Vencedores não jogam

Uma reflexão sobre identidade no maior cassino do mundo

Asafe Gonçalves Pereira
Nov 1 · 3 min read

Pergunta: O que fazer no seu tempo livre com um grupo de crentes em Macau, na China?

R: Visitar o Venetian, óbvio!

Venetian Macao (Macau, China)

Antes de começar, algumas coisas interessantes sobre os cassinos em Macau:
- Têm um cheiro doce ao redor de todos eles;
- Alguns tocam música de elevador no gramado exterior;
- O Venetian, como o nome indica, imitava as ruas de Veneza e, em alguns salões, imitava também o céu de Veneza — não que eu já tenha visto o céu de Veneza, mas me contaram. Coisa linda.

Quem já leu Você é Aquilo que Ama do James K. A. Smith consegue imaginar a intencionalidade por trás de tudo isso com alguma facilidade… bom, eu não tinha lido.

Enquanto fotografava um dos pátios com suas pontezinhas e gôndolas, vi uma placa em que se lia “FogoSamba — Churrascaria Brasileira”. Fiquei sem palavras! Cotovelei uns dois amigos e acenei com a cabeça. Por alguns dias vínhamos procurando comida brasileira em Macau, mas, como não conhecíamos a cidade, encontramos pouquíssimos lugares. Empolgados com a descoberta, resolvemos entrar e averiguar a veracidade da placa. Já passava bem do horário de funcionamento, mas a porta ainda estava entreaberta.

Entramos! #ousadiaealegria

A música ambiente era nada menos que Seu Jorge e a esperança tomou conta. O salão estava inteiramente vazio, mas eu cheguei falando português e dando boa noite como se fosse o Maletta aqui em BH. Os outros dois, fazendo cara de quem fosse pedir uma mesa, também fizeram tudo parecer super normal. O garçom veio. Era chinês. Tudo bem, em Macau, nada mais esperado que um garçom chinês. “Ainda é bem possível que ele fale português”, pensei.
Ele respondeu:

Can I help you, sir?

[cries in portuguese]

Ligeiramente decepcionado, mas com aquela esperança de quem não desiste nunca quando Seu Jorge tá tocando, perguntei se havia no restaurante alguém que falasse português — de preferência um brasileiro — ao que ele respondeu bem satisfeito:

Oh, yes! Chef Julio — CHEF JULIOOO! E se foi cozinha adentro, enquanto seu grito ainda ecoava no salão vazio.

De dentro da cozinha me sai um cara com um pano no ombro, uma panela recém-lavada debaixo do braço e algo que me pareceu uma concha na outra mão. Era o sábio chef Julio — Julio Leal, de avental e gorro.

Com um sotaque gaúcho ele solta:
— Bah, tu é brasileiro?!

Daí pra frente foi só alegria. Chef Júlio me contou sua história e várias outras; contou das dificuldades e das facilidades que encontrou; dos chineses, dos filipinos, dos macaenses, do povo de Hong Kong e de todo tipo de gente que frequentava o restaurante e o casino — também da curiosa relação entre brasileiros e jogos.

Quando perguntei se ele jogava, uma expressão bastante séria surgiu nos olhos do chef e ele me disse sem demora “os vencedores não jogam”, e passou então a explicar a tristeza e o desespero do sistema em que sobrevivem os cassinos… sobre isso eu contro noutra ocasião, mas aquela frase me fez tirar um caderno do bolso e anotar na hora (chef Julio achou estranho, mas não me importei).

Chef Julio trabalhava no cassino diariamente, mas sua missão era outra. Ele servia tanto a turistas quanto a jogadores, mas não era um nem outro. A consciência de sua realidade me fez lembrar a recomendação do apóstolo Paulo aos irmãos romanos:

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Romanos 12:2

Os vencedores não jogam! Uma frase de efeito relativamente simples, mas que me fez pensar na minha própria realidade como cristão salvo em Jesus Cristo. Não só no cassino, mas no mundo! Enquanto muitos se alegram, se desesperam, se perdem e se matam pelo prêmio que o mundo promete, o cristão já encontrou seu prêmio e não está em busca de nada que essa vida tenha a oferecer — já venceu, não joga. Não se desespera com a desgraça nem se impressiona com a fortuna, pois ambas desbotam diante do conhecimento do evangelho; mas não se entrega à apatia, pois reconhece a graça comum em todo tipo de riqueza e vê sua missão em todo tipo de miséria.

Sentimos o cheiro, ouvimos a música, servimos a turistas e jogadores, mas nosso coração já está descansado na Esperança.

Vitral

Expressividade humana, criada, resposta. Busca incessante pela beleza e seus encantos, reflexo da verdadeira Luz! Espaço de confissão e reflexão daqueles que buscam a Imagem da Perfeição.

Asafe Gonçalves Pereira

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Impostor em vários frontes. Usuário de drogas pesadas, a saber, café e transporte público. Viciado numa, dependente da outra.

Vitral

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