Opiniões de Dilma sobre Eletrobras mostram que a irrelevância joga a pessoa no desespero
A presidente que faliu o setor elétrico brasileiro achou prudente criticar a proposta de privatização da Eletrobras. Falta a ela, no mínimo, credibilidade.

Dilma Rousseff já foi a pessoa mais importante do país. Tinha uma boa taxa de aprovação popular, uma grande base de apoio no Congresso Nacional, suas propostas costumavam ser aprovadas e ela era sempre o principal foco da imprensa, ainda que fosse para dar aulas de dilmês. Há quem deixe esse imenso poder subir à cabeça. E Dilma foi esse tipo de pessoa.
A fama de Dilma enquanto gestora não é desconhecida pela maioria de nós que vivemos nas esferas de poder de Brasília. É conhecida como uma pessoa, digamos… difícil. Centralizadora, impaciente e dizem que muitas vezes grosseira. Há inclusive boatos de notebooks arremessados e gritos desferidos, mas são boatos.
A postura centralizadora somada a desvios reiterados na política econômica e na gestão fiscal do país nos legaram a maior crise econômica da nossa história, bem como o impeachment da presidente que fraudou contas públicas e usurpou prerrogativas do Congresso Nacional. A presidente que nunca aceitou que estava errada foi apeada do poder por crimes de responsabilidade. Foi jogada na irrelevância política, um zero à esquerda no jogo do poder.
A irrelevância, no entanto, tende a deixar as pessoas desesperadas. Elas passam a fazer qualquer coisa para ter um pouco de atenção, principalmente se você foi a pessoa mais poderosa do país.
É o que está acontecendo com Dilma, que adotou o trumpismo tuiteiro para falar asneiras em rede social. Fez isso ontem para comentar a desestatização da Eletrobras. Não segurou os absurdos, deixou tudo sair e o que saiu é triste. Vejamos:
Agora, é preciso comentar que no desespero para ser relevante Dilma deve ter esquecido de algumas coisas.
Esqueceu, por exemplo, que foi ministra de Minas e Energia, responsável pelo setor elétrico brasileiro. Esqueceu também que quando presidente promoveu a maior intervenção estatal no setor elétrico da história moderna do nosso país com a MP 579/2012. A justificativa: reduzir — nem que na marra — as tarifas de energia.
O resultado? Dilma conseguiu desmontar o setor elétrico no Brasil, atingindo o objetivo oposto do que o proposto por ela. Tarifas aumentaram e o setor colapsou. Mas tudo isso tinha um objetivo maior, as eleições de 2014. A então presidente foi com toda a pompa e circunstância à rede de rádio e televisão, em horário nobre, para anunciar a redução nas tarifas. Enquanto especialistas e oposicionistas alertavam para a interferência indevida do Estado no setor, a presidente se vangloriava de um resultado não obtido. Mais uma das maquiagens feitas para ganhar as eleições de 2014.
Ela fez isso em outras áreas. Basta lembrar da política de preços que foi adotada pela gestão dela para maquiar a inflação do país para as eleições. Para se ter uma ideia, o prejuízo da empresa com essa política de preços ficou entre 60 e 70 BILHÕES de reais, muito mais do que se estima ter sido prejuízo oriundo de corrupção.
No setor elétrico, que ela tão bem entende, não foi muito diferente. Em 2016 matéria da Gazeta do Povo já indicava que o caos do setor elétrico causado pela Medida Provisória de Dilma já custava cerca de 110 bilhões de reais em quatro anos. Isso envolvia indenizações, socorro às geradoras, empréstimos às distribuidoras, aportes do tesouro para redução da tarifa e relicitações.
Dilma Rousseff, com esse currículo, se acha devidamente credenciada para criticar a proposta de privatização da Eletrobras, medida não apenas importante para corrigir parte do caos que ela gerou do ponto de vista fiscal, mas boa do ponto de vista moral. É mais uma empresa estatal utilizada para fins políticos que sairá das mãos do Estado, que deve reduzir sua participação acionária nela para cerca de 47%.
Infelizmente para Dilma, a economia não segue seus mandos. As regras da economia não podem ser dobradas para servir à retórica da presidente cassada. Tanto que, apesar de economista, Dilma conseguiu produzir a maior crise econômica da nossa história.
Enquanto isso, após anúncio do governo da intenção de privatizar a Eletrobras, em apenas um dia a empresa teve seu valor de mercado aumentado em 9,13 bilhões de reais, com disparada das ações em 49,3%. O mercado reagiu positivamente à notícia, que é um alivio para todos aqueles que entendem que o “efeito Dilma” no setor elétrico ainda vai perdurar.
No mais, Dilma deveria tentar conter seu desespero por voltar a ser relevante, porque os efeitos nocivos do seu governo e os crimes pelos quais foi condenada garantem que ela não tenha o mínimo de credibilidade política e técnica para opinar sobre assuntos do setor elétrico. Quem faliu o setor elétrico é a pessoa menos legitimada para opinar sobre ele.
Matheus Leone é cientista político e editor da Vinte&Um

