Muito cedo para 2020?

Lucas Mendes
Feb 19 · 6 min read
Longo caminho até a convenção nacional democrata de 2020, sem lugar definido ainda (AP Photo/Chris Szagola)

Aos interessados (para não dizer viciados) em política internacional como eu que estão acompanhando a saga diária de novos nomes pra disputa presidencial americana em 2020, dos dois lados do espectro, muito mais do que imaginaria para fevereiro de 2019. Só do lado democrata, temos facilmente 12–14 personalidades que já declararam intenção de se candidatar, sem mencionar os nomes que, já muito conhecidos, possivelmente anunciarão a candidatura ao longo do ano. Ao contrário dos meus outros textos, este tem o intuito de dar uma organizada nos possíveis caminhos das primarias democratas, considerando os 10 candidatos mais plausíveis pra 2020 e os possíveis rumos eleitorais. Sem especulação de favoritismo ou vitórias, mas sim averiguando os fatores e conjunturas futuras que podem ser pautas da próxima corrida presidencial.

Aviso de antemão que é impossível prever a chapa vencedora das primarias com tamanha antecedência, mas dentro dos possíveis nomes, escolhi os seguintes dez para integrar essa análise, tendo em vista que são os nomes de maior circulação na mídia e oficiais (ou semioficiais) postulantes à Casa Branca. Sendo eles (em ordem alfabética por sobrenome): Joe Biden, Cory Booker, Julian Castro, Tulsi Gabbard, Kirsten Gillibrand, Kamala Harris, Amy Klobuchar, Beto O’rourke, Bernie Sanders e Elizabeth Warren.

Da esquerda para direita, cima para baixo: Beto O’rourke, Elizabeth Warren, Kamala harris, Bernie Sanders, Kirsten Gillibrand, Tulsi Gabbard, Joe Biden, Cory Booker, Julian Castro e Amy Klobuchar

Talvez você, leitor, questione ter deixado Bill de Blasio ou Michael Bloomberg, grandes nomes, de fora da lista, mas justifico com a premissa de que ambos representam um mesmo espectro político-ideológico já representado por outros candidatos da lista, que também servirão de suporte para o embasamento do texto. Não significa de forma alguma que penso que não irão disputar ou não podem ser candidatos competitivos em 2020, apenas o recorte escolhido a fim de colocar em pauta as diversas vertentes ideológicas que estão disputando a nomeação democrata.

É possível afirmar com certa certeza que estas primárias democratas serão as mais contestadas desde 1976, quando Jimmy Carter venceu o processo de nomeação com apenas 40% dos votos totais no primeiro ciclo eleitoral após o escândalo do Watergate. Ainda que alguns dos nomes saiam da corrida logo no início, ainda serão 4–6 nomes fortes que chegarão até a convenção em julho de 2020. Mencionei o governo Nixon não por acaso, já que ainda não sabemos a conclusão da investigação especial conduzida pelo Robert Mueller. Além de não ser possível calcular o estrago à administração Trump, também é impossível prever qual será a reação dos congressistas democratas em relação a um impeachment faltando pouco mais de um ano e meio para o fim do mandato e a reação da opinião pública. Ao meu ver, pode ser uma ideia que pode virar tanto um grande mote eleitoral quanto algo a ser esquecido, assim como foi nas midterms em 2018.

Dos dez nomes mencionados anteriormente, deixarei de lado dois nomes importantíssimos neste momento da análise: Biden e Sanders. Os dois nomes são amplamente conhecidos pelo eleitorado, terão um impacto gigantesco ao entrarem oficialmente na corrida, porém também são os dois com idade mais avançada (76 e 79 respectivamente) e somado a um palanque bastante pulverizado, são fatores que podem contribuir para desistência. Vale ressaltar minha crença de que a entrada desses dois nomes pode mudar radicalmente o rumo das primarias, para além de qualquer análise prévia.

