Review Castlevania: é possível criar uma boa adaptação de jogos para a TV?

Quando pensamos em adaptações cinematográficas de jogos é normal ficarmos com o pé atrás. Logo lembramos de Resident Evil, Silent Hill, House of the Dead ou até mesmo a vergonhosa adaptação que fizeram do jogo Super Mario Bros. “Por favor Netflix, não amargue uma boa lembrança com mais uma adaptação fraca de jogos que eu gosto”.

Pelo menos foi o primeiro pensamento que tive quando foi anunciada uma série inspirada em Castlevania, franquia de jogos da empresa japonesa Konami. Ainda bem que a Netflix mostrou mais uma vez como eu estava errado.

Trevor Belmont, Sypha Belnades e Alucard: os três personagens foram introduzidos em Castlevania III e desembarcam na série de uma forma magistral

É bem difícil achar alguem que goste de videogames e nunca tenha escutado o nome Castlevania. É uma série de jogos que esteve presente em todas as gerações de consoles e, apesar do fraco spin-off Lord of Shadows, é lembrada com carinho por todos que a jogaram. A experiência que tive assistindo os quatro episódios iniciais da primeira temporada mostra que, pelo menos até agora, estão indo no caminho certo.

A série foi inspirada no jogo Castlevania III: Dracula’s Curse, que conta a história de Trevor Belmont e sua luta contra o Lorde Drácula (cliché? talvez), considerado como o jogo que cronologicamente dá início à história da série. De todos os personagens que acompanham Trevor no jogo, vemos na adaptação figuras como Sypha Belnades, uma poderosa sacerdotisa, e Alucard, filho do Conde Drácula (faltou o pirata Grant DaNasty, mas pode ser que apareça na segunda temporada da série).

Trevor Belmont em Castlevania III: Dracula’s Curse

Escrita por Warren Ellis (famoso escritor e roteirista de história em quadrinhos), Castlevania consegue mudar a narrativa clichê do Conde Drácula, mostrando que o mundo, mesmo o imaginário, não é tão preto no branco e que as fronteiras maniqueístas de bem e mal não são tão bem definidas como queremos acreditar. Temos um Drácula com o qual a grande maioria consegue se identificar e uma Igreja Católica que, sem spoilers, é a grande vilã da série.

A narrativa se constrói demasiadamente lenta nos dois episódios iniciais, mas consegue encontrar seu ritmo ideal nos últimos dois. A trilha sonora acompanha magistralmente o clima de suspense proposto pela temática da série e os dubladores escolhidos conseguem dar alma aos personagens que ainda estão se construindo no ideário do espectador. A animação é um ponto que merece atenção especial.

Se utilizando de tons escuros e vivos puxando para o vermelho, a animação de Castlevania consegue seguir a narrativa desenvolvida de modo que muitas vezes eu me senti imerso no universo da série e encantado pelo trabalho artístico desempenhado. Há alguns momentos de luta onde percebemos uma movimentação não tão natural dos personagens, mas ignorando esse ponto é possível afirmar que cada frame da animação é uma obra de arte em si.

É importante lembrar que apesar de ser uma animação e possuir uma temática bastante infanto-juvenil, a série não é recomendada para crianças ou espectadores com estomagos fracos para elementos gore. Braços decepados, olhos voandos, cabeças empaladas e excesso de sangue são somente alguns exemplos do que você pode esperar na série. E isso adiciona conteúdo para a narrativa muito além de ser somente uma violência desenecessária, como alguns chegaram a afirmar.

A série consegue entregar quatro episódios que introduzem os espectadores ao mundo criado pelo jogos. É uma série boa que cumpre com seu objetivo de agradar tanto a gamers quanto ao público geral, mas peca com a velocidade da narrativa. Quando a série finalmente começa a engatar, o quarto episódio acaba e só poderemos esperar a continuidade da história em 2018. Nesse quesito a Netflix errou feio com os fãs ao entregar uma trabalho que parece mais incompleto do que curto.

Por fim, espero que a série sirva de inspiração para outras adaptações mostrando que sim, é possível fazer um filme/série derivado de jogos que consegue construir uma boa narrativa sem perder a essência da história que o originou. Castlevania está disponível na Netflix e o serviço de streaming já anunciou a renovação da série para uma segunda temporada, com 8 episódios.

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