Volúpia e poder

Precisei refletir por muito tempo para encontrar a melhor pauta que me introduzisse nesta nova plataforma. Sinto-me na obrigação de contar um pouco sobre a minha história, pois ela acaba refletindo em meus relatos. Bom, eu saí de casa muito cedo. Encarei o mundo com a cara e a coragem, mesmo que muitas vezes esta não era suficiente. Encontrei no calor de outros corpos o conforto que a vida cotidiana me tirava. E eu gostava.

A rapidez e efetividade em procurar um novo parceiro para um encontro meramente momentâneo era absurda. Parecia-me incrível como os homens, em geral, caem na mesma ladainha. Bastava um “moro sozinha” que já estavam engatando a segunda marcha do carro. O gozo carnal me bastava. E eu era totalmente feliz com isto. Win win, right? Nope!

Na graduação eu acabei me envolvendo com linhas de pesquisa sobre o corpo, erotismo e pornografia. O que me ajudou a ressignificar meu modo de enxergar o mundo. Tentei observar com mais criticidade as coisas ao meu redor e cheguei a ter amantes remotos apenas em nome da ciência. Ao fazer estudos dos casos, o denominador comum era curioso: as pessoas gostam de estar em controle ou, pelo menos, pensar que estão em controle. É possível supor que isto se dá porque, muitas vezes, todo o ritual por trás do ato sexual perdeu espaço para o caos diário. Talvez seja mais fácil se entregar a outros corpos que tentar ter uma relação real.

Sexo é poder?

Sexo é o que move o mundo e tudo é sobre sexo.

Utilizar o próprio corpo como fonte de prazer e liberdade é algo muito atual. Até a revolução feminina, na década de 60, que por sinal foi diminuída a uma revolução sexual, o homem possuía a função de ativo, o gozo feminino era renegado e havia resquícios da velha crença de que sexo seria exclusivo à procriação. Depois do advento da pílula anticoncepcional, garantiu-se a emancipação e o “direito” de escolha ao corpo feminino. Pois ao ter a oportunidade de escolher quando ou se vai engravidar, criaram-se precedentes para afirmar a sua própria sexualidade sem medo de ser podada. Descobriu-se, aos poucos, que ela também é capaz de sentir tesão.

Antes mesmo deste acontecimento, nas grandes guerras as esposas passaram a substituir os maridos, que foram lutar pelo seu país, nas indústrias. Viram, assim, a oportunidade de vender a um público ainda não muito explorado e a mulher virou, decididamente, um consumidor em potencial. Ao mesmo tempo em que tinham livre arbítrio em suas escolhas, acabaram sendo domesticadas com os padrões corpóreos impossíveis que eram — e são — propostos pela Indústria do consumo. Se antes era proibido, passara a ser fundamental falar e discutir sobre os prazeres da carne. Sua sexualidade fora mercantilizada e a liberdade não passara de uma ilusão.

A volúpia foi domada e o desejo passou a ser regido pelo econômico. Não é mais sobre sentir prazer e sim poder senti-lo, a partir, claro, das ideias e valores fomentados pela indústria.

Deste modo, sexo pode ser encarado como um jogo de poderes quando é visto como uma troca de favores e excitações. O poder, neste caso, se definiria pela ideia da estratégia por trás de algo para alcançar algo e, simplesmente, pela possibilidade de o fazer. Ou seja, convido-lhe a um jantar porque acredito que no final da noite conseguirei “me dar bem”, digamos. Não se trata mais da experiência emocional por trás da transa e sim do que esta pode lhe proporcionar. É um jogo de desejos, em uma busca eterna de minimizar a dor e maximizar o prazer.

Isto acabou por agregar certa dificuldade quando se trata de estabelecer laços mais profundos, seja por insegurança ou medo. O que é compreensível na nossa realidade em que a juventude é instigada, inteiramente, pelo desejo. Desta forma, as relações ficaram fragilizadas e, dificilmente, duradouras.

Ah, encheu muito o saco? Next!

Podemos até culpar a geração que nasceu e se criou assim, mas devemos concordar que há uma falta de interesse quando a figurinha é repetida. É preciso ansiar o novo. Pois temos sede de viver a todo custo, somos o agora e tememos o amanhã. Porque em tempos de liquidez, a única certeza que temos é de que tudo é incerto.


Eduarda Formiga é Jornalista em formação e esboço de pesquisadora em comunicação.

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