Não passa do natal

Uma análise sobre a guerra comercial entre China e Estados Unidos.

Lucas Mendes
Jun 4, 2019 · 5 min read
Regimento Garde-Kürassier em Berlim parte para a front em 1914 (Interim Archives/ Getty Images)

Em 28 de junho de 1914 estava o Arquiduque Franz Ferdinand, futuro kaiser do Império Austro-húngaro, em visita a Sarajevo, capital da Bósnia. Seu assassinato marcou a deflagração do sistema de alianças secretas que levou toda a Europa ao campo de batalha. À época, existia uma ansiedade atípica de que uma guerra continental era inevitável, por isso, a declaração chegou a ser até festejada na Alemanha. Do outro lado do canal, seria a primeira vez que a Grã-Bretanha estaria envolvida em uma guerra no continente em cinquenta anos.

“Não passa do natal” dizia a mídia londrina em agosto daquele ano, já que uma guerra de tamanha proporção, envolvendo todas as potências europeias e com a tecnologia da época, logo estaria encerrada. Uma guerra de curta duração criada por políticos, jornais e generais, levaria multidões a se alistarem rapidamente em vez de perderem a “oportunidade” de lutarem no próprio continente, contra a potência em ascensão que era o Império Alemão, em vez de se aventurarem com selvagens na África ou na Índia, a milhares de quilômetros de casa.

O resto dessa história você já sabe. Quatro anos, três meses e duas semanas até o fim definitivo da guerra, quarenta milhões de pessoas mortas ou feridas e um continente muito mais instável e vingativo que aquele de 1914. De lá para cá muita coisa mudou em relação à guerra. A Carta de São Francisco, de fundação das Nações Unidas, deslegitimou a guerra como instrumento viável e criou instituições para que os países pudessem resolver suas diferenças de forma diplomática e pacífica. Conquistas diplomáticas importantes que conseguiram evitar a catástrofe de uma guerra nuclear entre as duas hegemonias de meados do século passado.

Além do fator diplomático citado anteriormente, a interdependência econômica é algo que mudou completamente a lógica da guerra, especialmente no pós-Guerra Fria. A ascensão dos blocos econômicos, acordos de livre-comércio cada vez mais abrangentes e as inúmeras rodadas de negociação no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) são fatores cada vez mais proeminentes na política internacional e afastam cada vez mais a sombra de um conflito militar em larga escala.

Por isso, a guerra comercial entre os Estados Unidos e China é um capítulo importante na história da tragédia da política das grandes potências. Mais de um bilhão de habitantes e quase quarenta anos de crescimento ininterrupto a uma taxa de 10% ao ano fazem a China, de acordo com o Banco Mundial, “experimentar a mais rápida expansão sustentada de uma grande economia da história, tirando mais de 800 milhões de pessoas da pobreza”. A economia chinesa se modernizou, diversificou e subiu cada vez mais na cadeia de valor global ao longo destes anos. O crescimento econômico chinês foi e continua sendo sustentado por inúmeros subsídios estatais, fortes barreiras comerciais, grande interferência no mercado de capitais e outras práticas abusivas em disputa na OMC.

O histórico de disputas na organização tem sido historicamente a melhor forma de solução de disputas, inclusive em casos onde a China foi o lado perdedor. Em todos os casos, a China por consentir às mudanças necessárias com maior abertura do mercado, porém os processos no âmbito da OMC são demorados e o ambiente político-eleitoral americano exigia uma via mais enérgica. No final das contas, temos que lembrar que essa era uma das bandeiras em destaque da campanha de Trump em 2016.

“Esforce-se para construir um exército popular que possa escutar o comando do partido e vencer a batalha e o bom estilo.” — Xi Jinping (AP/Ng Han Guan)

Do mesmo jeito na China, Xi Jinping subiu o tom nacionalista nos últimos anos, abandonando o antigo slogan “Ascensão pacífica” de Hu Jintao para o socialismo com características chinesas, marco do pensamento do “Sonho chinês” de Xi. Nas ruas, mais e mais símbolos remontando à bravura da República Popular. A retórica belicosa dos meios oficiais de comunicação também é algo a se notar, tanto contra os Estados Unidos quanto com aliados que não são alinhados com a política de Trump, como a Nova Zelândia ou o próprio Brasil.

Logo no início da guerra comercial, o que todos os analistas diziam era que seria uma negociação razoavelmente simples: os chineses assinariam um cheque bem grande comprando mais produtos agrícolas dos Estados Unidos e o Trump iria levar essa vitória para casa, agradando seu eleitor tanto no discurso quanto no bolso. Confesso que nessa época acreditava que algo semelhante poderia acontecer, uma vez que a renegociação do NAFTA/USMCA foi basicamente um grande jogo de retórica e pouquíssimos ganhos. Inclusive, esse foi o motivo pelo qual protelei bastante escrever sobre a guerra comercial, que toda semana parecia que terminaria. Apesar do ruído de que um acordo está em vias de se concretizar em breve, o que pode realmente ser verdade, a impressão que todos os canais oficiais passam, tanto do lado americano quanto do chinês, é de que o que está em jogo é uma capitulação completa da outra parte.

A recente escalada em relação à Huawei, e todo o setor de tecnologia, é um ponto de virada nas negociações. As retaliações sendo propostas nos veículos de imprensa da China falam em restringir o acesso de empresas americanas a metais de terras raras (hoje quase monopolizadas por firmas chinesas) ou até mesmo dumping de títulos do tesouro americano. Não acredito que chegará a tanto, já que estamos falando de opções quase nucleares em termos econômicos, porém a ventilação destas ideias traz à tona o aspecto da dificuldade intrínseca de se fechar um acordo comercial já que chegamos no aspecto “orgulho nacional” das negociações, que tanto Xi quanto Trump levam muito a sério. Tal qual a Alemanha de 1914, cristaliza-se a ideia do lado chinês de que o que está em jogo é o próprio status ascendente da China como uma potência, mais do que uma simples guerra sobre um superávit comercial. Com o partido cada vez mais centrado na figura de Xi Jinping, um país mais nacionalista que nunca nestes 30 anos pós-Tiananmen, fazer dos Estados Unidos o inimigo a ser superado é um bom negócio. O problema é que desse jeito iremos muito além do natal de 2019.

Lucas Mendes é analista internacional pela PUC Minas, liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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Analista Internacional (PUC Minas), liberal, botafoguense e focado no Leste Asiático.

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