Muito obrigado, Chester.

André Vargas
Jul 21, 2017 · 4 min read
Foto: Reprodução/Internet

O início dessa história vai parecer completamente sem sentido em relação ao título, mas não se preocupe, tenha paciência e eu prometo que em breve tudo ficará claro. Me acompanhe por alguns instantes.

No dia 9 de agosto do longínquo ano de 2003, a Rede Globo de televisão exibia a então novela das oito, Mulheres Apaixonadas. Naquele dia foi ao ar uma das cenas mais dramáticas e marcantes da história da teledramaturgia brasileira. A personagem Fernanda (Vanessa Gerbelli) era atingida por uma bala perdida em um tiroteio entre policiais e bandidos no Leblon, cumprindo o pressentimento que sua filha Salete, interpretada brilhantemente por Bruna Marquezine aos 8 anos de idade, tivera dias antes.

Eu, que estava no auge dos meus 12 anos, me lembro claramente de assistir aquela cena na televisão da minha casa. Mas apesar de toda a carga emocional envolvida, não foi o tiro atingindo a Fernanda ou o desespero da Salete que me marcou.

Durante a cena de ação na qual os bandidos corriam dos policiais, uma música de rock bastante característica tocava ao fundo. Eu não a conhecia, nunca havia escutado sequer nada parecido, não fazia a menor ideia de quem a tocava, mas sabia que tinha gostado muito daquilo. Pesquisei na internet e descobri que se tratava da música “Faint”, da banda Linkin Park.

Fiquei obcecado. Precisava ouvir mais daquela banda, precisava saber se as outras músicas eram tão boas, precisava saber de onde aquilo vinha. E fui atrás. Naquela época não existia Spotify, e se você não fosse safo o bastante para se virar com Kazaa e Emule, tinha que correr atrás de música por outros métodos. Me lembro de ter juntado, com muito sacrifício, uns 10 reais do troco do meu lanche na escola para comprar um CD pirata do álbum Meteora. Não me julgue, você também já fez isso. Era o que eu podia fazer.

Era o primeiro CD de música que eu comprava na minha vida. Cheguei em casa e escutei Faint de novo umas 5 vezes seguidas. E consumi durante muito tempo cada decibelzinho daquele CD. Escutava todas as músicas todo dia, toda hora, em qualquer lugar. Era uma sensação completamente nova essa de gostar de uma banda. E era boa demais.

Ontem, dia 20 de julho de 2017, fui pego de surpresa com a morte do vocalista Chester Bennington, um dos artistas mais talentosos que tive o prazer de acompanhar. Fiquei extremamente chateado pois imediatamente todas essas memórias me vieram a mente. Chester foi encontrado morto em sua casa e ao que tudo indica, se suicidou.

Não pretendo entrar em detalhes sobre depressão ou as causas que o motivaram a tomar essa atitude drástica. Tenho certeza que essa discussão, que é fundamental, está sendo realizada nos espaços apropriados. Meu objetivo aqui é destacar o trabalho de Bennington.

Ultimamente eu admito que não vinha acompanhando muito a banda. Eles mudaram muito seu estilo ao longo dos anos, e não me agradavam mais tanto assim. Aliás, é bom que se diga, eu acho que todo artista tem o direito de arriscar e se reinventar, por mais que isso magoe um pouco os fãs, que sempre vão querer mais daquilo que os fez se interessar no começo. Mas nada disso muda o fato de que Linkin Park foi a minha primeira banda favorita, e se manteve nessa posição durante alguns bons anos. Até então eu não tinha o menor interesse por música, conhecia bastante coisa, é verdade, mas não era fã de nada a ponto de acompanhar de perto. Linkin Park foi o responsável por despertar esse sentimento em mim.

Se hoje eu sou um admirador de determinadas bandas e estilos musicais, eu posso afirmar com absoluta certeza que a música de Chester Bennington teve uma participação fundamental nessa construção. E eu tenho convicção de que não sou o único. Um grande número de pessoas da geração de adolescentes dos anos 2000 talvez se identifique com isso. Até hoje os sucessos daquela época fazem parte das minhas playlists no Spotify, e não vão sair de lá tão cedo. Aliás, se você nunca ouviu o album “Live in Texas”, não sabe o que está perdendo.

Já vi diversos artistas que eu admirava muito morrerem, mas essa foi a primeira vez que eu senti a necessidade de me manifestar seriamente a respeito. Não sei o que vai ser do Linkin Park agora, não sei o que vai ser do restante dos músicos, e eu provavelmente não vou mais conseguir realizar o sonho de vê-los ao vivo. Mas de uma coisa eu tenho certeza: eu sou completamente grato pelo que vocês fizeram comigo. Vocês mudaram completamente a minha vida.

Muito obrigado, Chester. No que depender de mim, sua voz nunca se calará.

Vá em paz.

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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André Vargas

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Engenheiro de Controle e Automação pela Universidade de Brasília. Minha vida é basicamente futebol, tecnologia e cachorrinhos.

Vinte&Um

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