Spider-Man Homecoming
Usando de velhos e novos elementos, a Sony conseguiu reviver uma franquia que estava morta há mais de 10 anos

Em 2002 eu ainda morava numa cidade pequena no norte do país, Boa Vista-RR. O cinema de lá tinha apenas 2 salas e, com uma população um pouco maior que 200.000 habitantes, poucos eventos culturais e dificuldade de acesso, era a única coisa viável e não perigosa que uma criança de 8 anos poderia fazer de divertido nos finais de semana. E nesse ano lançaram a primeira adaptação cinematográfica de Homem Aranha, estrelada por Tobey Maguire, Kirsten Dunst, Willem Dafoe e James Franco. Lembro que vi esse filme umas 5 vezes antes de sair de cartaz.
Antes de ir assistir o novo filme, eu me senti na obrigação de rever a adaptação de Sam Reimi. Não, os filmes não eram as maravilhas que eu lembrava, mas não posso ser tão negativo quanto a isso. É preciso entender duas coisas: a limitação tecnológica das produções da época e o pioneirismo de fazer filmes de super-heróis para um público cada vez mais exigente sem entregar uma bizarrice sem pé nem cabeça (lembram do filme do Hulk de 2003, com Eric Bana? Pois é…).
Com tudo isso em mente, acredito que Sam Reimi fez um bom trabalho apresentando um Homem Aranha carismático e o manteve em Homem Aranha 2 — Homem Aranha 3 foi um desastre e não vale a pena ser citado — e deve ter seu mérito reconhecido. Após um hiato de 5 anos, saiu nos cinemas The Amazing Spider-Man, com Andrew Garfield e Emma Stone, que tentou replicar a mesma fórmula dos filmes de Reimi. O resultado? Mais um filme pra vermos quando estamos com preguiça de mudar de canal.

E, parecendo insistir no erro, a Sony anunciou novamente um reboot da franquia. Here we go again. Indo na hype de filmes recentes do Universo Cinematográfico da Marvel, a empresa deixou o orgulho de lado e investiu no colaborativismo com a Disney e, juntas, introduziram o Homem-Aranha interpretado por Tom Holland no filme Capitão América: Guerra Civil. E eu gostei.
Ainda assim, ouvi muita gente falando que não gostou do novo Homem-Aranha, que ele era muito infantil e falava demais. Parabéns! Você acabou de descrever o personagem das histórias em quadrinhos e provar que se trata de uma boa adaptação. Essas características inclusive foram exportadas para um outro personagem famoso da Marvel, Deadpool (merc with a mouth).
E o novo filme acertou em cheio na adaptação. Finalmente temos um Homem-Aranha que parece com um estudante do ensino médio e com pessoas que parecem ser do ensino médio. O filme não insiste em fazer que nem todos os seus antecessores e explicar de forma detalhada e cansativa a origem do aranha e isso cria uma narrativa bem mais natural e fluída para a história, sem flashbacks toscos ou adolescentes superdotados na arte da haute couture de uniformes.

A história não tem como ser muito original nesse ponto da vida: Peter Parker (Tom Holland) é um adolescente nada popular que tem poderes especiais e não pode contar para ninguém e é apaixonado por uma garota popular que parece ser too much para ele, Liz (Laura Harrier). Ele mora com sua tia May (Marisa Tomey) e é mentorado por Tony ‘IronMan’ Stark (Robert Downey Jr.). Entretanto, vemos um herói que ainda está se encontrando e isso acaba sendo uma própria metáfora para a vida de um adolescente, evitando os clichês que já estávamos esperando: “com grandes poderes, vem grande responsabilidades”.
O filme aposta em cameos de personagens já consagrados da Marvel, como o próprio Tony Stark e Happy Hogan (Jon Favreau). Além de contribuir com a trama, essas aparições ditam e inserem quem será Peter Parker dentro do MCU (Marvel Cinematic Universe). O grande antagonista do filme é o Abutre (Michael Keaton) e achei muito interessante o modo como ele foi inserido. Não é um vilão forte ou muito maléfico, sendo que qualquer um dos Avengers poderia facilmente derrotá-lo, mas para Peter é um grande adversário dada a inocência e inexperiência do herói.
O filme foi traduzido como Homem-Aranha: De Volta ao Lar e o título brasileiro é bem condizente com sua proposta: nos remete às origens do personagem e esse filme faz justamente isso. Vemos um aranha carismático e, apesar dos seus super-poderes, mais humano do que poderíamos esperar. A mais recente adaptação acerta em cheio ao trazer um Peter Parker mais fiel aos quadrinhos e capaz de se relacionar com um público mais jovem. Até o momento, foi o filme do herói que arrecadou maior bilheteria mundial em sua estreia e promete ser um divisor de águas para a Sony.

