Rodrigo Maia, o PT e as voltas que a vida dá

Gleisi Hoffmann ataca Rodrigo Maia e diz que ele é “farinha do mesmo saco”, mas esquece de dizer que o seu partido e o PCdoB apoiaram Maia para a Presidência da Câmara dos Deputados sabendo que ele poderia virar Presidente da República.

Matheus Leone
Jul 10, 2017 · 5 min read
Givaldo Barbosa | Agência O Globo

Michel Temer parece estar diante do fim do seu governo. A imprensa já dá a sua queda como algo quase certo e, consequentemente, a ascensão de Rodrigo Maia (DEM-RJ), — presidente da Câmara dos Deputados — seria uma saída para a grave crise política que abala o país. Maia seria um nome capaz de dar a continuidade econômica que o país precisa sem, no entanto, manter um governo abalado por crises desde seu início (pelo menos em tese).

O que parece interessante, no entanto, é que Rodrigo Maia, do Democratas, chegou à Presidência da Câmara dos Deputados em uma aliança que envolvia não apenas a base aliada do governo Temer (essa sim tinha mais de um candidato), mas também partidos como o PT e o PCdoB, fundamentais para a vitória do deputado fluminense nas duas eleições que disputou.

Podemos dizer, então, que se Rodrigo Maia assumir a cadeira presidencial será por ter tido o apoio da esquerda para que presidisse a Câmara.

A presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), disse na semana passada que nenhum petista estaria autorizado a negociar com Rodrigo Maia e muito menos a articular para que ele fosse presidente. De acordo com Gleisi, Maia seria um mal igual, e não uma solução para o país.

Gleisi Hoffman, presidente do PT

Ora, a senadora nunca foi um exemplo de coerência pública, isso nós sabemos, mas é fundamental entendermos a falta de lógica na sua fala.

Primeiramente, se Gleisi se sentiu obrigada a desautorizar petistas de articular o nome de Rodrigo Maia é porque teme que essa articulação já esteja sendo feita ou que venha a ser feita por seus “cumpanheros”. Se soubesse que não havia essa possibilidade não sentiria a necessidade de fazer essa fala. Da mesma forma, se há petistas trabalhando nesse sentido é porque não concordam com a presidente do partido.

Em segundo lugar, Gleisi esqueceu de lembrar do apoio do PT para que Maia fosse eleito.

Enquanto Eduardo Cunha (PMDB-RJ)foi presidente da Câmara dos Deputados ele contava com um bloco parlamentar que envolvia diversos partidos na sua sustentação. O famoso Centrão (que envolvia partidos como PP, PMDB, PR, PSD, PSC, PTB e outros) era uma força impressionante na Câmara dos Deputados, tanto que conseguiu eleger Cunha em primeiro turno na Câmara contra a vontade da então presidente Dilma Rousseff.

Com a queda de Cunha, houve uma tentativa de se manter a unidade do Centrão, com o lançamento de um nome único para disputar a Presidência da Câmara representando aqueles partidos. Essa unidade não foi possível em um primeiro momento, mas chegou-se ao dia da eleição com uma definição mínima de que Rogério Rosso (PSD-DF) seria o candidato do grupo. Rosso era um candidato forte porque representava um grupo de partidos com número considerável de cadeiras na Câmara.

Do outro lado tínhamos a segunda candidatura forte na disputa que era a do deputado fluminense Rodrigo Maia, que vinha representando o que era a antiga oposição (PSDB, DEM, PPS e PSB) com a adição do PMDB, que rompido com o Centrão passou a apoiar Maia.

O que Gleisi preferiu não lembrar foi justamente que o PT e o PCdoB foram fundamentais para a vitória de Rodrigo Maia. Esses partidos tinham a intenção de impedir que um deputado do campo de Eduardo Cunha presidisse a Mesa Diretora. Para isso trabalharam para eleger Maia tanto para o mandato tampão quanto na sua reeleição (apesar de oficialmente terem apoiado o nome de André Figueiredo na reeleição, alguns petistas parecem ter votado em Maia enquanto o PCdoB o apoiou formalmente em ambas as eleições), quando era o candidato do Planalto.

Ou seja, o PT trabalhou para eleger aquele que contava com a maior simpatia de Michel Temer. E, obviamente, se a intenção do PT é derrubar Temer eles já sabiam que estavam elegendo Maia para possivelmente substituir o peemedebista em caso de sucesso da estratégia oposicionista.

A fala de Gleisi não é autêntica e na verdade mostra o grau de cinismo que se adotou no discurso do PT. Não ficarei nada surpreso se o partido passar a adotar a tese do “golpe dentro do golpe”, aquele tipo de narrativa surtada que só o PT é capaz de produzir.

Rodrigo Maia, que chegou jovem na Câmara dos Deputados e foi — aos poucos — construindo o respeito dos colegas tanto da direita quanto da esquerda, se mostrou um político habilidoso. Foi presidente do Democratas e impressionantemente conseguiu ser o candidato de um grupo em que seu partido não era sequer a maior bancada. O PSDB, maior partido do campo de Rodrigo Maia, abriu mão de lançar um candidato para apoiar o deputado do Rio de Janeiro. Isso mostra uma competência de Maia na negociação política, coisa admirável em um momento em que não se vê mais lideranças capazes de articular o extremamente pulverizado quadro partidário brasileiro.

Não é segrego que Rodrigo Maia tem boa relação com a esquerda no parlamento. Desde sua amizade pessoal com o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) até a forma com que conduz as sessões da Casa para garantir que a oposição não seja tratorada garantiram um respeito a ele dentro de partidos como PT, PCdoB e PDT (isso não quer dizer, obviamente, que conte com a simpatia ideológica desses partidos, afinal, continua sendo do DEM). Não seria completamente maluco nos depararmos com a possibilidade desses partidos preferirem derrubar Temer (o que querem a todo custo) para ver emergir um Rodrigo Maia, que apesar de pressionar as reformas do governo, ainda é um nome mais palatável para as esquerdas do parlamento.

Gleisi vai fazer sua parte enquanto presidente do PT e xingar Maia. Essa é a narrativa dela. Vai dizer que o PT também não gosta dele e que o que querem mesmo é uma eleição direta (coisa que não faz muito sentido diante da Constituição). No entanto, eu sei que a Gleisi sabe que no fim das contas Rodrigo Maia será presidente porque contou com o apoio do PT para o cargo em que está. O resto vai ser o intenso contorcionismo retórico tão típico do PT. O contorcionismo que consegue transformar Renan Calheiros (PMDB-AL) em herói do povo brasileiro e Lula na alma mais honesta do país.

Matheus Leone é cientista político e editor da Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

Matheus Leone

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Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

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