Mamãe, eu quero mamar!

“Uma parte do instinto de morte, contudo, continua atuante dentro do organismo, e temos procurado atribuir numerosos fenômenos normais e patológicos a essa internalização do instinto de destruição.” Sigmund Freud

Reprodução / Internet

A luz âmbar do sol nascente atravessa a janela e bate na cara do sujeito como um murro pesado. Desnorteado, ele desperta, ouve sirenes distantes e uma mensagem do governo no celular: “Procure abrigo!”. Ainda tonto por ter sido arrancado do seu sono com tanta brutalidade, o sujeito se abaixa e engatinha para baixo da cama. Abrigado.

Poucas horas antes, um outro sujeito desperta com um sorriso malicioso no rosto, levanta o corpanzil imperial e xinga uns dois ou três assessores que dormiam e não o ajudaram a sair da cama. Talvez mande cortarem-lhes as cabeças no fim do dia — ou isso pareceria muito com a Rainha de Copas? Não importa. Veste-se e esfrega os minúsculos olhinhos perdidos naquelas bochechas que cairiam muito bem em um bulldog. A cara infantil quase ameniza sua insanidade. Seu pensamento repete as palavras de uma outra grande pensadora contemporânea: “É hoje!”

O acordar leva um tempo, mas o cérebro começa a funcionar e decide buscar na internet por que recebeu um aviso daqueles às seis da manhã de uma terça-feira. O dia estava cheio de afazeres e se fosse uma piada de mal gosto, ele ia dar uns tapas em alguém. Os portais de notícia avisam um míssil chegando. Aquele tom bem característico da TV sensacionalista. Mas o governo mandou mensagem no celular. Talvez a cama não seja o abrigo mais apropriado. Vai para a garagem subterrânea. Parece-lhe mais seguro. Encontra um vizinho e vê o medo nos olhos do pobre coitado. Puxa conversa.

Ainda falta algum tempo para apertar o botão vermelho, então aproveita para passar brilhantina no cabelo. Um corte que só ele pode ter no seu país. Dá mais um sorrisinho e observa os dentes que poderiam muito bem ser os da Mônica. Talvez um dia também mande matar o Maurício de Souza por isso. Veste-se para arrasar.

Pronto para o lançamento. “Ah, Japão! Hoje você não escapa”. Contagem regressiva. “Ah! Nada vai pagar ver a cara daquele maluco yankee quando ele ficar sabendo disso”. “Mas, senhor, a China não vai mais nos ajudar”. “Não fala nada e vai que hoje eu tô a fim”. Lançado. “Brilha, brilha, estrelinha…” Vai subindo, vai subindo e: “Cai, cai, balão. Cai, cai, balão. Em cima do Japão. Não cai, não. Não cai, não. Não cai, não. Vai haver retaliação”.

O tempo vai passando e o vizinho se acalma, fala muito do tempo. Não quer sair das amenidades clássicas de quem fala com outro que não conhece. Mas depois fala da família, das crianças que ficam cada vez mais desrespeitosas e ingratas. Da política, da economia que não consegue crescer… Os alarmes soam outra vez. O perigo passou. Outro dia sem maiores problemas com crianças birrentas.


Giovanni Coelho é estudante de Relações Internacionais na Universidade de Brasília (UnB).

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