Por que Tabata Amaral foge à oposição vale-tudo?

Quando teremos mais “Tabatas” no Congresso?

Samuel Dourado
Oct 9 · 3 min read
(Montagem/ Agência Brasil/EXAME)

O principal apanágio da democracia é a pluralidade de ideias. Convenhamos, é quase impossível — senão impossível — encontrar alguém que concorde com tudo que você pensa, faz e diz. A beleza dos regimes democráticos está na garantia do direito de concordar, discordar, e sobretudo, concordar na possibilidade de discordar.

A pluralidade democrática é tanto bela como um desafio para a sociedade. Como encontrar através da discordância, da pluralidade, do conflito de ideias, soluções? É nesse ponto que a política deve entrar em “cena”. Schmitter dizia que a política é a resolução não-violenta dos conflitos. Bom, para haver resolução, houve conflito; a política, portanto, seria caminhar entre o conflito e o consenso.

Nos regimes democráticos consolidados, democracia e política devem andar de mãos dadas. E a oposição de ideias deve ter um sentido específico. Isto é, não deve ter a finalidade de ‘destruir’ todo aquele que pensa de forma diversa (condição de integralidade de Schmitter); e ainda, não pode ser uma oposição em si. Em outras palavras, a oposição não deve ser um objetivo, a oposição é uma condição que deve ter como fim último o consenso, a resolução dos problemas.

Esse modelo, no entanto, não se aplica ao Brasil dos últimos 5 ou 6 anos. A polarização da sociedade e dos partidos políticos produziu uma condição de discordar por discordar. Em termos genéricos, uma oposição vale-tudo, ringue de UFC, na qual o principal objetivo é combater, fazer frente aos projetos do ‘outro lado’. Esse extremismo político tende a atacar todos aqueles que pensam na possibilidade de se criar ‘coalizões’, ‘pontes’, etc.

O caso mais recente ocorreu com a congressista Tabata Amaral. A deputada foi ao limbo depois de votar a favor da PEC da Previdência, contrariando indicação do partido a qual é filiada - o PDT. O grande pecado de Tabata foi basear seu voto no amplo relatório econômico e financeiro que sustenta a PEC, diferentemente do que grande parte da esquerda fez. Resultado: Tabata derreteu, foi suspensa do seu partido e sofre a possibilidade de ser expulsa do PDT.

O modus de Tabata de criar coalizões, analisar propostas independentemente se vindas do governo ou da oposição e criar consenso desagrada aqueles que apostam no “quanto pior, melhor”. Ou seja, sua atitude é incompatível com a oposição vale-tudo que apequena significantemente a esquerda brasileira.

Mais ou menos, duas semanas após a primeira votação da PEC, Laura Carvalho e Nelson Barbosa, proeminentes economistas heterodoxos, veicularam informações afirmando que a reforma da previdência não deve ser vista como uma derrota para a esquerda (como se as reformas devessem ter um gosto diferente para cada dogma político). Se a PEC da previdência não é axiologicamente negativa nem mesmo para a esquerda, por que não votar a favor dela? Por que não se pode abandonar as falácias proferidas pela esquerda como fez Tabata Amaral? Por que insistir na punição dos congressistas que, felizmente, divergiram dos seus partidos?

Por fim, cabe uma última reflexão. O Brasil sofre males da oposição vale-tudo desde 2015, segundo mandato de Dilma Rousseff. De lá para cá, tivemos um processo de impeachment doloroso, crise política e manutenção de quadro instável na economia. Nos últimos 4 anos, aprovamos poucas reformas, ora por ausência de capital político, ora pela falta de consenso entre os partidos. O Brasil derreteu no período, enquanto os partidos olhavam tudo através de um pedestal. Até quando o Brasil terá de esperar que os congressistas façam política (resolvam os conflitos)? Quando a oposição vale-tudo se transformará na grandeza da oposição democrática? Quando teremos mais “Tabatas” no Congresso?


Samuel Dourado é graduando em Economia pela (UnB) e escreve insights sobre Economia e Política no Twitter.


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Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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Graduando em Economia (Universidade de Brasília), liberal, escrevo sobre Economia, Política e Direito. Twitter: @SamuelDouradod2

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