Ninguém é heteronormativo!

A falsa oposição entre desconstruíd@s e padrãozinhos — ou “heteronormativos”

_erinhoos
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Sep 26, 2017 · 7 min read

Nas palavras de seu criador, Michael Warner, o conceito de heteronormatividade refere-se às

Instituições, estruturas de pensamento e orientações práticas que não apenas fazem ver a heterossexualidade como algo coerente — ou melhor, organizada como sexualidade — mas também privilegiada ou correta. Sua coerência é sempre provisória e seu privilégio pode adotar várias formas (por vezes contraditórias): passa incólume como linguagem básica acerca de aspectos sociais e pessoais; é percebida como um estado natural; se projeta também como um objetivo ideal ou moral. (Em coautoria com Lauren Berlant)

Assim como os regimes de organização da sexualidade, as ideias possuem, elas próprias, cada qual, uma história. O conceito de heteronormatividade originalmente buscava dar sentido às relações de gênero dentro de um determinado quadro histórico e social. Heteronormativo, quando usado como adjetivo, assim, deveria referir-se a um regime, e não a indivíduos. Os indivíduos não seriam heteronormativos, dessa forma, mas sim agiriam sob impacto da heteronormatividade. Como lembra Richard Miskolci,

A heteronormatividade marca até mesmo aqueles que não se relacionam com pessoas do sexo oposto. (…) Assim, a heteronormatividade não se refere apenas aos sujeitos legítimos e normalizados, mas é uma denominação contemporânea para o dispositivo histórico da sexualidade que evidencia seu objetivo: formar a todos para serem heterossexuais ou organizarem suas vidas a partir do modelo supostamente coerente, superior e “natural” da heterossexualidade.

Contudo, tenho visto que o termo “heteronormativo” vem sendo cada vez mais utilizado como uma categoria acusatória dentro dos meios (de esquerda) em que estou envolvido. Senão, vejo o qualificativo “heteronormativo” emergir às vezes como um recurso para dar sentido às diferenças entre performances de gênero: “aquele boy lá, que é bem heteronormativo”. Heteronormativo tem se tornado, assim, uma categoria que designa e dá valor a um matiz específico do binômio masculino/feminino, os corpos e ethos percebidos como “privilegiados”, “padrão” etc. É o reverso (essencialista) da heteronormatividade como a entende Warner. Para além das “instituições” e “estruturas de pensamento”, o conceito, para mim, se é útil, o é quando permite vislumbrar os processos mediante os quais diferentes masculinos e femininos se materializam estabelecendo relações de valoração.

De fato, não parece haver consenso sobre a utilidade do conceito mesmo entre os estudiosos de gênero e sexualidade. Creio existir uma tendência totalizadora no seu uso, como se ele fosse capaz de explicar todas as identidades e práticas sexuais a partir de um impulso heterossexualizador. O casamento e a definição de posições sexuais a partir da díade ativo/passivo revelariam tão somente a norma heterossexual, os critérios mediante os quais pessoas gays negociam seu lugar no mundo. Focar na heteronorma, assim, faz com que todas as ações das pessoas no mundo sejam vistas como fruto de maior ou menor aderência à normalidade hegemônica. A resistência a esta por vezes se apresenta na forma de uma tomada de consciência (o clássico marxista). Assim, a postura crítica à heteronorma pode ser lida como mutuamente incompatível com a mesma, o que é um equívoco. Não se rompe com uma linguagem dominante, senão a partir e através de suas fendas, rasgos e pontas soltas. Assim como a própria heterossexualidade está em perene negociação, assim procede com a postura crítica que podemos ter em relação à mesma. Deste modo, ninguém é desconstruído porque rompeu com o paradigma, porque não há como se estar alheio a ele; ele está sempre ali, como fonte primeira e inesgotável de repertório social. Daí que a postura crítica sobre o mundo é na verdade uma gestão crítica frente às hegemonias e às opressões.

Assim como não entendo que exista alguém heteronormativo, não entendo também que possa existir alguém desconstruído. Heteronormatividade e desconstrução são processos, e, como tais, convivem necessariamente juntas. Empreender esse deslocamento de significado para todos esses termos é destituí-los de seu potencial político. Tais ferramentas, ademais, foram justamente criadas como instrumentos eminentemente políticos.

Foto de Dmitri Popov em Unsplash.

Me volto, finalmente, para uma questão que tem chamado bastante a atenção dentro dos espaços online e offline que tenho circulado. Não é nada recente o debate — baseado em inúmeras constatações de fato — de que as práticas sociais gays replicam e refletem diferenças e preconceitos — para citar as querelas mais evidentes: a misoginia interna do movimento; as questões relacionadas aos privilégios de raça e classe; os diferentes pleitos acerca do que seria uma dignidade homossexual (matrimônio gay, barebacking etc.); transfobia e cissexismo.

A relação entre privilégios, padrões de beleza e seu reflexo na auto-imagem das pessoas tem ganhado terreno nesse espectro, e certamente reflete a espetacularização na maneira como as pessoas representam a si e às outras. Alguns aspectos subjazem esse terreno em construção: a gordofobia e a sua relação, por um lado, com o machismo e, por outro, com padrões de silhueta marcados por raça e acesso a tecnologias de (auto)produção corporal; os privilégios que ganham forma na maneira como certos corpos são valorizados em detrimento de outros; a solidão, isto é, os efeitos que escalas de valor sobre corpos causam no campo dos afetos; e a baixa auto-estima e toda a paranoia que acompanha a busca pelo corpo perfeito.

