Machado de Assis é um velho sacana

Lucas Colliton
Mar 29 · 4 min read

“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas.”

Como não prosseguir à leitura, íntima e irreverente por sinal, destes escritos de Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1880) após tal frase já na dedicatória?

Outrossim, Machado de Assis é um autor de indiscutível importância no Brasil e Portugal à comunidade social e literária. Inegável, mas de outro lado, afinal, que sentimentos em relação ao mundo o autor transmite? há uma filosofia intrínseca de utilidade entrelinhas-lição ao leitor como visão de mundo? O conteúdo do que escreve é saudável?

A assombração que provoca Assis, e não insinuo aqui aos vestibulandos, mas, no enredo de seu próprio Brás Cubas, alavancou a literatura brasileira no período pós literatura colonial — ainda então “luso brasileira”.

A minha tentativa de redigir algo acerca de Machado, e esta obra póstuma em especial, são de alguns devaneios em torno da filosofia machadiana em seu parentesco com a vida, para além do humor divertido que a princípio a leitura provoca, coisa que reli recentemente à convite no Memórias Póstumas de Brás Cubas.

À partir desta largada delirante apoio-me aqui em estrofes do pensador brasileiro Afrânio Coutinho (1911–2000) — visto que meu repertório de machadinho não é longo em obras até esta escrita — analisadas em sua filosofia como pesquisador das obras machadianas que resultaram na obra A Filosofia de Machado de Assis.

À rigor da leitura, a narração provoca um jogo de opostos entre armadilhas da crítica, sensibilidade e independência do leitor na prática intelectual num mesmo viés em que Assis ri na cara de seus leitores — no bom e no mau sentido.

Machado de Assis é de longe um autor para não se ler com pressa ou por obrigação; desde que li suas “Várias Histórias” (1896), principalmente meus contos preferidos, A cartomante e Entre Santos. Nesta obra o autor tece um anzol com detalhes minuciosos entre o humor e o sadismo, até chegar ao zombamento da alma ou do divino na pequenez humana. Em Dom Casmurro (1899), um obra mais séria diriam alguns, e até no próprio Memórias Póstumas, segue-se o arranjo engenhoso da ilusão das palavras, própria do autor.

Ilustração por Eduardo Schloesser

Paira sobre as linhas o pessimismo de Machado em diversas situações, onde o riso camufla com humor ácido e negro por vezes o sentimento de crítica e falta de admiração a qualquer personagem que seja. É esta a tonalidade geral da sua obra, a nota permanente da sua interpretação do mundo, essa falta de generosidade no julgar dos homens e da vida [1].

Principalmente em Brás Cubas, há um polimento delicado em torno do sofrimento e da vida contada pelo corpo moribundo e pálido sobre o ar da vida como má e quase inútil tal como ela é.

É natural deste autor o ar provocativo e instigante da narrativa, inclusive aqui em Brás Cubas, onde a escrita por si só do literário marca um caráter pessoal próprio e histórico na literatura do país com a irreverência da escrita. É um morto quem narra!

A sátira e o humor negro, como já citado, é carimbo certo na personalidade de uma estória de Assis, quase como um zombamento da humanidade, do sentimentalismo e do mundo da alma — usei a palavra ‘quase’ como ironia. Buarque de Holanda afirma que o “amoralismo” de Machado tem raízes na sua

“insensibilidade fundamental” diante do mundo divino [2].

Porque ele é sutil: suas palavra dançam nas páginas criando um diálogo delicado em conversação com o subconsciente de quem o lê, de quem o interpreta, daí a ideia de humor e divertimento na primeira leitura de uma obra do escrevente: muito comum por sinal. As ideias (quase que por osmose, de tão sutil e bem construídas) traçam no ar do pensamento a ilusão da vantagem de se optar pelo egoísmo e desistência do autoconhecimento ou de altruísmo humano como genuíno porque são as escolhas mais sábias a um mortal neste mundo.

Machadinho é um velho sacana que goza do misto das provocações estimuladas em seu leitor e faz humor negro entre críticas sociais e as ri de si mesmas. As escritas do autor nesta obra em especial não são sobre o morto ou a morte em si, mas sim sobre a vida, sobre o homem com suas paixões, anseios, medos e dúvidas.

Já a ideia de morte em si, quando há na obra, nos força à reflexão: das ações da brevidade, da vivência filosófica, das mentes, emoção e alma (Eros e Thanatos). Sugiro ver “A Brevidade da Vida” de Sêneca sobre este extrato.

Seus contos não ajudam a “viver melhor” à rigor da interlocução de seus enredos, nem estimulam ninguém a novas vertentes de pensamentos humanísticos ou de vida, como percebemos durante esta construção, mas tudo isso, em hipótese alguma desmerece ou retifica o potencial e o nome literário do autor, declinando qualquer injustiça para com as obras de Assis.

Ou seja, numa leitura de Machado a vida não evolui, ou pelo menos, não evolui para melhor, filosoficamente e humanisticamente falando. Como dizia Sócrates “aprender a viver (ou “sobre mim”) é aprender a morrer”. Brás Cubas faz esta trilha ao contrário.

foto: divulgação G1

O livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas” se encontra gratuito sob domínio público no link: http://machado.mec.gov.br/images/stories/pdf/romance/marm05.pdf

[1] “A Filosofia de Machado de Assis”, Afrânio Coutinho, Livraria São José, Rio de Janeiro, 1959, 191 pp., ver p. 107.

[2] Artigo “A Filosofia de Machado de Assis”, no volume “Cobra de Vidro”, Sérgio Buarque de Holanda, Livraria Martins Editora, 1944, 121 pp., ver pp. 44–51

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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Lucas fala sozinho, tem uma câmera fotográfica e umas ideias, é entusiasta da escrita criativa, cultura e comportamento. Contato: lucascollito@gmail.com

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