No restante da lista, acredito que os seguintes nomes representam as grandes vertentes do partido democrata atualmente: Kirsten Gillibrand, representando uma vertente mais moderada; Elizabeth Warren, com um longo histórico ligado à ala da esquerda do partido; e Cory Booker, bem próximo ideologicamente do ex-presidente Obama. No mesmo espectro da senadora Gillibrand, acredito que Klobuchar tenha o mesmo perfil, porém com um diferencial importante: ela é conhecida em Washington DC como alguém que sabe negociar com os Republicanos. Já Kamala Harris segue a linha mais progressista do partido, porém com uma mensagem voltada mais a questões raciais e menos de distribuição de renda, como é o caso de Warren. No que classifico como os “Obama-democrats”, Booker e O’rourke seguem o mesmo perfil, talvez até mais progressistas que o próprio ex-presidente, e ambos têm uma postura bem transparente em relação a suas crenças, uma faca de dois gumes em eleições majoritárias.

Acredito que, tanto Julian Castro quanto a deputada Tulsi Gabbard, sejam jovens demais, pouco experientes e pouco conhecidos para o público, ainda mais com outros oito candidatos de muito mais nome. Nesse caso, os inclui na lista porque representam boas alternativas para a vice-presidência sem o imbróglio de serem muito grandes para terminarem na ala oeste da Casa Branca ou terem divergências profundas com qualquer uma das vertentes mencionadas anteriormente. Ambos ainda poderiam usar o cargo para impulsionarem uma campanha presidencial futura bem-sucedida, tal qual foi Al-gore, tendo sido vice de Bill Clinton.

Foto de cima do palco onde Hillary Clinton faria o discurso de vitória na noite de 8 de novembro de 2016 (AP Photo/ Jewel Samad)

Nos próximos doze meses, as vertentes supracitadas podem ganhar força ou perder dependendo do noticiário e da situação econômica ou política. É possível que uma deterioração no cenário econômico, com a uma recessão ­­– ainda que leve — ainda em 2019, dê força a uma mensagem populista de esquerda, prevendo aumento dos impostos e dos gastos do governo via ampliação de programas sociais. Assim como o desenrolar das negociações com a China pode impulsionar uma mensagem mais moderada e pró-comercio internacional, tal qual os Obama-democrats e os moderados do partido anseiam voltar a ter proeminência. Quando falo sobre China, não significa necessariamente sucesso nas negociações, mas uma volta da percepção de que o livre comércio é essencial para o sucesso do país, ao contrário da ideia colocada pelo populismo de Trump de que os outros países “se aproveitam” dos Estados Unidos.

Ainda que a baixa aprovação do presidente Trump fomente os sentimentos de que em janeiro de 2021 voltemos a ter um democrata na Casa Branca, é importante relembrar a força do salão oval. Como escrevi no último texto da série sobre Coreia do Norte, um sucesso sem precedentes da atual administração em desmantelar o arsenal nuclear coreano, ainda que pessoalmente acredito ser cada vez mais difícil, pode levar a uma alta na aprovação do presidente e, consequentemente, um palanque democrata menor, dado que nem todos dos atuais candidatos a nomeação desejam concorrer sem uma possibilidade de vitória real. A verdade é que ninguém quer ser um Walter Mondale, o democrata que concorreu com o Reagan em 1984 no auge da popularidade republicana da guerra fria.

É verdade que 2020 realmente está muito longe em termos eleitorais. As pautas que podem ser de grande interesse do público em 2020 podem não ser as mesmas de hoje, ainda mais com um ciclo noticiário tão rápido e os imprevistos de cada corrida, vide a quantidade de escândalos em 2016 que tiraram da Hillary Clinton uma nomeação tranquila. Ainda que eu ou qualquer outro analista coloquemos pesos diferentes às conjunturas da época ou ideologias de cada candidato, use pesquisas de opinião mesmo com tanta antecedência do pleito, a cabeça do eleitor é muito suscetível a emoções e decisões de última hora que levam a uma mudança rápida e radical no cenário eleitoral. Os quatrocentos anos de história americana estão repletos de bons exemplos de verdadeiras tempestades eleitorais e tentar prever com exatidão é tolice.


Lucas Mendes é analista internacional pela PUC Minas, liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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Analista Internacional (PUC Minas), liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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