de valores é a verdade, devendo ser seguido por todos. Se o Brasil é craque em ser conservador, também o é em usar o conservadorismo para disfarçar preconceito étnico e sexual. Alguém poderia se questionar: “então você está falando que todo conservador é preconceituoso?’’ Não. Estou afirmando que algumas pessoas preconceituosas usam o conservadorismo para exalar seu racismo e/ou homofobia de forma sutil. E assim a sociedade brasileira funciona. Convenhamos, no Brasil ninguém quer ser preconceituoso. Se você vai às ruas e pergunta se alguém é racista ou homofóbico, as pessoas certamente responderão “não’’. Mas as coisas ficarão claras quando alguém comentar que índios não gostam de trabalho ou negros não são confiáveis.

Grandes homens que analisaram a sociedade brasileira, destaco aqui Prado Júnior e DaMatta, mostram que o preconceito no Brasil é tratado sobre a dissimulação, o disfarce. É o racismo velado, a homofobia velada que faz parte da realidade brasileira. O Brasil nunca teve um Apartheid semelhante à África do Sul ou Estados Unidos, que determinavam por lei quais eram as “áreas’’ destinadas aos negros e aos brancos, mas não faltam casos de racismo. O Brasil nunca proibiu a “propaganda gay’’, como a Rússia em 2013, mas não deixou de ter a homofobia.

Conservadorismo político, homofobia e racismo

Em 2015, ficou claro como políticos e autoridades religiosas preconceituosas usam o conservadorismo para destilar suas opiniões homofóbicas e/ou racistas. O Pastor Silas Malafaia, importante no meio evangélico, iniciou um movimento de boicote à marca Boticário simplesmente por veicular propaganda do Dia dos Namorados com casais gay e lésbico. No período, Malafaia dizia defender os valores cristãos e o sistema de crenças da maioria: “Eu tenho direito de preservar macho e fêmea. Nós somos a maioria”, disse Malafaia em vídeo veiculado em suas redes sociais.

Mas qual seria a ameaça que uma propaganda poderia trazer aos machos e às fêmeas? A questão a ser entendida é que esse comportamento não configura uma exceção nos últimos 5 ou 6 anos. Declarações manifestamente preconceituosas protegidas pela casca do “conservadorismo’’ permitiram uma ascensão da voz mais repugnante da sociedade brasileira. Voz que clama pela volta da época de ouro, ou seja, da lastimável época em que negros ou homossexuais não tinham papel de destaque na mídia, nos filmes, nas propagandas, no governo, enfim, na sociedade. Esse é o mesmo sentimento quando Jair Messias Bolsonaro, atual Presidente da República, veta um comercial do Banco do Brasil que retratava a diversidade da população brasileira: negros, brancos, homossexuais, etc. Semanas depois, o Burger King, empresa do ramo alimentício, veiculou mensagem para contratar todos aqueles que foram vetados pelo governo. A atitude da empresa suscitou apoio entre ramos progressistas e, evidentemente, críticas pela parte “conservadora’’, a qual empenhou uma campanha de boicote nas redes sociais ao BK.

Sobre a decisão de veto de Jair Bolsonaro, o Presidente do BB afirmou que a esquerda tratou o cidadão brasileiro normal como exceção e a exceção com normalidade, razão pela qual a propaganda não poderia ser veiculada. Convenhamos, a diversidade da população brasileira — negros, índios, homossexuais — é anterior à entrada da esquerda no Brasil, aliás, anterior até mesmo ao surgimento da esquerda como movimento político. Só não é anterior ao preconceito que sempre existiu na terra tupiniquim. Antes sob formas mais descaradas; hoje sob a dissimulação do conservadorismo.


Samuel Dourado é graduando em Economia pela (UnB) e escreve insights sobre Economia e Política no Twitter: https://twitter.com/SamuelDouradod2

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Graduando em Economia (Universidade de Brasília), liberal, escrevo sobre Economia, Política e Direito. Twitter: @SamuelDouradod2

Vinte&Um

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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