Nazismo de lado, e os 25 milhões?

As frases absurdas acabaram por ofuscar a relevante discussão sobre prioridade orçamentária.

Raphael Bastos
Jan 18 · 3 min read
Roberto Alvim — Jorge William / O Globo

Mais um dia de polêmica do governo Bolsonaro, dessa vez envolvendo o Secretário Especial da Cultura, Roberto Alvim, que praticamente citou frases de Joseph Goebbels, conhecido por ter sido ministro da propaganda do governo nazista. Por incrível que pareça, a maioria da internet se uniu em rechaçar o que foi dito e emulado através das suas palavras e estética do vídeo, inclusive os gurus intelectuais do governo e os que mais relevam tudo que o presidente faz. E é excelente que todos estejam unidos nisso, pois de fato temos que sempre repudiar qualquer um que simule as ideias nazi-fascistas, mas acredito que há muito mais a ser dito sobre a situação.

No vídeo, Alvim anuncia a criação de um programa que irá premiar diversas forma de arte com um total de R$ 25.625.000,00. Qualquer liberal que se preze, qualquer pessoa que dê valor pelo seu dinheiro pago em impostos, deveria achar isso por si só um absurdo, independente de qualquer conotação nazista no vídeo. Ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores sempre acusou-se o uso de dinheiro público para premiar os amigos do rei através de incentivos à arte. O atual presidente continuamente critica o uso da Lei Rouanet para tal, referindo-se a artes mais “subversivas” como “Macaquinhos” em suas críticas.

É, não faz muito sentido. E o que também não faz sentido é o governo almejar a criação de uma alta cultura. Uma arte que seja “de verdade”, não aquela “coisa extremista”. Arte que espelhará os valores conservadores do governo, não os valores progressistas dos opositores.

Não acredito que almejar uma cultura e arte melhores — mesmo que isso seja subjetivo — seja um anseio errado por si só. O grande problema é usar dinheiro do pagador de impostos para financiar obras de arte que o povo… não tem interesse em assistir. Apesar de termos como um grande ícone da música no Brasil o compositor Carlos Gomes, cuja música é tocada todo dia na Voz do Brasil desde 1930, o brasileiro não se interessa por ópera. Isso é um fato, e jogar mais dinheiro na produção de óperas não vai mudar isso.

Um dos maiores erros desse pensamento é expressado pelo agora ex-secretário Alvim quando ele diz que “só interessa uma Arte que cria a sua própria qualidade a partir da nacionalidade plena, e que tem significado constitutivo para o povo para o qual é criada”. A arte não constitui um povo, mas o povo constitui a arte. Ele proclama que “almejamos uma nova Arte nacional, capaz de encarnar simbolicamente os anseios desta imensa maioria da população brasileira”, mas o único anseio que a população brasileira tem é que o dinheiro público suado que ela paga seja usado para melhorar os índices vergonhosos da educação, saúde e saneamento do país. Como uma população pode ter anseio por arte, querer arte de alta qualidade, se temos ainda 11 milhões de pessoas analfabetas em 2019, se há famílias com crianças doentes por não termos uma cobertura de saneamento básico decente? Ele diz que “quando a cultura adoece, o povo adoece junto”, mas a verdade é que o povo já está doente e a cultura fica doente por causa disso.

Que tenhamos como objetivo melhorar a cultura do país, mas sem esquecer de seguir gradativamente uma hierarquia de necessidades e prioridades que temos hoje. Alvim diz que o presidente o pediu para criar uma “cultura que não destrua, mas salve nossa juventude”. Bem, se o presidente quer uma cultura que salve a juventude, que tal começar permitindo que a iniciativa privada invista mais em museus, teatros e preservação de prédios históricos sem ser penalizada por isso? Que tal desburocratizar e sair do caminho dos empreendedores, e investir na educação, saúde e segurança? Aí sim, talvez, teremos um Brasil que salves nossas crianças, jovens, adultos e idosos.


Raphael Bastos é estudante de Gestão Pública pela UFRJ, liberal e tentando aprender algo novo todo dia.

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Raphael Bastos

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Raphael é um liberal estudante de Gestão Pública pela UFRJ e tentando aprender algo novo todo dia.

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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