Estamos falando de uma questão extremamente importante, que reflete e articula opressões de naturezas diversas e que está na ordem do dia devido à obsessão insana que nossa sociedade estabeleceu e instituiu com as políticas da representação—no registro do controle e do espetáculo. É uma exigência política, assim, que não sejamos levianos com tais assuntos; trata-se de algo relacionado ao cerne das nossas subjetividades no nosso mundo hiper-moderno.

Contudo, a inabilidade em se lidar com essa questão tem sido, ao meu ver, flagrante em diversos âmbitos. Percebi isso quando, em uma confraternização de um congresso internacional sobre sexualidade, onde supõe-se que as pessoas tenham familiaridade com referências políticas e epistemológicas dos estudos feministas e gays, fui interpelado como “a bicha heteronormativa”. Pessoalmente, eu senti uma preguiça gigantesca. Mas também senti que havia algo de muito equivocado naquilo. Já era muito bem resolvido com minha identidade sexual e meu lugar no mundo—resultado de um processo tão longo como dolorido. Até aquele momento, já somava meia década de dedicação ao movimento LGBT e aos estudos de gênero e sexualidade. Fui introduzido, ironicamente, a estes, inclusive, pela própria Teoria Queer, o movimento político e acadêmico que, dentre outras coisas, criou a “heteronormatividade” como ferramenta de análise e ação política sobre as relações sociais. Grande parte do que sou hoje deriva de uma postura crítica que adquiri sobre mim mesmo e o meu corpo, uma postura que muitos chamam por aí de emancipatória ou empoderadora. Nada disso me impediu de ser chamado de “heteronormativo”. Mas okay, e acho que entendo como o sentido desse termo vem sendo deslocado dentro daquele debate público (mal debatido) sobre padrões.

Mas… E quando o poder de agência vem da aproximação com o dito “padrão”? Já tive a oportunidade de apresentar aqui uma entrevista com um garoto de programa. A mobilidade social para esse rapaz está diretamente relacionada à sua capacidade de produzir a si como hétero-aparentado, tendo o corpo impactado por exercícios físicos regulares etc. Quando as pessoas deliberadamente são flagradas em uma posição de privilégio — ou galgando privilégios — , significa então que elas expressam automaticamente uma postura reacionária sobre o corpo? Onde termina o conservadorismo e começa a resistência, então? Veja, não estou zombando dessas perguntas, mas sim pontuando justamente que elas têm que ser levadas a sério. Se elas não se sustentam até as últimas consequências, então estamos fazendo as perguntas erradas!

Não acho que esse debate seja simples. Há alguns anos atrás (quando o tanquinho era o mainstream comercial) se falava que pessoas gordas tinham que assumir suas barrigas. Agora que a representação pública é agenciada em ritmo eletrizante nas redes sociais (inclusive por influencers “padrãozinho” e seus antagonistas), chega-se ao ponto de discutir se publicar uma imagem de tanquinho é algo opressivo em si mesmo. Algumas coisas são evidentes — o espaço dos apps, quando eu os frequentava, é nojentamente fascista! Outras são extremamente ambivalentes. O que significa dizer que a Banda de Ipanema foi invadida pelos padrãozinhos? Como interpretar a toxicidade social do pornô mainstream sabendo que é com ele que tanta gente transa diariamente? Ademais, irônico!, fui apontado como “a bicha heteronormativa” pelas mesmas bichas (não-heteronormativas????) que passaram o resto da noite dando em cima de mim.

Vamos lá: reduzir as pessoas à díade “heteronormativo” ou “padrãozinho” versus “desconstruíd@” é útil para nós?

Eu pessoalmente não entendo que o conceito de “heteronormatividade” é o melhor dos inúmeros produtos críticos, potentes e ácidos que a Teoria Queer nos legou. Contudo, se é para lançar mão dessa ideia, que seja para levá-la bem a sério, para além do nosso bom e velho intra-sectarismo de esquerda. O anti-heteronormativismo é, sobretudo, para mim, uma postura crítica sobre o mundo. Tenho visto, contudo, a bandeira sendo hasteada e movimentada de maneira leviana, como uma tabela periódica para definir a composição, a qualidade e a textura das pessoas, para reproduzir preconceitos e egocentrismos. Do lado de cá, @s iluminadas, empoderadas e (supostamente) alheias ao “padrão”, aquel@s que acham que se emanciparam da hegemonia, senhores/as de si, militantes arrogantes, que acreditam ter transcendido a erotização do modelo-margarina, que ignoram que moldar o próprio corpo é uma forma de exercício da agência. Do lado de lá, os privilegiados, as barbies, beneficiários do passing, os gays que, sendo vistos como encarnações desse quase metafísico padrão, assumem um discurso patético, que ignora privilégios de cor, classe e gênero, e eventualmente adotam uma retórica fascistóide para justificar a própria acefalia e ignobilidade política.

E eu no meio, bem no meio mesmo, morreeeeeeendo de preguiça!


Ainda em tempo, agradeço à Redação da XXI, pela oportunidade de fomentar o debate e o dissenso em diferentes perspectivas políticas. Também faço reverência ao brilhante texto de Caco Baptista A., chamado “Caro gay branco padrão”. Agradeço, por fim, a Marcelo Perilo, pela leitura dedicada e sugestões.

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_antropólogo, barista informal, errante incorrigível, cantor de karaokê, sérião nas horas vagas

Vinte&Um

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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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