Perspectivas do G20 e mudança de rumos do Brasil

Por ocasião da reunião anual do G20, encontro das 20 maiores economias globais, que aconteceu semana passada em Hamburg, aproveito para discorrer um pouco sobre as pautas em discussão e as perspectivas do Brasil sobre os objetivos que foram propostos.

Em todo encontro, o país anfitrião propõe uma agenda a ser discutida, assim como a China o fez em 2016, a Turquia em 2015, agora a Alemanha coloca a Agenda 2030 no centro da discussão. Também conhecido como Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis, foi o documento criado após a Rio+20 que propõe metas não só para o crescimento econômico ambientalmente amigável, mas grande parte se refere as condições sociais, como diminuição da pobreza, da fome, melhoria da educação e saúde a nível mundial.

Foto oficial dos líderes de governo do G20 em Hamburg, Alemanha — 2017

Em conformidade com as propostas eleitorais da chanceler Merkel, destaco que essa reunião do G20 deva ser marcada por um esforço maior de liberalização dos fluxos comerciais e financeiros, e sobretudo, cooperação com a África. Como colocado pela líder alemã (e eu concordo), é cada vez mais importante promover um crescimento econômico de forma sustentável, não só pelo o esforço da Agenda 2030, como também como forma de mitigar os fluxos de refugiados, terrorismo a nível internacional e lavagem de dinheiro.

E o Brasil? Para início de conversa, o presidente Michel Temer tinha cancelado sua participação na reunião. Ao que parece, recomendação do próprio Itamaraty após o fiasco das viagens internacionais de junho. Depois, voltou atrás e foi. No último dia de reuniões, voltou mais cedo já que aparentemente estava perdendo apoio de sua base no Congresso. Só isso deveria falar muito, porém o ponto desse texto é outro. A princípio era sobre cooperação com África, como no decorrer do encontro esse tema ficou marginalizado, então focarei em abertura econômica.

As reformas propostas pelo atual governo não se propõem a liberalização do país. Nem no setor comercial, muito menos no setor de serviços. Talvez o fim das negociações de livre comércio entre Mercosul com a União Europeia me provem o contrário, como reporta a mídia europeia, só que meu ceticismo é justificado pela década de diálogos improdutivos. Me entusiasma quando Meirelles fala que é prioridade do governo entrar na OCDE.

O entendimento de alguns é que ser parte desta organização não é condizente com a posição de liderança dentro do G77, grupo de 134 países em desenvolvimento, e até mesmo com os planos de mudança institucional que os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) propõem. De forma resumida, por meio da criação de novos órgãos internacionais. Acredito que o Brasil é um país único nesse sentido, podendo fazer parte tanto da nova ordem mundial encabeçada pela China, quanto a antiga, liderada pelos Estados Unidos e UE.

Foto da Reunião Extraordinária de Chefes de Estado e Governo do G77+China em Santa Cruz, Bolívia — 2014

Olhando nossos companheiros de sigla, não temos conflitos político e militares com países do G7, como a Rússia. Ao contrário da China e Índia, não temos pretensão de ser superpotência. Para a África do Sul, ainda tem um longo caminho para se adequar aos critérios econômicos e institucionais que a organização requer. O Brasil já foi inúmeras vezes convidado a participar exatamente por estar próximo aos padrões da organização e ter boas relações com todos os países-membros.

Minha crítica aos governos anteriores é que faltou a percepção de que deveríamos buscar oportunidades não só na relação Sul-Sul, entre países em desenvolvimento, mas também com os desenvolvidos também. Estamos em um momento que favorece tal retórica, já que há interesse, sobretudo dos Europeus, de liberalização econômica e quiçá também na área agrícola, nosso grande impasse desde a rodada Doha na Organização Mundial do Comércio em 2001.

Outro ponto a se pensar é que a posição de membro da OCDE não muda a percepção que outros países tem do Brasil, talvez até ganharíamos em credibilidade. É difícil acreditar que países que são parceiros do Brasil de longa data mudariam de posição por isso, em especial, os lusófonos. Além de que os projetos do governo brasileiro de cooperação econômica teriam respaldo não só na agenda dos BRICS, mas também na OCDE.

Essa natureza dupla do nosso país pode abrir portas em todos os sentidos, pois aí estaríamos na trajetória de crescente cooperação com países que têm a contribuir para o Brasil com troca de informação e recursos —muito bem visto pelos investidores — , mas também com aqueles que anseiam por uma mudança para além de Bretton Woods.

Like what you read? Give Lucas Mendes a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.