Um começo conturbado

O que diabos o presidente e sua equipe estavam fazendo durante a transição?

Matheus Leone
Jan 7 · 3 min read
Foto: Wilton Junior/Estadão

O governo de Jair Bolsonaro está completando uma semana e já tem polêmicas e confusões suficientes para o mês inteiro. Cabeças batendo, frases polêmicas e entrevistas desastrosas se amontoam, gerando instabilidade e nos fazendo questionar o que diabos essas pessoas estavam fazendo durante a transição.

A coisa já começou com a posse dos ministros. De um lado Damares falava em meninos de azul e meninas de rosa enquanto Ernesto Araújo vituperava contra o globalismo, os que odeiam Deus e o bom senso. As confusões foram suficientes até mesmo para ofuscar o correto discurso de posse de Paulo Guedes, ministro da Economia, que foi um dos poucos a apontar caminhos claros para sua pasta.

A coisa ficou mesmo estranha quando o presidente decidiu dar uma entrevista maluca ao SBT, falando sobre coisas que não entende e que aparentemente não alinhou bem com sua equipe econômica. A fala sobre reforma da previdência foi desastrosa e indicativa de um total desconhecimento da matéria. Forçou até mesmo o recém-aliado Rodrigo Maia a entrar em campo para dizer que em caso de idades mínimas de 62 (homens) e 57 (mulheres) seria inviável uma transição.

A coisa não para por aí. O ponto alto da imensa balbúrdia foi a fala de Bolsonaro sobre IOF. O presidente afirmou ter assinado decreto que elevava o imposto sobre operações financeiras, coisa que gerou reboliço no mercado. Não satisfeito, tirou da cartola números sem sentido para falar de uma suposta revisão em faixas do imposto de renda. Na questão do IOF, foi desautorizado pelo Secretário da Receita, Marcos Cintra. Mais tarde, o ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni (DEM/RS) veio dizer que o presidente havia se equivocado em ambos os temas.

Nunca antes na história deste país um presidente foi desautorizado por um membro do terceiro escalão do seu próprio governo.

Quando se imaginava que as coisas estavam se organizando, O Antagonista noticiou que o ministro Paulo Guedes já estaria pedindo a cabeça do chefe da Casa Civil. De acordo com o site, Guedes teria dito a investidores que se Onyx não cair em 90 dias as reformas poderão ser comprometidas.

Nunca vimos uma bateção de cabeça tão grande em um começo de governo, o que nos faz perguntar para que serviu a transição. Pelo visto, estavam todos muito mais preocupados em anunciar nomes e fazer frases de efeito em redes sociais que em alinhar o discurso e os projetos para o país.

É particularmente interessante que um presidente da República atravesse uma campanha eleitoral e uma transição sem conseguir estabelecer qual a sua proposta para a Previdência, tema central para a saúde fiscal do país. Sem reforma, vamos à falência. Com reforma meia boca, vamos à falência poucos anos depois.

Ainda assim, as preocupações maiores ainda parecem ser com fantasmas levantados na campanha eleitoral. O presidente grita contra o marxismo nas escolas quando deveria estar preocupado em conseguir que nossos alunos leiam e entendam um texto, marxista ou não. Bate boca com o irrelevante Fernando Haddad no Twitter quando deveria estar preocupado em montar uma base parlamentar sólida para aprovação das reformas.

Há uma lua de mel com o presidente dentre eleitores e mercado, mas esse prestígio inicial tem que ser gasto no que importa, e não em baboseiras conspiratórias e briga dentro da equipe.

Não votei em Jair Bolsonaro (e nem em Haddad) e critiquei o que considero uma inexperiência de Paulo Guedes quanto ao mundo real do setor público, mas torço para que o ministro consiga impor sua pauta econômica. Torço pelas reformas e as defenderei.

O que não é possível é que essa confusão continue. Ela sim ameaça a aprovação das reformas. Se membros do governo são incapazes de concordar em temas centrais, como conseguirão convencer o Congresso Nacional?

Está na hora de botar os pés no chão e perceber que a eleição acabou e que o momento é de trabalho. Falar menos e fazer mais. O Brasil agradeceria bastante.


Matheus Leone é cientista político e editor da Vinte&Um.

Matheus Leone

Written by

Cientista político (UnB), brasiliense, liberal, coordenador do Livres no DF e criador da Revista Vinte&Um

Vinte&Um

Vinte&Um

Política, economia, sociedade, cultura e sexo sob a ótica do século XXI. A contemporaneidade exige uma visão moderna sobre os tópicos que movem a sociedade.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade