Uma história triste sobre a Tijuca

Há um ano atrás, a violência me fez querer largar um dos bairros que mais amo nessa cidade inteira

Praça Saens Pena e os seus famosos cinemas de rua (Internet/Reprodução)

Carvalho* chegou falando barbaridades que me surpreenderam. Ele nunca foi simpático com moradores de rua. Sempre entrava com aquele velho papo de que quase o seu pai foi morto por um. Vira e mexe, a história de “são sempre sujos e drogados”. Dessa vez, não foi diferente:

– É claro que dessa vez eu estou falando sério!
– Sério de que? Preconceituoso — rebati.
– Desisto! Desisto! Você é sempre assim.

Nessa conversa, estávamos falando dos moradores de rua que vivem no entorno da praça Saens Pena, coração comercial tijucano. Ali se aglomera não somente loja, mas cultura, também. Na Zona Norte — ou na Zona Sul da Zona Norte, como os moradores gostam de falar –, a Rua Conde de Bonfim foi a segunda Cinelândia da cidade. Tudo se concentra ali, inclusive, o perigo.

Nesse dia, ele queria me alertar. De acordo com ele, muitos dos que ficavam por ali, tanto na Rua General Roca, quanto na Major Ávila, a famosa Rua das Flores, se aproveitavam daquilo para furtar pessoas. Obviamente, não acreditei, até ver com os meus próprios olhos: além do menino que levou o celular de uma mulher e sumiu na multidão, sem ela perceber, outros aproveitaram o momento de caridade para puxar alguma coisa da bolsa ou do bolso do beneficente. O bem acabou virando um golpe. Rapidamente, meti o pé. Só entrei no metrô e esperei chegar no Jardim Oceânico. Estava ofegante.

Esta conversa foi há três anos atrás, antes da crise. Agora, quando me encontrei novamente com Carvalho, menos nariz em pé e mais atento às realidades após sucessivas leituras, ele mantém os alertas, porém, mais receoso. Em uma noite, estava passando pela General Roca, em direção ao Shopping Tijuca, quando um homem, que nem era camelô, tentou cercá-lo para mostrar um produto, mas, no reflexo de um vidro, notou outro homem observando-o de longe. Rapidamente, saiu dali. Para ele, seria assaltado assim que entrasse em uma rua deserta ou se distraísse.

Críticas de furto e roubos vieram crescendo no entorno da Praça Saens Pena de 2014 para cá, na fase de ouro do bairro, depois das UPPs. O Facebook e WhatsApp, mesmo com todos os boatos, andam sendo bons meios para comunicar possíveis riscos, já existindo grupos justamente para esses fins. Estava em casa, assistindo filme, quando um colega me enviou uma mensagem para evitar a região. Adolescentes tinham acabado de roubar uma loja no Shopping Tijuca e alguns fugiram em direção à praça. Por volta das 16h, em dia útil, a região tem movimento até às 20h, sem parar. O pânico não foi pouco quando os tiros surgiram.

Os problemas não são de agora. Frequentador de longa data e ex-morador, a rotina do medo sempre foi instalada na região da Grande Tijuca, ao ponto do Largo da Segunda-feira, que já tem esse nome por conta de um homício em 1762, entre conhecidos se chamar “Largo da Sexta-feira 13”, de tanto que já foram assaltados naquelas bandas, há mais de 10 anos atrás.

Em fevereiro de 2011, na Praça Saens Pena, em frente à Pacheco da Igreja Universal, após mexer no meu celular, fui cercado até eu entregar o que era meu, com direito a ouvir de um Guarda Municipal:

– Quer o que, também? Deu mole! — Era 14h e a rua estava movimentada.

Em junho de 2012, na região do Maracanã, um velho armado — isso mesmo — levou outro celular meu, porém, este era uma linha só para ligações, ou seja, aparelho ruim e velho. Em dezembro de 2015, na Avenida Paulo de Frontin, dois homens em uma moto me cercaram, levando o meu celular do trabalho e o pessoal. No final, ainda levei um soco no ombro. Mas o pior aconteceu no ano passado, há um ano cravado, na histórica sede do América, quando um motoqueiro colocou a arma na minha cabeça e pediu o celular novinho. As marcas do trauma ficam até hoje e na conta corrente. Instrumento de trabalho, em um ano, o prejuízo foi de cerca de R$ 2.500, fora os dias em que fiquei sem trabalhar por conta do medo.

A questão da violência na região da Grande Tijuca é tamanha. Passei o Natal passado em um apartamento próximo às comunidades do Turano. No sábado, resolvi problemas pelo dia inteiro. Quando voltei para onde eu estava, todo mundo só falava de tiro. Na Chacrinha, o “tiro comeu” de manhã e de tarde. Nem no Natal, sábado e domingo, aquelas comunidades tiveram paz.

A situação não se encerra aí. Dos anos em que morei na Zona Oeste da cidade, a violência jamais foi uma preocupação nos limites do meu bairro. Hoje, é, entretanto, nunca calhou de estar em casa e ser recepcionado com uma bala na parede da minha sala de estar. Isto foi em uma dia de semana qualquer, com a rua completamente engarrafada, e sem sinal algum de que algo estranho tinha acontecido. Até meses depois, no dias das mães de 2016, tudo vir abaixo: comunidades do Rio Comprido e Tijuca entraram em conflito. A Avenida Paulo de Frontin, importante ligação entre as Zonas Sul e Norte, ficou fechada pela polícia e ninguém tinha coragem de passar por lá por um bom tempo. Quem mora na região relata nunca ter ouvido tanto tiro naquelas bandas.

*O nome do personagem foi alterado para preservar a identidade e privacidade.


Estou há uma semana querendo escrever alguma crônica sobre algo do Rio. Algo bom, algo gostoso, algo prazeroso. Entretanto, ao acordar, hoje, e ver a data (29 de agosto), os aplicativos e a cabeça me lembraram que faz exatamente um ano em que escrevi no meu diário e comecei a cogitar a morar na Zona Oeste por conta desses problemas acima.

Isto não é um relato jornalístico. Acabou sendo uma crônica sangrenta com fatos reais sobre o que vivenciei em um dos bairros que mais amo nessa cidade, a Tijuca. E a situação só piora: dia desses, por volta das 22h, em uma sexta-feira, um aluno da minha universidade foi esfaqueado na passarela que liga à estação de metrô de São Cristóvão. Obviamente, há um certo medo na região, e o que a gente mais teme: não se sabe quando isso tudo vai acabar.

A crônica ficou para outro dia. Infelizmente.

Bruno De Blasi é editor da Vinte&Um e estudante de Jornalismo.