Sublimar o insublimável

Um début literário

Matheus Leone
Jun 26, 2018 · 3 min read

Nunca me considerei um escritor propriamente dito, daqueles que escrevem com a beleza ou a sagacidade típicas dos que têm o talento de brincar com as palavras e pensamentos através de parágrafos, que empilhados se transmutam em arte. Para todos os efeitos, sempre fui alguém de escrever opiniões, muitas vezes maçantes, sobre temas que creio ter maior familiaridade: política e — bem modestamente — economia. Qual não foi minha surpresa ao ler alguém recomendar que eu escrevesse crônicas ou divagações sobre vivências pessoais (pasmem!, até mesmo fora da política).

O que eu teria a dizer sobre qualquer coisa que não política? Essa foi a primeira pergunta que logo me veio, como um galante tapa na cara. Terei eu vivências para relatar? Que interesse poderiam ter as pessoas nas vivências de alguém tão… sem vivências! Não me levem a mal, mas até este que vos fala considera esse tal Matheus Leone digno apenas de adjetivos que eufemisticamente remontam ao tédio e à monotonia. Política, política, política. É isso que esse rapaz sempre viveu, então é disso que pode falar.

Há aqueles que conseguem recolher as minúcias da banalidade mundana, de uma ereção numa manhã de domingo, e transformar isso na mais bela prosa, vívida e transcendental. Aliás, não seria esse o papel do bom escritor? Enxergar nos detalhes os padrões humanos, o metafísico? O escritor é aquele que sublima o banal. Quem sou eu para sublimar o que quer que seja?

O que diabos deveria eu sublimar? O sol da tarde que penetra as janelas da sala, embaçadas pela poeira da Brasília junhesca? Ou, quem sabe, a agonia de sentar-se em frente ao computador para escrever o que passa ao largo de minha zona de conforto? Há sublime nisso? Ah, sem dúvida há. Eu só não sei encontrá-lo. Dizem que é uma questão de prática.

Eu sei sublimar o liberalismo. Sim, isso eu sei. Eu sei formular tratados sobre a separação dos poderes enquanto fundamento basilar da liberdade, que se manifesta principalmente no sistema de checks and balances que controlam o poder. Já o sol da tarde recaindo parcialmente sobre o sofá da sala… sofrível. Vai ver é por isso que não tenho sorte no amor. Será que arrumaria um beijinhos caso soubesse dignificar o sol?

Vou é fechar as cortinas e cultivar minha deficiência de vitamina D.

A agonia que permeia meu début no domínio literário é o desconforto geral com o inexplorado. Com a virgindade imaginativa que se manifesta no medo e na ansiedade. Afinal, a opinião alheia ainda é a mais repressiva das forças do planeta, que de uma forma ou de outra se faz presente — tal como uma sombra — sobre todas as iniciativas pessoais. E se as pessoas não gostarem das vivências que tenho a relatar? Ó, agonia. E se minhas vivências forem banais demais? É difícil sublimar o McDonald’s de uma noite de sexta-feira.

Devo persistir e romper os grilhões da tal opinião alheia e embrenhar no mar da sublimação do banal? E se — além das vivências não serem boas — o texto em si não for bom? Que pavor! Que ridicularização perante a sociedade! O début literário prontamente vira humilhação, ou pelo menos humilhação em potencial. Ou não, vai que gostam. Vai que descubro aqui uma veia furtiva, inexplorada, que me permita novas formas de me expressar para o outro, para os outros. Bem, a hipótese parece remota, encoberta por muitos anos de humildade forçada e pelo medo do desconhecido. Não custa tentar, imagino. Quem sabe?

Aliás, as cortinas permanecem cerradas. Algo de sublime nisso?


Matheus Leone é cientista político e editor-chefe da Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

Matheus Leone

Written by

Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

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