Havaianas: haute couture universitária

Pavilhão João Calmon (PJC) — UnB

Brasília, 30 de agosto de 2017: o clima está seco; ontem a umidade chegou a 15% de acordo com especialistas; calor de 32ºC com sensação térmica puxando a temperatura pra cima. Por sorte — ou não, há quem discorde — eu estava no meu estágio trabalhando com um ar-condicionado na minha cabeça e bastante desconfortável na minha cadeira por ser obrigado a usar terno completo, mesmo não realizando atividades externas. Mas não é sobre isso que quero falar, mas dessa mesma época 2 anos atrás, quando estava terminando de almoçar e voltando para as aulas na UnB.

Para quem não sabe, grande parte das matérias da grade de Relações Internacionais são ofertadas em um bloco de sala de aulas chamado PJC (Pavilhão João Calmon). Chamar aquilo de bloco é eufemismo. Na verdade, está mais para um conteiner que eles jogaram no meio da universidade com cadeiras extremamente desconfortáveis, sem sistema de ventilação adequado, banheiros fedidos e que durante o período de 12h00–18h00 vira uma sauna fazendo com que a sua maior preocupação na sala de aula seja não sujar o papel com o suor que cai da sua cabeça. Sem exageros aqui.

E ainda assim, nesse contexto todo, há pessoas — principalmente professores e pós-graduandos — que te olham de cima a baixo se você estiver de bermuda e usando aquela amigável Havaianas (não é post patrocinado, mas bem que poderia, sério, se alguem tiver o contato deles me passa). Usar uma roupa confortável no clima de Brasília não deveria ser encarado como falta de respeito à instituição, mas uma forma de auto-defesa contra esse clima capaz de fazer o umidificador e ar-condicionado valer mais que ouro.

Estamos muito condicionados a querer repetir todos os padrões que vemos na mídia em geral. Universitários andando com casaco da universidade, rindo e falando sobre como o seu dormitório é sensacional é um daqueles clichês que esperamos ao entrar na faculdade. Nem vou mencionar American Pie. Sempre querendo copiar os outros, acabamos esquecendo de uma coisa chamada: adaptação.

É facil querer incorporar essa realidade cinematrográfica na nossa. Eles estão sempre sorrindo. Estão sempre felizes. São reconhecidos mundialmente por suas universidades. Quem não quer isso? A questão é: muito das suas rotinas são respostas ou adaptações que surgiram do ambiente geográfico em que se encontram. Ou vocês acham que a gente deve investir em um time de Hockey no gelo também?

Vamos deixar de lado esse pensamento ultrapassado de que um bom aluno é aquele que usa jeans (quando não uma calça cargo), sapatenis e um suéter combinando com o do professor favorito dele. Não estou falando para ir somente de cueca para a faculdade — haverá momentos para isso, acredite — ou não ter o mínimo de respeito pela instituição, somente para evoluir esse pensamento de que havainas é algo pra usar em casa.

Se vestir comfortavelmente é um luxo que hoje eu não disponho. Acho que é a coisa que mais sinto falta na minha rotina diária. Não desperdice isso por que alguém acha que é feio usar chinelo na Universidade. Possivelmente não é ele que tem que passar mais de 4h no PJC por dia que nem você, jovem universitário. Se encontrar alguém assim, não se preocupe, mande-o à merda — mentira, não faça isso. Ou faça, não mando em você.

PS: Montesquieu estava certo, não tem jeito de ser produtivo nesse clima dos infernos.

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