Jean Wyllys e a virulência que corrói a liberdade política

A mesma virulência que fez Jean Wyllys desistir do mandato para o qual foi eleito é a virulência que tentou tirar a vida de Bolsonaro. Não há democracia sem liberdade política, e liberdade política é não ter que temer ser assassinado pelo que pensa.

Matheus Leone
Jan 24 · 3 min read
Foto: Agência Câmara

Foi com imensa surpresa que li sobre a decisão do deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) de abandonar seu mandato e sair do país, motivado pelas inúmeras ameaças de morte que vem recebendo nos últimos tempos. O deputado está vivendo sob proteção da Polícia Federal, escoltado, com seus passos monitorados e impedido de transitar livremente. É preocupante que um representante eleito para o Legislativo Federal não se sinta seguro em seu próprio país, ao ponto de abandonar um mandato conquistado nas urnas. É apenas mais um sinal da ampla virulência que tomou conta da vida política nacional, hoje movida pelo ódio e pelas agressões.

A coisa é mais grave do que parece. Não há democracia quando não há liberdade política, e não há liberdade política quando as pessoas temem ser assassinadas por conta do que pensam ou defendem. O pensamento só é livre quando é possível expressá-lo e defendê-lo. Do contrário, é apenas exercício mental. A censura imposta pelo medo não combina com o regime democrático e corrói os fundamentos da liberdade, necessária para a boa política.

Jean não é um caso isolado, infelizmente. Em pouco mais de um ano tivemos uma vereadora, Marielle Franco (também do PSOL), assassinada; um candidato à Presidência da República esfaqueado em um ato de campanha; e agora um deputado federal deixando o país ameaçado de morte. Todos esses casos, com suas peculiaridades, são frutos da elevada virulência que assola a vida política nacional.

Algumas pessoas comemoram a decisão de Jean Wyllys por discordarem dele. Muitos são inclusive pessoas que, corretamente, condenaram e pediram respostas para a tentativa de assassinato que Bolsonaro sofreu. Da mesma forma, até hoje ouvimos teorias de como a facada em Bolsonaro foi armada pelo próprio, num suposto complô com o hospital Albert Einstein (?). Parece ser impossível, nos dias de hoje, simplesmente condenar a violência política e entender o risco que ela representa para a própria democracia.

Eleições periódicas sozinhas não fazem de um país uma democracia. Rússia e Venezuela estão aí como prova disso. Um país em que pessoas são assassinadas por suas visões de mundo precisa refletir seriamente sobre a qualidade de sua democracia. Eu discordo de Jean Wyllys em muita coisa. Acredito que sua visão socialista de mundo gera apenas pobreza e morte. Acredito, no entanto, que ele tem o direito de defender o que defende. Gostaria de poder continuar a divergir dele aqui no Brasil. Gostaria que ele pudesse exercer seu mandato livremente, sem medo de morrer por isso. Gostaria que Marielle não tivesse sido assassinada por enfrentar as milícias do Rio de Janeiro e gostaria que Jair Bolsonaro não tivesse sido esfaqueado por um lunático que preferia o ver morto a presidente.

A política é o ambiente de resolução pacífica dos conflitos sociais. Ela é o locus de debate e disputa livre de ideias, justamente para que as pessoas não se matem nas ruas. Na políticas as diversas visões de mundo se enfrentam através da retórica e do debate, e é isso que garante o mínimo de coesão e paz social. No Estado de Direito as divisões se resolvem no voto e no debate. As maiorias momentâneas exercem suas vontades através do voto, mas negamos a elas o direito de trucidar as minorias constituídas de indivíduos que devem ser livres para pensar, expressar e defender suas posições.

Hoje é um dia triste, que representa a incapacidade da nossa política de filtrar o ódio e a violência. Nosso sistema político, que deveria agir para mitigar o ódio através do debate racional, passou a incorporar cada vez mais a violência contra adversários e até a incentivá-la. Estamos regredindo na escala civilizacional. Não há possibilidade de construção de um país minimamente decente enquanto a liberdade política for atacada desta forma. Somos um regime democrático, mas temos que nos questionar sobre a qualidade de uma democracia em que as pessoas se sentem motivadas a matar com motivações políticas. Nada de bom virá se seguirmos por este caminho, por mais que alguns estejam se regozijando com a violência e o temor.


Matheus Leone é cientista político e editor-chefe da Vinte&Um

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Matheus Leone

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Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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