Como fazer anotações nas atividades de UX

Um sistema simples para organizar suas anotações

Não é a toa que em geral profissionais de UX amam um caderno Moleskine: desenhar e anotar coisas faz parte do nosso cotidiano. Mas fazer anotações, principalmente durante uma entrevista ou teste com usuários, é uma tarefa muito mais difícil do que parece: é preciso saber o que, quando e como anotar. Afinal, nem tudo que se observa vale a pena ser anotado; nem sempre podemos dedicar nossa atenção para anotar; e é muito difícil escrever algo que faça sentido quando você tem que anotar diversas informações no mesmo instante. Claro, dependendo da atividade, às vezes conseguimos gravar, mas nem sempre gravamos tudo o que gostaríamos (às vezes temos apenas o áudio, a expressão da pessoa ou a tela do dispositivo) e nem sempre a gravação fica como esperávamos. Logo, é importante estarmos sempre preparados para fazer anotações no bom e velho caderno.

Neste texto irei focar em como pessoalmente eu lido com o problema de como anotar. Mas por que isto é um problema mesmo? Bom, infelizmente as idéias e observações que valem serem anotadas raramente chegam em um fluxo balanceado: em geral você muda rapidamente de momentos sem ter que sequer encostar a caneta no papel para momentos em que você precisaria de seis mãos para anotar tudo sem perder nenhuma informação. E mesmo que você consiga anotar tudo em apenas algumas palavras-chave, logo elas se misturam e passam a perder o sentido. It’s a mess.

Por conta disso, nos últimos anos criei um sistema simples que me permite facilmente organizar minhas anotações independente da atividade de UX que eu esteja executando: entrevistas com stakeholders ou usuários, testes de usabilidade ou até mesmo inspeções de interface. E o melhor deste sistema: é fácil de aprender e aplicar.

Como o sistema funciona

O sistema simplesmente se baseia em rapidamente classificar cada anotação e então escrever uma breve descrição precedida por um marcador específico. As anotações podem ser classificadas em um de quatro tipos:

  1. Pontos positivos. Estes pontos são representados por um círculo ○. Qualquer comentário positivo que seja feito sobre o produto tema de uma entrevista ou teste, ou reação positiva que você observe em um usuário por conta de alguma funcionalidade (“O usuário gostou da animação de confirmação”, por exemplo), deve ser classificado como ponto positivo. No caso de uma inspeção de interface, você pode marcar como ponto positivo algo que acredite que vá proporcionar uma boa experiência de uso e que valha a pena destacar nas suas anotações.
  2. Pontos negativos. Ao contrário dos pontos positivos, tudo que representar um problema ou comentário negativo deve ser anotado com um quadrado na frente ◻︎. Caso a pressa seja grande na hora de anotar, e o problema seja fácil de identificar novamente, você pode colocar um quadrado seguido apenas da seção ou fluxo onde o problema foi identificado. Por exemplo, se o problema é uma falha de validação durante o login você pode apenas anotar algo como: “◻︎ login”.
  3. Ideias. É natural que surjam diversos insights seus, de um stakeholder, usuário ou de quem mais estiver envolvido durante a atividade que você está executando. Para anotar este tipo de informação, basta inserir um triângulo na frente △. Apesar de também ser positiva, é importante não confundir uma ideia com um ponto positivo na hora de anotar. Pontos positivos se referem apenas a coisas já existentes, enquanto ideias se referem a coisas que podem ou não serem implementadas no futuro.
  4. Outros. Nem tudo o que sentimos a necessidade de anotar durante alguma atividade de UX são pontos positivos, negativos ou ideias. Às vezes uma entrevista, por exemplo, pode levantar dúvidas sobre o produto (“podemos adicionar múltiplos e-mails atualmente?”); ou durante um teste de usabilidade podemos anotar alguma atividade que queremos fazer depois (“anotar todos os cenários em que este último erro pode ocorrer”). Nestes casos utilizamos na frente apenas um marcador comum de traço — .

Nem todos os pontos positivos, negativos e ideias tem a mesma relevância. Um problema de alinhamento na interface não se compara a um botão que deveria funcionar e não funciona, por exemplo. Para destacar durante as anotações os problemas mais graves ou ideias e pontos positivos mais relevantes, basta preencher os marcadores: ● ◼︎ ▲. Como um dos objetivos deste sistema é não perder tempo na hora de anotar, existem apenas estes dois pesos (normal e destacado), pois um sistema de pesos maior ou mais rigoroso (como os de severidade ou prioridade) atrasaria as anotações.

Anotações para todos os gostos

Seguindo este sistema, não só a escrita como o consumo das anotações se torna muito mais fácil e rápido: por exemplo, se alguém lhe perguntar após um teste quais os problemas mais graves que você observou basta buscar os quadrados preenchidos ◼︎ nas suas anotações e pronto. Se bem feito já serve até de documentação, e outras pessoas (que tenham acesso à legenda dos marcadores) poderão facilmente extrair direto de suas anotações quantos e quais problemas, pontos positivos e idéias surgiram da atividade.

Caso deseje, você pode trocar os símbolos mencionados por outros de sua preferência ou até criar novos para situações específicas, como no caso deste artigo, que ensina como utilizar letras para registrar 13 tipos diferentes de situações durante um teste de usabilidade. Claro, isso vai da necessidade e capacidade de memorização de cada um. O importante é que o sistema adotado venha facilitar, e não complicar, a organização das suas anotações.

Se além de observações você quiser registrar afazeres, e seu foco for manter tudo apenas em cadernos (ao invés de eventualmente transcrever pro computador), sugiro dar uma estudada em um sistema muito bacana chamado Bullet Journal, que lhe ajuda justamente com isto.

Você utiliza algum sistema de anotação também? Prefere anotar apenas no computador ao invés de em cadernos? Tem sugestões sobre o sistema que descrevi? Mencione abaixo nos comentários!